Harmônica, seu segundo assassinato, por Rui Daher

Harmônica, seu segundo assassinato, por Rui Daher

Harmônica, como demonstrado na película de Sergio Leone, usou suas duas pistolas de espirrar líquidos. Pensou: “Messias autorizou”. Voltou feliz a seu apartamento no 11º andar do Hospital Sírio-Libanês. O líquido era ácido sulfúrico, de mais alto grau. Sua primeira vítima, uma caneta BIC, de tinta azul, estava estraçalhada e sem ação democrática.

Assim terminava o 1º capítulo da série. Como minúsculo hóspede, tento mais uma vez “desempulgar” o BRD (Blog de Rui Daher) para surgir nos densos caracteres e destaques do “Jornal de todos os Brasis”, embora ache que, hoje em dia, “todos os Brasis” não estejam representados em lugar algum.

Não foi preciso ir muito longe para esta ação. Harmônica, diagnosticado com câncer, não poderia sair em andanças para muito longe do hospital. Não fora fácil constituir os disfarces, encantar o corpo de enfermeiros com seu bom-humor e escolher os melhores horários para suas vinganças. Quando pressionado, bastava tocar sua gaita por 17 segundos.

Quem indicou a vítima foi um membro de minha equipe. Alegou verossimilhança. Certa vez, fizera uma matéria sobre campos de golfe, hipismo, polo e outros folguedos da elite paulistana para um jornalão da cidade.

“Você tem equipe, Rui?” Assopra-me lá do céu Ariano Suassuna, conselheiro do Dominó de Botequim. “Claro, Mestre Armorial, Nestor, Pestana, Erivaldo, o segurança, e Viviane para conselhos, entrevistas e limitação de nossos teores etílicos na Redação”. Diz Darcy Ribeiro, que a tudo escutava: “Já previa”.

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Muitos anos depois da reportagem, na época ele assinava como Pestana Rangel, contou-me sobre um senhor que conhecera em um campo de golfe, responsável por fazer e reconstituir os buracos (ah, holes, é?) dos greenings.

Viera de Eunápolis, na Bahia, para São Paulo. Lá chamava-se José alguma coisa, até que sofreu um acidente na lavoura e perdeu parte do braço direito. No hospital, amputaram a parte destroçada, reconstituíram parte do membro colocando nele um longo e forte pino de aço.

Desde lá, passaram a chama-lo Zé Agro-Pino, pois ainda tentava manter suas plantações apenas com o braço esquerdo e o Pino, doravante nome próprio.

 Fazia sentido, mas mais ainda faria quando um viajante de São Paulo o conheceu e convidou-o a vir trabalhar com ele em sua empresa.

Geraldo fazia construção e manutenção de campos de golfe. Vendo Agro-Pino e sua habilidade, logo imaginou o quanto cortaria de custos usando-o para fazer buracos. Pino, percebendo a agricultura familiar fenecer, aceitou o convite e aqui veio.

Foi com grande alarde que Geraldo o apresentou à elite paulistana. Além dos campos de golfe, Pino poderia cuidar de outros buracos, rombos e lixos da cidade. Como nada além, certo dia um sicário se interessou por seu pontiagudo pino.

– Tenho alguns inimigos e quero mandar no País para acertá-lo. Topa me ajudar. A grana é altíssima. Vem de um certo Retrós.

– Mas, e os campos de golfe? Sempre resolvemos sem você. Continuaremos. A tarefa atual é mais importante. Topa?

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– Por que não, senhor Geraldo? Confio.

– Pino, seguinte: seu braço perfunctório é fatal. Designaremos alguns nomes, você os procurará, ninguém desconfiará, pois você estará desarmado e apenas enfiará seu pino no abdome deles.

– Eles sabem disso? Querem? Não serão assassinatos?

– Nada! O que alguém, campesino de Eunápolis, injustiçado por acidente distraído de Deus, não será perdoado?

– Geraldo, passe-me nomes e endereços.

– Ótimo.

Foram mais de mil mortes e outras de reputação, perpetradas por Pino.

Até que a gaita tocou durante o sono de Pino. Ele acordou, pensando tratar-se sonho. Não conseguia. A gaita de Harmônica se tornava, cada vez, mais alta, aguda, estridente, ferina.  

Vendo o vulto no quarto e a incessante harmônica, perguntou: “Quem é você? O que quer? Quem aqui o mandou”?

– Harmônica, o trator que decepou seu braço. Vim para reconstituí-lo. Agro-Pino, a ciência o possibilitou para continuar um homem de bem. Você a decepcionou e fez o mal e, se acredita, a Deus também.

– Pare! Quero ver a sua cara.

– Claro, assista, Sérgio Leone.

O machado se ergueu e ouvi-se um grito lancinante e fatal.   

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