Givaldo/Tarcísio ou Lennon/McCartney no Recife, por Urariano Mota

O certo é que esta é a história do começo do Livro 7, segundo a memória de Givaldo Gualberto. Ele e Tarcísio no papel de Lennon/McCartney, mas sem música.

Givaldo/Tarcísio ou Lennon/McCartney no Recife

por Urariano Mota

Este 18 de junho é o dia do nascimento de Paul McCartney. Isso me leva a um texto que publiquei no grupo Amigos da Livro 7, do Facebook. Na ocasião, o saudoso livreiro Tarcísio Pereira comentou: “Esses meus amigos são criativos demais”. Ao relato, pois.

De uma entrevista de Paul McCartney ao Jornal El País, destaco:

“Paul McCartney recorda momentos mágicos como aquele em que perguntou a John: ‘Qual é o seu hobbie? Eu gosto de escrever canções’.

E Lennon foi o primeiro a lhe responder: ‘Puxa, eu também’ ”.

Então ali, durante  viagens de ônibus em Liverpool, começou a  criadora  dupla dos Beatles. Agora, olhem as coincidências da música que foram traduzidas para o mundo do livro em Pernambuco. Reproduzo a seguir o que Givaldo Gualberto me relatou há pouco pelo telefone. Cito de memória:

“Eu vou lhe contar uma coisa que você não sabe”.

Ele começa assim, a seu modo e estilo, me pondo no devido lugar de um cara que ignora a verdadeira história da Livro 7. Interessado no que virá, eu nem tusso. Como César Cals (lembram desse ministro de orelhas de abano de João Figueiredo?), como César Cals, eu sou todo ouvidos. E Givaldo retoma:

“Quem me apresentou a Tarcísio foi Eudes, do movimento estudantil no Colégio Pernambucano. Eudes era funcionário da Livraria Imperatriz, E Tarcísio era o gerente lá. Na época, em 1970, havia uma promoção de livros da Civilização Brasileira, e eu fui lá. Aí ficamos amigos.

Muito bem. Um dia, eu encontro Tarcísio e ele me diz:

– Givaldo, eu estou saindo da Imperatriz.

– Por quê, rapaz?

– Eu tenho que partir pra minha própria livraria.

Em 1970, eu estava pegando a minha demissão do Banco do Povo (que do Povo não tinha nada!), e estava com uma grana razoável. Se era de eu gastar à toa, achei melhor montar um negócio. Então eu fiz uma proposta a Tarcísio:

– Tarcísio, de livro eu entendo como leitor. E você entende muito como vendedor. Por que não juntamos as forças?

– Como assim?

– Podemos fazer uma sociedade. Você entra com o seu trabalho e eu entro com o capital”.

À margem dessa revelação de Givaldo, eu reflito o quanto ele era estranho na condição de capitalista. E de explorador da mão de obra de um amigo.  Como é que fica a mais-valia? Ainda bem que não lhe fiz essa observação, porque sobre mim cairiam os céus que os operários quiseram assaltar em Paris em 1871, lembram. Eu corria o risco de ouvir do dono do capital isto aqui:

– Ô cavalinho, presta atenção! Tarcisio não ia ser meu empregado. Nós íamos ser sócios! Entendeu?!

Mas aqui eu me vingo do que não poderia responder. Imagino que, guardadas as proporções, talvez a proposta de Givaldo a Tarcísio seja semelhante a uma proposta que o personagem Gordo recebeu, que narro em meu romance “A mais longa duração da juventude”. Nestes termos:

“Um dia, o Gordo reencontrou um amigo de infância, que se tornara famoso assaltante. Então recebeu o seguinte convite do ex-amigo procurado como perigoso ladrão:

– Gordo, a gente podia virar barão, ficar muito rico. Eu com a minha experiência e tu com a tua leitura. – E baixando a voz. – Ninguém pegava a gente. Gordo e Caveira junto, não há quem possa”.

Mas não. Essa é uma associação descabida, que faço à margem das lembranças. Givaldo era um trabalhador de absoluta honestidade. E a sua proposta era legítima e sincera. Apenas menciono a sociedade oferecida ao Gordo para mostrar a quase absurda união entre um vendedor de livros e um leitor em 1970. Mas considero que na raiz da proposta havia certa lógica: Tarcísio queria abrir uma livraria e não tinha dinheiro, Givaldo gostava de livros e estava com um pequeno capital. Por que não? O certo é que Tarcísio, com palavras educadas, recusou. O que ele tinha era só um projeto, nada mais, falou na ocasião.

Pois sim. Um belo dia, ao passar pela Rua Sete de Setembro, Givaldo vê Tarcísio sair de uma lojinha, que  ficava por trás de um barzinho na rua. Na época, Givaldo via bem. E exclamou:

– Tarcísio!

– Oi, rapaz, tudo bem?

– Como vai o projeto da livraria?

– Pois é… estou começando a organizar o espaço.

– Oxente, onde?

E Tarcísio Pereira conduziu o capitalista Givaldo até uma salinha, modesta, oculta aos olhos do capital. Lá, estavam serrando as prateleiras. E também estava a pessoa de Suely Pereira. Ela “bem novinha, uma graça”, conforme me falou o capitalista dos pobres hoje. Ao que este narrador pergunta a Givaldo:

– Mas Tarcísio não estava sem dinheiro?

– Não sei.

O certo é que esta é a história do começo do Livro 7, segundo a memória de Givaldo Gualberto. Ele e Tarcísio no papel de Lennon/McCartney, mas sem música. No Recife deu livraria, um Yesterday de Tarcísio e Givaldo sem Lennon e McCartney.

*Vermelho https://vermelho.org.br/coluna/givaldo-tarcisio-ou-lennon-mccartney-no-recife/

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