Hieronimus Bosch e a transfiguração alegórica do mundo contemporâneo, por Sebastião Nunes

Por Hieronimus Bosch e por centenas de alegorias semelhantes, nós, que vivemos o desespero sem saída do século XXI, te compreendemos, e te saudamos

Hieronimus Bosch e a transfiguração alegórica do mundo contemporâneo

Por Sebastião Nunes

O maior profeta de todos os tempos morreu há pouco mais de 500 anos, depois de rastrear, iluminar, pintar e expor ao mundo as mazelas, maldades, culpas, desordens e os fracassos do gênero humano, desde que pisamos os bosques do paraíso terreal até os dias de hoje. De frente, de costas, de banda, plantando bananeira; ferindo, torturando, estuprando, matando; acordando, dormindo, sonhando…

O que me parece absolutamente espantoso é que, usando apenas os elementos de que dispunha no seu tempo, pré-renascentista em alguns países, pós-renascentista em outros, mergulhado no fulgor do renascimento pleno em outros mais, esse monstro de clarividência e intuição tenha sido capaz de nos informar, a nós, habitantes do século XXI, o que nos estava destinado ver, vomitar e viver, em detalhes torturantes, minúcias escabrosas, análises minuciosas, embora sob a forma de alegorias.

Hieronimus Bosch foi alegórico em tudo o que fez. O mais espantoso, contudo, foi ter iluminado e reproduzido tão vivamente o que, profeticamente, intuiu.

Entre os séculos XV e XVI, manteve a coerência e a lucidez durante sua longa (para a época) vida, que atingiu 65 anos, e entregou suas visões, murchas como buchas de laranja, torturadas como presos políticos, transfiguradas como santos em êxtase, depauperadas como doentes terminais em UTIs infernais (inanimados e imersos em tubos e sondas, infinita parafernália de dor e terror).

Hoje, seria impensável tamanha resistência aos abismos do sofrimento.

Mas 500 anos se passaram. Se a natureza humana não evoluiu nem mudou, se o cerne do ser humano continua duro como ferro, inalterável como o vazio cósmico, insensível como pedra, pelo menos o tempo passou. E alguma coisa mudou. Mas isso que mudou não foi a natureza humana. Foi a nossa percepção do desastre.

 

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MUDANÇAS RADICAIS

Naqueles tempos (digamos que você fosse brabantino e vivesse em Antuérpia, como nosso profeta, na Bélgica atual), tudo era possível e nada era inevitável.

Depois de seu repasto matinal de pão preto com mingau de cevada, você abre a porta e, logo de cara, se defronta com um cão magérrimo destroçando o crânio ensanguentado de uma criança morta de fome. Você dá um chute no cão, que foge ganindo, e dá outro chute no crânio, que rola em poeira, lama ou neve, conforme seja tempo de seca ou de chuva ou de neve. “Fodam-se!”, resmunga você.

Então segue em frente, trauteando uma ligeira canção ouvida na igreja, para, logo ali em frente, encontrar um demônio com focinho de peixe estuprando uma grávida de oito meses (vê-se pela enormidade da barriga), que, inutilmente, enterra uma espada nas escamas do demônio-peixe. Que nem ao menos sangra.

Claro que você não se importa e continua a caminhada.

Então um cavaleiro de armadura negra, com focinho de porco e uma coruja na cabeça, recebe da mão direita de seu rei uma taça de ouro contendo veneno que a rainha derramou no vinho. Na beira da mesa, uma comprida e asquerosa barata, tentando observar o que se passa ali em cima, equilibra-se, presa pelas pinças dos tentáculos.

Do outro lado da rua, um homem amarelo, enfiado num tronco oco de árvore, ostentando comprido rabo escamoso e dedos vegetais, embala um feto de olhos fechados, embalsamado à maneira dos antigos egípcios. Como tais personagens nunca estão sozinhos, debaixo do homem amarelo surge um rato peludo com manto de veludo vermelho e rabo de cavalo.

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INFINITAS METAMORFOSES

Você, pouco se importando com as aparições, continua a caminhar em direção a seu estúdio, para mais um dia de trabalho pictórico.

Agora aparece, bem na sua frente, um peixe gordo com uma sela metálica sobre outro manto vermelho. Da sela pende um longo espadim, cuja ponta mergulha em água quase negra de tão escura. Montados no rabo do peixe, um homem rema e um macaco pesca um peixe minúsculo, enquanto outro peixe, maior, é atravessado por uma enguia.

Do outro lado, um anão esquelético dentro de um balaio exibe enorme espada, enquanto um gafanhoto verde escuro toca uma harpa dourada, montado numa gorda galinha sem rabo, mas de touca florida, calçando tamancos de madeira.

Na parte de cima da rua, uma fileira de casas pega fogo. Em cima de uma das casas, um grupo de pequenas figuras marrons tenta baixar a parte superior de um negro instrumento que, se fosse julgado por um olho nosso contemporâneo, poderia ser o cano de um canhão, um telescópio, ou mesmo a frente de um tanque de guerra, enquanto em cima dessa engrenagem uma figura alada prepara-se para voar.

Nesse momento você abre a porta de seu estúdio, tira o pesado casaco de couro, senta-se numa poltrona de couro e, diante do cavalete, começa a misturar as tintas.

Por tudo isto, Hieronimus Bosch, e por centenas de alegorias semelhantes, nós, que vivemos o desespero sem saída do século XXI, te compreendemos, e te saudamos, mergulhados em nossa miséria ética e existencial.

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