Fim do inferno, por Rui Daher

Alucinado, Tarso de Castro, advertira: “O Rui tá bem abastecido de boas cachaças? Precisamos defendê-lo. Desafiou o capiroto de frente."

Foto do blog Amo Vinho

Fim do inferno

por Rui Daher

Há dias venho aqui anunciando o fim de meu inferno astral. Vou na concepção popular. Depois de seu aniversário, merda vira trufa. As várias interpretações da internet acabaram por confundir-me. Cada verbete acha uma coisa. Eu prefiro a tradicional.

Tudo deveria acontecer na madrugada de 16 de agosto, quando completo 75 anos de vida.

Recebi mensagem de Serafim, o português, dono do ‘Dominó de Botequim Celestial’. Glauber Rocha passara por lá e avisara: “esta noite a pauleira será brava para o Rui”.

Alucinado, Tarso de Castro, advertira: “O Rui tá bem abastecido de boas cachaças? Precisamos defendê-lo. Desafiou o capiroto de frente. E contra ele, não tendo ainda aqui sido acolhido, o perigo é iminente. Poderá acabar se perdendo”.

Na mensagem, Serafim me adverte e converte: “Aqui não estão Darcy, Ariano, Melodia, Dr. Walther, Alfredinho, a madrinha Beth. Foram fazer uma apresentação na Estação Purgatório. Estou sozinho, como ajudá-lo?”

Recebo as exalações em paz. Educado, respondo:

– Xá comigo! Seguro.

Verdade. A madrugada entre os dias 15 e 16 de agosto foram tenebrosas. Avisado, avisei a Redação que, acovardado, não iria dormir em casa. Passaria a noite na Redação. Temia prejudicar alguém da família.

Nestor, Pestana, Everaldo, não deram sinal. Previ pauleira. Cortinas para fechar (Lourdes?) não as tinha, embora saiba que deuses e diabos não as respeitam. Pus uma música: Caetano cantando “Cajuína” me faria acalmar, dormir, e passar a noite. Preferi nada beber. Tivesse que enfrentar seria peito aberto, consciência clara.

BRUUUUUUUMMMM!

Acordo, em São Paulo o relógio marca três e meia. Penso: bem que me avisaram. Como defender-me? Será que em 75 anos, teria saber, coragem, para tanto? Oro por revolucionários que perpassaram meu viver, de Jesus Cristo a Mandela, passando por Guevara.

O embate fatal começa. Choques de trovoadas, reios, roncares, dilúvios a prenunciarem tragédias. Na minha imaginação, agreste e semiárido nordestino, de um lado, fuzil, de outro facão e alucinação.

Levanto-me do sofá na Redação. Frio. Sem coragem, temo aguardar a luta final entre Corisco e Antônio das Mortes. Posso, sim, torcer, mas quem ganhará?

Seu roteiro, Glauber, teria sido o definitivo? E se eu o refizer, e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, virá de forma ainda menos pessimista? Não, Dadá também não sobreviverá.

Corisco, ela, e todos nós que queremos um Brasil mais justo, estaremos aniquilados por Antônio das Mortes. Revejo? Seu apátrida exército serão, um dia, exterminados por suas ganâncias.

Não, não pensem este meu pretendido presente de aniversário. Glauber, Serafim, peço-lhes apenas mais um ano para continuar meu combate.

Quem sabe, mais um ano. 76?

Inté!

Nota: “Deus e o Diabo na Terra do Sol” seria o mesmo sem Sérgio Ricardo, a quem encontrarei no “Dominó de Botequim Celestial”.

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