Felicíssimo Oratório das Água, por Urariano Mota

E Gustavo Felicíssimo vive e procura viver no mundo material da poesia. Os amigos já veem a escolha complexa da sua vida.

Felicíssimo Oratório das Água

por Urariano Mota

Para falar sobre o livro “Oratório das águas”, eu devo antes lembrar uma invocação, citada por Ascenso Ferreira:

“Eu começo, atenienses, invocando

a proteção dos deuses do Olimpo”

Isso porque esta resenha busca o reconhecimento público de um poeta. Se a justiça dos homens é tão ausente quanto é falha a dos céus, cá do meu canto posso tentar um breve intervalo da injustiça universal. Eu me refiro ao poeta Gustavo Felicíssimo, que a maioria das pessoas vê apenas como um editor. E já nesta altura corrijo o “apenas”: não é pouco nem é fácil ser editor, e de literatura!, no Brasil. Pelo contrário, e contra a corrente, é uma tarefa heróica,  pois ninguém sensato deveria fazer dessa profissão uma exclusiva sobrevivência. E Gustavo Felicíssimo vive e procura viver no mundo material da poesia. Os amigos já veem a escolha complexa da sua vida.

Assim, quem desejar ler e comentar o seu trabalho, primeiro do que tudo, saiba que na poesia de Gustavo importa não só o verso. Entendam, menciono tal cuidado sem qualquer concessão à fraternidade que deve unir os companheiros de jornada na literatura. Mas antecipo as coisas. Mais adiante é que devo informar a razão do que recomendo. Então, para não dizerem que não falei das flores, sejamos já, agora, rigorosos, impassíveis como o cumprimento das leis do destino no gênero das tragédias:

“Uma alegria irrompe do meu âmago

como a nascente irrompendo a terra

se vejo das nuvens mais negras cair

a água límpida que a tudo fecunda

É um néctar que no silêncio estupendo

move as correntes e revolve nossa dor

quando vemos no infinito reflorescer

o jardim adormecido do esplendor

É uma glória e como tal não tem forma

esse cortejo luminoso que emana do céu

essas águas caindo como se por milagre

A solidão aqui é um poço de auroras

que nos transporta – uma vez mais –

às profundezas do que chamam felicidade”

Os versos acima vêm de um dos cânticos do “Oratório das águas”. Satisfeitos? Sei que ainda não. Mas observo: o encanto que vem da leitura da poesia mencionada não exige bem que o leitor esteja feliz, seja feliz no próprio cotidiano. Não. Essas linhas são elas mesmas um exercício de felicidade. Percebem? A felicidade da arte invade o leitor mais infeliz que houver, assim como o desespero do soneto Só, de Cruz e Souza, põe na gente uma angustiante e feliz amargura, porque a ele estamos associados. O grande poeta negro nos faz seus irmãos de todas as horas. Isso posto, devo registrar, como apenas um escritor que sou, e que se nutre de poesia pelo que retém de memória e pelo que tem a sorte de ler, que em mais de um trecho do “Oratório das águas” fechei os olhos para refletir os versos e nessa reflexão entrei num sonho. Acordado. Pensam que é retórica de elogio? Pois sim, mergulhem:

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“Choro, pois o amplo silêncio do mar é o que ouço

agora que a luz da noite vai encobrindo a do dia

Não faz mal que anoiteça tão lentamente

Me recolho quando se recolhem os pássaros

ainda que meus olhos não cansem de madrugar

junto ao mar, que por força maior vai perdendo

o esmalte azul que a tarde pinta em aquarela

Amanhã, novamente a noite há de apagar o dia

novamente o mar há de perder o seu esmalte

outras pessoas hão de deixar suas pegadas

nesta mesma praia (que outra será) em que pisei

Apaga-se o dia como um dia nos apagaremos –

a poesia é o ato de entender esse mistério”

A gente lê, e fecha os olhos porque vai do silêncio noturno do mar, porque também há silêncio na praia às primeiras horas do dia, quando as vozes longínquas de pessoas (estarão mesmo falando? Não fazem parte de uma lembrança ?) são ecos que trazem um desconforto, doem na gente, e vai até os rastos de caminhadas na praia, que se apagam assim como nós mesmos, e esse ir e vir das ondas do mar e humanas figuram um mistério do tempo de nossas próprias vidas. A poesia entende esse mistério? E fechamos os olhos e começamos a sonhar, que é um modo de dizer que voamos em viagens íntimas onde a dor e alegria são imagens que nos fazem bem  para a poesia. Percebem o que pude mal expressar em prosa o que estava antes expresso no poema?

Agora, voltemos ao começo. Lá no alto, me referi à atividade de editor literário de Gustavo Felicíssimo. E associei o que ele faz a um ato heróico. Agora, provo que não abusei do adjetivo. Se vamos ao catálogo da sua editora Mondrongo, vemos uma predominância de livros de poesia. Isso é coragem. E se observamos que entre os seus de poesia está o “Do que foi pra ser Agora”, de Ñasaindy Barrett de Araújo, chegamos mais perto e declaramos que é um feito editorial de heroísmo. Não só pelo gênero literário, mas e mais pela autora, que é a filha única da guerreira eterna Soledad Barrett, assassinada de modo vil em Pernambuco no ano da desgraça de 1973. Compreendem? Entre os seus publicados de prosa está “O Matagal”, de Nuno Kembali. Sabem o que é? Trata-se de uma justiça ficcional contra um crime, homofóbico. E para culminar, o mais recente que o Brasil inteiro assiste aos lançamentos pela TV 247: o livro Antifascistas, que reúne escritores brasileiros, e de Angola e Portugal. Agora, sei que têm um lampejo do seu brilho.  Não fosse o poeta que é, Gustavo Felicíssimo estaria já entre as pessoas marcantes da nossa literatura. Mas a grandeza  passa todos os dias por nossos olhos, e  ninguém fala ou diz. Então falemos aqui.

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E assim chegamos ao que está além dos seus versos, a que me referi antes. Eu comecei a compreendê-los, poeta e poesia, em nosso primeiro encontro no Bar de Peneira, em Olinda, faz quatro anos.  Ali, pude observar que, enquanto o medíocre toma conta da mídia, diante de mim havia um “poeta que é um artista sério sem fama, um escritor que alia o sentimento à procura da melhor tradição poética. Um homem que lê, estuda, pesquisa, reflete, escreve, reescreve. Que é também um teórico da história da literatura”. Em Olinda então, Gustavo Felicíssimo me fez conhecer esta felicidade de poema:

Elegia para Alberto da Cunha Melo

Outro chope, garçom

Sentimos sede porque a realidade é fuga

e fugaz o tempo se apresenta

Sentimos sede porque a realidade é crua

e terríveis os seus desdobramentos

Tão terríveis quanto a razão que contraria a fé

a vida envolvida em mistérios

e essa vertigem

que me toma a pena e me oferece este poema

A garota no quadro segurando um gato é triste

como é triste a condição humana,

como é triste o horizonte que nos margeia

Contudo, não será capaz a noite de evitar-te o gênio

Por isso essa Elegia, essa vertigem no ventre da noite

esse copo de chope e o linguajar vulgar

pois os seus poemas são os meus poemas

– neles me reconheço e me edifico –

uma vez que o tempo gasto

com inúteis procelas não nos alimenta

porque em essência

somos feitos de suavidade e compaixão

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Eu sei não ser preciso esse poeta eivá-lo de loas

mas quiseram as Musas que fosse assim

quiseram os anjos

e a pomba pousada sobre os livros sagrados

que fosse assim

Mestre e desequilibrista da poesia brasileira

próximo aos teus poemas não tenho horário

(não percebo o tempo esvair)

próximo aos teus poemas o momento é outro

e outras são as formas do existir

próximo aos teus poemas tenho a lua

tenho os pélagos

próximo aos teus poemas estou mais próximo de mim

Agora vai, viaja no infinito

que a despedida é dispensável

Leva consigo as nuvens e o silêncio da borboleta

leva no coração os dias floridos

enquanto ficamos aqui, vivendo essa Casa Vazia.”

Fiquei em estado de quem procura um poeta amigo falecido e o reencontra em outro poeta de vulto altíssimo. E para não dizer nada, na mesa disse apenas que o poema era muito bonito.  E chegando ao fim, guardei do “Oratório das águas” estes versos:

“Escrever é oferecer-se ao mergulho

(que a tudo recompõe os sentidos)”

Fiz um intervalo na leitura aí. De olhos fechados pude ver o quanto essa reflexão poética é verdadeira. Pois quantas vezes descubro, ao me debruçar sobre o que vi e vivi, uma realidade que antes para mim mesmo era encoberta. Na escrita, descubro um significado novo, uma luz que ilumina a memória do guardado e oculto. Grato, poeta Gustavo Felicíssimo. Esses versos profundos, esclarecedores do ofício da literatura, aproveitarei em um trecho de um conto que nestes dias escrevo. E termino o meu tributo ao “Oratório das águas” com esta frase citada em um dos seus versos:

“És mortal e imortal é o que aspiras”

Imortal, feliz é a gente que se realiza na poesia.

*Vermelho https://vermelho.org.br/2020/06/21/urariano-mota-felicissimo-oratorio-das-aguas/

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