Grupo de Risco (I), por Izaías Almada

E o que significa envelhecer num mundo em que cada vez mais se valoriza o consumo, o sucesso, o dinheiro e a sobrevivência a qualquer preço?

Van Gogh

Grupo de Risco (I)

por Izaías Almada

Pare o mundo que eu quero descer… Apesar de antigo, o ditado está bem atualizado.

Diante dos incontáveis e cada vez mais complexos problemas do mundo contemporâneo, um deles – em especial – chama a atenção pela maneira como vem sendo tratado, ou melhor, pela maneira como não vem sendo tratado, sobretudo agora com a pandemia do coronavírus: o que fazer com os idosos, aqueles que já não produzem e que passam a depender das suas reformas e aposentadorias?

Dados da Organização Mundial da Saúde afirmam que o número de pessoas com mais de 60/65 anos de idade tem crescido muito nas últimas três décadas, com a curiosa e não menos preocupante expectativa de que em 2025 o Brasil ocupe o sexto lugar no mundo em número de idosos.

Todos os países, sem exceção, enfrentam o problema.

E o que significa envelhecer num mundo em que cada vez mais se valoriza o consumo, o sucesso, o dinheiro e a sobrevivência a qualquer preço? Em um mundo onde a guerra cibernética já não é mais uma fantasia de ficção científica, mas sim a possibilidade concreta de “cancelar o CPF” dos idosos?

Envelhecer, e perdoem-me o simplismo, é o mesmo que assistir a um filme por várias e repetidas vezes. Sempre vem aquela sensação do “isto aí eu já vi”. Situações que se repetem, mesmo com desfechos diferentes. E ainda bem, não amigo leitor? Porque se o “dejà vu” tivesse sempre o mesmo final, a vida, por melhor que fosse, seria de uma chatice insuportável.

A propósito, a pensadora e escritora francesa Simone de Beauvoir se dedicou ao assunto. Escreveu um ensaio específico sobre o tema com o título “A Velhice”, onde reflete – através da História – sua preocupação com o último estágio da nossa passagem pelo planetinha Terra. Muito embora aborde a matéria sob os mais variados ângulos de muitos dos pensamentos e das atividades humanas, sua conclusão é simples e enriquecedoramente óbvia: viver é envelhecer.

Existem os que não se importam com a velhice, os que fingem em não se importar com ela, os que se preocupam em excesso com o envelhecimento e ainda os que envelhecem sem saber, e que não são poucos.

Existem até os que envelhecem naturalmente. Para cada um dos casos serão inúmeros os exemplos com histórias tristes ou bem humoradas, divertidas ou trágicas, exemplares ou patéticas.

Oscar Niemeyer, por exemplo, que morreu após os cem anos de idade, teve um grande amor pela vida e pelos seus semelhantes, mas há o mundo das senhoras e dos senhores praticantes do botox e das cirurgias plásticas. São dois extremos de preocupações, ou não, com o envelhecimento. Há também o velho obsceno, como bem definiu a professora Marilena Chauí a um ex-presidente da república e seu colega na Universidade de São Paulo. E ela não estava falando de sexo.

Uma coisa é certa: envelhecer é saber se preparar para ser posto à margem da vida social, do trabalho, dos divertimentos, do carinho familiar, do convívio com os mais jovens. Mesmo que muito se faça para tal não acontecer. Para isso a humanidade ainda não encontrou antídotos.

Asilos, casas de repouso, sanatórios, hospitais, manicômios abrigam milhares e milhares de idosos pelo mundo afora. Seres humanos que tiveram a sua utilidade e que num determinado momento a sociedade pede para conferir a sua data de validade. O prazo de vencimento se torna um estigma.

E não mais que de repente, surge no horizonte das improbabilidades um maldito vírus que põe o mundo de cabeça para baixo. Os idosos constituem o maior grupo de risco para se tornarem vítimas fatais da pandemia, como se já não bastasse o próprio envelhecimento e as tentativas de acabarem com as “aposentadorias para quem já não participa mais do processo de produção”…

                                               (CONTINUA)

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