Harmônica, educador. Por Rui Daher

Bato forte na porta do apartamento 1123 que abriga o destemido Harmônica. Somente eu, penso, sei de suas missões

Harmônica, educador

por Rui Daher

Harmônica, nosso serial killer político, inspirado em “Era uma vez no Oeste”, filme dirrigido por Sergio Leone, em 1962, nos surpreende com novo método.

Entro no elevador do Hospital Sírio-Libanês (HSL) e dou de cara com o médico que o diagnosticou e indicou a internação, por estar com um câncer e em fase terminal.

– Olá, doutor, tudo bem? Como está a evolução de nosso amigo?

– Olá. Para a morte. 

Desce no sétimo andar sem ao menos se despedir. Recatado que sou, nem sei seu nome, especialidade ou detalhes do diagnóstico. Terminal, tirando os rodoviários, é uma palavra forte. Nem ao serial killer peço informações sobre isso. Não sei se por timidez ou covardia. Evito visitar amigos em casa ou hospitais que adquiriram doença grave. Acho que vou incomodar a pessoa em suas reflexões, soturnidades e dores. No mais das vezes, cretino, acabo vendo-os finalmente no cemitério, quando sei que nem souberam de minha presença.

Bato forte na porta do apartamento 1123 que abriga o destemido Harmônica. Somente eu, penso, sei de suas missões. O som que vem lá de dentro não é o de sua simples e solitária gaita. Vejo que a enfermeira mais gentil, olha-me de soslaio e com um leve sorriso no rosto. Lá de dentro:

– Porra, Rui! Que merda é essa de bater na porta? Quem vem aqui me visitar a não ser você? Entra!

O cenário do apartamento 1123 é inusitado. Beleza e alegria se dispõem em cadeiras aos pés da cama-hospitalar que abriga o serial killer. Todos têm uma gaita na mão e sorriem para mim, acompanhando a longa gargalhada de nosso herói.

– Aonde vai, baixinho?

– Caro, gosto muito de você, concordo com a ação mortal que vem fazendo com os políticos 17 ou mais, mas não serei cooptado pelos planos cruéis que você deve ter planejado para esses jovens. De duas uma, ou me calo e sumo para sempre ou o denuncio para a direção do HSL.

– Eita, cronista tontinho. Depois reclama que ninguém dá valor às suas escritas. Meninada, mostremos alguma coisa para Rui, o rei da desesperança.

Ele puxa e junto vêm 20 gaitas fazendo “Feira de Mangaio”, do genial Sivuca. Alguns mandavam na gaita e na percussão e uma menina cantava:

Delirei. “O que é isso, Harmônica”.

– Deixo que eles falem.

Levanta-se uma jovem, bonita como Manuela, camiseta da UNE, com o mapa do Brasil:

– Através da gaita e da cultura brasileira, o professor Harmônica está nos ensinando a fazer o Brasil a voltar à democracia. Os 17 são muito ignorantes, fácil de serem destruídos, como Brumadinho foi, por nossa barragem cultural.

– Ouvi isso de um grande médico, de esquerda, por que não começar a destruí-los pelo que não sabem ou nunca deram importância?

Levanta-se outro jovem. Este tem o boné do MST.

– Não iremos permitir que pelo sufoco dos recursos financeiros abandonem mais de 4 milhões de propriedades que fornecem alimentos às nossas mesas.

Nisso, puxados por Harmônica e um garoto do MTST, todos passam a gritar: “quero salada, batatas, tomates, cenouras, leite, carnes, e comprar ingresso para assistir ao show do Alceu Valença”.

– Harmônica, quero te ouvir. Verdadeiras intenções. Não tente me enganar.

– Rui, por que você acha que chegamos ao ponto de eleger a caterva que aí está, confusa, se enrolando em definições nenhumas, os militares já tomando conta de tudo? Não teria sido o golpe de 2016 preparado para que seu Acordo Secular de Elites voltasse totalmente ao Poder? Não que alguma vez, mesmo durante Lula e Dilma, tivessem declinado de suas expectativas. O que faltou às esquerdas, sobretudo quando representadas pelo PT, se não conversar com os jovens, desmistificar o que a mídia nos colou de sermos ladrões?

– Concordo.

– Pois bem, esses meninos que convoquei todos têm a característica de líderes. Começarão pelas músicas, nossa cultura. Depois de algum tempo, virá a revolta. Olhe ali do lado o meu arsenal de revólveres, berros, metralhas, facas afiadas, machadinhas, forcas, arrancadores de unhas, guilhotinas.

– Há tempos as conheço. Mas você recsou a parceria com Marcola.

– Lá é crime organizado. Sou revolução política armada. Logo serão perfeitos nas ações diretas.

Leia também:  Andamentos e movimentos, uma crônica política, por Rui Daher

1 comentário

  1. “Evito visitar amigos em casa ou hospitais que adquiriram doença grave”
    Rui,
    todo hospital adquire doença grave.
    É por isso que ele existe.
    (rsrs)
    Abrs.

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