Grande efeito da alma, por Maíra Vasconcelos

Imagem – grafitte David Walker

Grande efeito da alma, por Maíra Vasconcelos

Aquela vida em que digo ter sido. E depois essa outra vida. Admitam a mistura a alternância. Qual a proporção? Um pouco de cada, um pouco. Quantas vidas se misturam em um só corpo? Um tempo uma vida, um tempo uma vida. Quais tempos são vividos em uma vida? O passado entranhado, o passado misturado àquele tempo inapreensível. Amanhã. O tempo como uma falácia seriamente saborosa. E assim a necessidade da mentira, a mentira e a fantasia, a mentira e a fantasia. Admitam a mistura a alternância. Pelo grande efeito da alma, esta alma que requer a luz do sol. O amarelo. Todos os dias.

Vivo de elaborações fantasiosas: há tantas flores no teto deste quarto. Sim. Neste quarto tão maciço como o tranco de uma árvore. Escrevo, mais uma vez, escrevo. E a mente cria apenas quando em estado profundo profundo. Recaio sozinha pelas profundezas e nem vejo. Caí. Pode ser bonito e sombrio ver-se brotar: não ter medo da própria floração. Pelo grande efeito da alma, essa alma que requer fantasias rechonchudas. Posso escavar um enorme chão e ainda manter tantas flores bem debaixo dos meus pés. Estando ainda neste quarto, tão quieta e mansa nesta cadeira. A escrever. Todos os dias.

Pelo grande efeito da alma, seria então impossível não mentir não fantasiar. Qual a diferença entre mentir e fantasiar? Exata pergunta para uma crônica de jornal! Exclamação. A fantasia é mais bem pensada e voada. Para fantasiar é necessário o extremo ato de pensar. Beijar a necessidade da invenção, da criação, do clamor pela veia que estufa no corpo. No beijo. Estufou. No corpo gritado, quando quase tudo é corpo gritado. Mas nem tudo. A fantasia é uma relíquia barata. Na lojinha da esquina a fantasia resiste encalhada e empoeirada. Animem-se, olha, olha a fantasia. Ah. Que gargalhada imensa.

Depois, escrevo, mais uma vez, escrevo. Todos os dias. E a barriga exposta ao sol ao amarelo – perguntarei a um pintor como é o estudo das cores, mas o pintor tão concentrado não irá responder, pede que me cale, já. E este corpo desnudo exposto aos raios, entregue à luz do sol: alma-corpo corpo-alma. Admitam a mistura a alternância. 1,2, 3. Ao menos três tempos três vidas diferentes sobrevoam este corpo de cores e flores. Então, escrevo a fantasia. Pisando e recolhendo flores. Pelo grande efeito da alma, esta alma que requer cores e flores para se ter o conhecimento, para se ter o ato de pensar. Alguém pensa?

Quando alguém fica sem voz porque Deus sabe demais. Mas no corpo gritado tem-se a voz mais imperativa e autônoma. Essa vozinha. Sonhei que tapava a boca falante de Deus e ele então ficara mudo para sempre. Que alívio! Exclamação. Deus acredita que todos pensam ou rezam? Às vezes, escrevo para tapar o buraco da vida ditada pelo Deus. Ah. Como sou guiada por aquela medida nefasta, realmente, a medida provisória de cada palavra. Longe da certeza. Porque Deus é certo demais e todos erram tanto, gozando gozando. Para se ter o corpo gritado. Amanhã. Pelo grande efeito da alma, conheço a mais franca racionalidade

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