Flexibilizar-nos-emos? Por Rui Daher

Desculpe-me, Capitão, nem mesmo as duas pernas uso bem, o que dizer de duas velozes rodas? Talvez, topasse Usain Bolt aceitar empurrar minha cadeira.

Flexibilizar-nos-emos? Por Rui Daher

Pergunta difícil de responder no momento. Conversava eu aqui com meus retroses, já que com os botões conversa Mino Carta, será que podemos, respeitados todos os protocolos preconizados por autoridades públicas menos desequilibradas, sair por aí?

Sim, pois nunca faria tal pergunta a RIP, o Regente Insano Primeiro, clã, ministros e acólitos, muitos deles evangelizados para … sei lá … Cristo é que não é.

Se o fizesse, provavelmente, ele me tomaria por uma ema enfiando-me goela abaixo comprimidos de cloroquina, prova cabal do que pensa sobre fauna e flora brasileiras. Somente não faria eu sair rugindo de motocicleta. Desculpe-me, Capitão, nem mesmo as duas pernas uso bem, o que dizer de duas velozes rodas? Talvez, topasse Usain Bolt aceitar empurrar minha cadeira.

Mas que foram estranhos seus positivo-negativo para Covid-19, curados rapidamente, em tão pouco tempo, à custa de dinheiro público, isto foi.

Confesso, por um período, ter procurado me adaptar à sua indigência mental, de seus ministros, clã e “apoiadores” (como os chamam folhas e telas cotidianas).

Seria uma persona autoritária, admirada nos grotões da violência, que armados se pretendem justiceiros milicianos contra a causa social. Apagaria a pecha de “bonzinho, esquerdista, simpático”, que há décadas atordoa minha vida.

Provável (essa do medicamento não deu), mudado o comportamento, eu ficasse rico. Acho que não. Somente esperteza é pouco. Para construir fortuna sobre dinheiro público é preciso alguma Inteligência, uns pontinhos a mais no QI, o que não se vê em RIP e “apoiadores”.

Outro ponto que deixa difícil a decisão de “se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí”, é a massa de informações que recebemos, diariamente, muitas contraditórias, inconclusivas, mesmo ininteligíveis.

Claro que o primeiro impulso é chutar o balde e ver o que acontece. Mas e se, infelizmente, vier o que narrei em meu último texto? Uma perda irreparável na família. Não é mesmo, João da Alegria?

Só que ameaçador também para nós, os privilegiados dos guetos Notebook, Home-Office, Comunicações Digitais Corporation.

E os não? Aqueles que têm de enfrentar o precário transporte público, os aglomerados habitacionais, a falta de esgoto e de estruturas sanitárias, as banquinhas comerciais do dia-a-dia, patrões inclementes, além de assustados com a visão de quebra, filas para obter R$ 600,00, as crianças que se não tiverem computador perderão um ano de aprendizado, ou mais, dependendo do grau.

É a pergunta que deixo a grandes amigos, antes vivendo todos embolados, em abraços, encontros, papos, acepipes, mas ingeridos sob piadas, risos, opiniões políticas, causos, álcoois muito mais leves do que os 70, nunca esfregados nas mãos, mas em nossos intelectos.

Não percebo ninguém disposto ao risco, embora pessoas que precisam transitar, além da TV, mostrem aglomerações em bares, restaurantes, praias, pessoas sem máscaras ou proteções diversas, atendendo a “flexibilização”, e em muitos lugares voltando atrás.

Eu? Sei lá. Para arriscar-me, que vontade não falta, precisarei de muitas autorizações antes de escrever de outras plagas, que não desses exíguos metros quadrados que, espero, deixarem apaziguar revolta e criatividade.

Faço o quê, então, aqui confinado? Ouço músicas, assisto aos shows antigos de meus ídolos, leio livros em que me punia por não os reler. E, também, se me perdoam, bebo mais. O trabalho não presencial leva a isso.

Empregado e patrão já fui. Pensem: você no computador, garrafa de qualquer bebida alcoólica escondida em sua gaveta; chega o chefe e pergunta: “Sr. Rui, o que é isso que está bebendo?”

– Groselha, doutor. Dizem que acalma. O senhor já viu o balanço do último trimestre?

Sob a mesa, garrafa e serpente naja picam a minha perna.

– Suas bestas, quando quiserem me picar, façam como qualquer político, proponham um Acordão.

O réptil fibrila suas linguetas e volta à garrafa, como dizendo: “amanhã retornamos ao nosso plano, idealizado pelo fiel assassino serial Harmônica. Serei muito útil”.

– É, mas doeu, viu serpente? Até pareceu uma bolsonarista.

– Esquece. Sou a arma de Harmônica contra eles.

– Sei, eles andam treinando em estandes de tiros, mas não precisa fazer doer, tá?

– Tudo bem, mas me explique seu ataque, via Zeca Baleiro e Chico César, “ofendendo”, seus eleitores e apoiadores.

– Simples, querida Mafalda, serpente naja. Engracei-me com uma marchinha do Zeca Baleiro, que acredito carnavalesca, em pilhéria, mas genial, para nosso momento de trevas: “Escória”. E, também, para o reggae de Chico César, “Pedradas”.

– Porra, eles se tocaram e vestiram a carapuça.

– A intenção foi essa. Quem já entendeu e se arrependeu, não reclamou. Quem vestiu a carapuça, que se foda.

E mais não digo, mas repito.

Inté!

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