Feiquinius, por Izaías Almada

Para fingir que está tudo bem, dois caminhos vão se mostrar cada vez mais presente no nosso cotidiano: a guerra, localizada ou não, e a divulgação de feiquinius em quantidade cada vez maior

Feiquinius

por Izaías Almada

Em primeiro lugar será preciso traduzir o título acima, escrito originalmente em tupi/guarani, para a nossa língua original, o inglês. Feiquinius em inglês quer dizer ‘notícias falsas’ ou, numa tradução mais livre e abrangente, ‘mentiras’.

Quando os sociólogos e historiadores do futuro estiverem a nomear cronologicamente a época iniciada com o final das grandes guerras do século XX, com certeza a definirão como a Era da Cibernética, aquela que se inicia com a invenção do computador e ganha fôlego com todos os avanços tecnológicos daí derivados.

E nesse particular, já, já estaremos chegando a situações curiosas como, por exemplo, ter que baixar um aplicativo que nos permita ir ao banheiro fazer as nossas necessidades.

Senão vejamos: Pré História, Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna, Idade Contemporânea e suas subdivisões já estão devidamente catalogadas, iniciando-se agora, mesmo que extemporaneamente, o alvorecer de uma nova era, aquela que o homem se mistura à máquina ou vice versa. A simbiose perfeita sonhada há tempos pelos amantes da ficção científica.

Em outras palavras: a Inteligência Artificial. 

Deixando de lado, contudo, o atestado de nascimento de cada uma das eras, essa a que nos é dado viver vai ganhando músculos e ganhando forças para se imiscuir nas relações entre o homem e a natureza e – mais ainda – sem cerimônias, nas relações entre os homens.

E é justamente aqui que a porca começa a torcer o rabo.

Os conflitos entre o capital e o trabalho vão adquirindo novos contornos, onde o aumento da população mundial não é nem de longe seguido por uma distribuição de renda decente e justa para manter equilibrada a balança da economia. Ao contrário, cada vez existe mais dinheiro para menos gente ou, se quiserem, menos dinheiro para mais gente, o que vem a dar no mesmo. Ou seja: o consumo vai diminuir e o desemprego aumentar.

Para fingir que está tudo bem, dois caminhos vão se mostrar cada vez mais presente no nosso cotidiano: a guerra, localizada ou não, e a divulgação de feiquinius em quantidade cada vez maior pelos meios de comunicação públicos e privados. As feiquinius serão a salvação do capitalismo já moribundo. 

As feiquinius vão provocar guerras, como já está acontecendo, destruir reputações, inverter os conceitos de justiça, influenciar o resultado de eleições até então “democráticas” e, se bobearmos, até provar que a terra é plana. Alguma dúvida?

Eis aqui a receita: escolha um adversário político influente, uma famosa personalidade do mundo artístico ou mesmo um país que esteja fazendo forte concorrência comercial aos produtos que você exporta, por exemplo, pelo qual você não nutre lá muita simpatia. Faça uma investigação, e, casos pessoais, sobre a sua vida profissional e particular. Procure por declarações ambíguas ou fora de contexto, sobretudo feitas há muitos anos. Em casos de conflitos comerciais, procure em contrabandos e sonegações de impostos. Não tenha pressa, pois quanto mais a mentira parecer verdadeira, melhor.

E aí vem a parte mais interessante da história: faça com que os principais meios de comunicação sociais (emissoras de rádio e televisão, jornais, revistas semanais, blogues e redes sociais) repercutam a feiquinius por dois ou três dias. Pronto: o estrago estará feito. Pois uma mentira repetida mil vezes ou mais se transformará em verdade.

Se acreditamos em dogmas religiosos ou divindades religiosas, médicos e advogados, ou mesmo em Papai Noel quando crianças, por que motivos não acreditar em feiquinius, não é verdade?

 

2 comentários

  1. O século XXI até este inicio de anos 20, que pode até ser loucos, mas sem duvida pouco divertido, não encantou a ninguém ainda. Mal tal qual Pollyana, direi que tudo ha um lado bom: apesar do obscurantismo que tentam nos colocar a todo preço, as mulheres ja demonstraram que elas farão deste século o fim do patriarcado. Em razão disso, estarmos nessa guerra fratricida, que envolve a luta de classes e de tentativa desesperada de guardar entre homens brancos e ricos o dominio de poder social e politico .

  2. Os sociólogos e historiadores do futuro estarão muito ocupados discutindo se foi golpe ou não, se é fascismo ou não, se é antipetismo ou não… Assim como grande parte da esquerda partidária.

    O Brasil já terá incontornavelmente voltado a ser primário exportador, e a desigualdade, a injustiça e o ódio social já terão grassado ao ponto da secessão do território nacional.

    As “fontes” das pesquisas serão um tuíte aqui, outro ali, um textao lá, outro acolá… Além, é claro, de registros de uma “carta aberta” ou outra, ou de um debate em algum lugar e um “ciclo de palestras” em algum outro…

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