História para não se contar I, por Rui Daher

Por Rui Daher

História para não se contar – Parte 1 

Na noite de 27 de setembro deste ano da desgraça de 2017, estiveram reunidos no espetacular Hotel Casino Palace, em Poços de Caldas, construído em 1930 e restaurado à perfeição, em 2014, as seguintes almas e pessoas: Darcy Ribeiro, Ariano Suassuna, Luís Melodia, e este pobre escriba militante, para formular a linha editorial futura de “Dominó de Botequim, o Retorno”.

As diretrizes serão imediatamente repassadas à Diretoria Executiva, conforme eleita e informada no último texto do BRD, Blog-Boteco Rui Daher.

Muito importante citar, a certa altura, a passagem pelo salão de Walter Moreira Salles (1912-2001). Perguntou:

– Não jogam? Ô Rui, quando seu chefe irá publicar minha biografia? Ele que não se esqueça de eu ter sido o primeiro, talvez único, empresário brasileiro a entender o capitalismo.

– Falarei com ele. Muito combatido. Hoje mesmo me indicou um restaurante aqui em Poços que nem existe mais.

– Diga-lhe que o admiro muito à esquerda.

– E à direita?

– Carlos Lacerda.

https://www.youtube.com/watch?v=tPJvgyZyGmU]

Ressaltamos que nas próximas reuniões semanais de pauta, a presença será de todos, mas retratarão, ao exato, o que se passará no boteco do Serafa.

É importante consignar que naquela noite, a Raposa teve a ousadia de levar a Copa do Brasil do Mengão, com um mero empate sem gols e nos pênaltis, no Mineirão. Sabendo que ali estava hospedado um rufião paulistano, santista e flamenguista, os tutus badernaram à frente do hotel. Buzinação, foguetes, apitos. Não sabiam eu estar protegido por Garcia, Tomires e Pavão; Jadir, Dequinha e Jordan; Zagallo, Joel, Rubens, Benítez, Gérson, Índio, Moacir, Dida, Evaristo. Além de um banco de moleques, treinando com os professores Freitas Solich, Jaime de Almeida e Modesto. Lembram? Andrade, Adílio e Zico.

Poços de Caldas, Minas Gerais, noite de 27 de setembro de 2017.

1.     Pensamos o Brasil, após voltar ao regime democrático, em 1985, como um País atabalhoado, destreinado à liberdade e governado por desentendidos. Fizemos parecer que os acontecimentos mundiais não eram conosco. Fechávamo-nos ou abríamo-nos demais. Mesmo, durante os séculos anteriores, nunca estivemos adaptados a um salto sobre as oportunidades doadas por colonização portuguesa branda, extensão territorial garantida, riquezas naturais as mais diversas, e imigração de povos trabalhadores e de culturas milenares. Apesar de tanta riqueza, criamos um país de miseráveis e subempregados, além de alheio à soberania. Mesmo ausentes de conflitos externos agudos, seguimos entre soluços institucionais, políticos, econômicos e sociais;

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2.     Já a partir dos anos 1980, se percebia país e povo atrapalhados. O mundo se rearranjava e aqui não percebíamos muito bem. Após o período nacional-desenvolvimentista de Getúlio, Juscelino e os militares, creio, perdemos a noção de nosso valor para o planeta. Cresceu um individualismo estranho aos brasileiros nascidos na primeira metade do século passado. Percebia-se poucos sendo favorecidos e “o país parecia perder a delicadeza”. Inclusive, inaugurou-se um período em que a antes exuberante e criativa produção artística claudicou, para logo depois declinar;

3.     Desde 1959, Cuba dizia não e sofria. O Brasil não sabia muito bem o que dizer. José Sarney acompanhava o que viesse, sorteado para comandar um País retornado à democracia. Implantou planos econômicos canhestros para um mundo hegemônico, que havia dez anos estava em transformação, o imperialismo gestando ares mais amenos com a globalização, na crítica de Eric Hobsbawm (1917-2012). Era impulsionada apenas pelas transformações econômicas da China, quando Deng-Xiao Ping, em 1978, começou a mudar o país de Mao;

4.     Nada significativo foi feito, tentando-se debelar uma hiperinflação que só beneficiava aos ricos. Na sequência, assustada com Lula, a Rede Globo elegeu Fernando Collor, o caçador de marajás nunca presas fáceis, e responsável por um golpe no mercado interno com a abertura dos portos às importações. Algumas modernas, outras modernosas. Mais nada, até seu impeachment;

5.     Mais 25 anos até aqui. Itamar Franco, Fernando Henrique, Lula e Dilma. Foram criadas dicotomias bravas em processo que deveria ser de evolução, mas se mostrava cada vez mais paralisante: o Plano Real mal contestado pela esquerda; a reeleição de FHC comprada no Congresso; a privatização bem contestada pela esquerda, pois escandalosa; o projeto de inserção social de Lula, logo abalado pelo mensalão; as medidas anticíclicas pós-2007/2008, na época benéficas e, mais tarde, neutralizadas por péssima condução da política econômica nos mandatos de Dilma;

6.     Continuavam, pois os soluços, erodia-se a construção democrática. Afinal, desde 2003, apesar das concessões feitas por Lula aos endinheirados e políticos corruptos, o Acordo Secular de Elites nunca se fez satisfeito. Enquanto internamente dava estocadas diárias pela mídia, esperava vir do exterior conjuntura grave que não pudesse ser evitada pelo governo. Plano único: proliferar o caos e tomar conta de 8,5 milhões de quilômetros quadrados de corrupção econômica, podridão judiciária, risível legislativo e jornalismo de compadrio;

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7.     Superáramos 21 anos de ditadura civil-militar, autorizada por golpe contra políticas de cunho popular para, em 30 anos democráticos, regredirmos a um novo Estado de exceção, esperando a onda derradeira, aquela que nos fará naufragar, às mãos uma Constituição-Frankenstein;

8.     É o que se vê hoje, à direita e à esquerda. Uma barafunda de opiniões sobre rumos, pífias, muito mais para exaltar o umbigo de quem as propõem do que resolver o momento ou indicar um plano de desenvolvimento futuro;

9.     Há meio século trabalhamos para gestar uma, por si só nefasta, Federação de Corporações. Hoje em dia, nem isso mais. Caminhamos para transformá-la em colônia de um capitalismo em transição que nos devorará;

10.   Bastou o mundo, em um período recente, se encantar com um Cristo Redentor, que abraça a Guanabara, ameaçar decolar como um foguete, em paz institucional, crescimento econômico e inserção social, mazelas sendo eliminadas, para que logo suas turbinas fossem revertidas às mediocridade e ganância;

11.    Neste capítulo final, não apenas pelos políticos corruptos que perderam a eleição presidencial e tomaram o Poder Executivo, respaldados por representações judiciárias, congressuais e midiáticas sem compromisso com a verdade, mas também pela rendição completa ao rentismo do mercado financeiro que, aos poucos, esgota as esferas econômicas produtivas;

12.    No momento, não conseguimos ver saídas claras para o futuro e que recoloquem o País no caminho do crescimento com inclusão. Quem tomou o Poder não tem vocação para isso e se esconde, escamoteando a noção de meritocracia. Capengaremos décadas, da mesma forma como chegamos até aqui. De qualquer jeito. Estamos no ponto mais fundo de nosso lago de desilusões.

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[video:https://www.youtube.com/watch?v=PlCvUNkn6Fk

 

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8 comentários

  1. ” Estamos no ponto mais fundo

    ” Estamos no ponto mais fundo de nosso lago de desilusões.”

    Acho que não. No caso do Brasil nada é tão ruim que não possa piorar.

    Lamento pelas próximas gerações. Lamento pelo meu filho e sobrinhos.

  2. História….

    Caro sr.Rui, não o entendo nem à sua geração. Estão reclamando pelos resultados? Plantaram um caroço de manga, esperavam um pé de laranja? O Brasil que você e os seus deixará para filhos, netos e bisnetos, foi arquitetado e contruído por sua geração dentro de palestras em ECA’s, Fefelet’s, Crusp ou UNE’s da vida. Ou UNB’s ou outra Federal, para ajeitar e financiar o pensamento “socializante” tupiniquim.  FHC, Gianotti, Gianetti, Dirceu, Caetano, Gil, Darcy, Rui, Serra…. Álias, Serra exilado da Moóca ,voltou AntiCapitalista nos Jardins. Caetano e Gil, alavancados pelo talento, méritos  e ditadura que tanto criticavam, nunca abandonaram nem amizade nem os saraus da casa de Toninho Malvadeza. Nem poupudos cachês estatais ou de RGT. FHC arranjou uma vaga no Professorado da USP, para os seus?  É claro que é gozação. Vendeu a Petrobrás, e qual a parte que ficou para filhos e genros administrarem? De forma AntiCapitalista é claro. Como ensinanva Simone e Sartre, em visitas e palesltras socializantes. Tudo foi colocado em prática.  A culpa e Elite são os outros. Entendemos. Este Brasil gerado por MDB, Montoro, Ulisses, Tancredo, FHC, Covas, Sérgio Motta, Paulo Renato, Brisola, Darcy, Amazonino, Dutra, Lula, Dirceu, Erundina, Marta, Suplicy, Mercadante, Pires, Arraes, PT, PSB, PCB, PCdoB, PSDB, PDT,…não é o que sua geração esperava ver? A culpa é de quem? Renan?! Me perdoe a verdade ácida mas realista. A sua geração não verá outro país. Infelizmente. A culpa é de quem?  

    • História….

      O Brasil que salvará a Humanidade com seu Meio Ambiente (Jardim Zoológico para Gringo) JOESP30/09- 23 empresas são responsabilizadas pela poluição em Cubatão em “PROCESSO JULGADO EM 1.a INSTÂNCIA  APÓS 31 ANOS”. Lembram da Cidade mais poluída do Planeta? De Villa Parisi(?). 300 pessoas mortas incineradas ou foram 3.000? O que importa, nunca saberemos. Bebês que nasciam sem cérebro. Aos montes. Exxon, Shell, Petrobrás, BP, Rhodya, Basf, Bayer…Alguma indenização bilionária? Alguma Ong renomada ou Artista Internacional cobrando a ONU? Importante é Salvar a Humanidade com nosso Meio Ambiente, não é mesmo? É fácil explicar este Brasil produzido em 40 anos de Redemocratização. Difícil é compreendê-lo.      

      • Julgado em primeira instância

        agora?

        Ainda em Primeira Instância?

        Sabe o que os réus vão alegar como defesa?

        Prescrição intercorrente!

        E não se fala mais nisso, como não se falou até agora.

        Brasil, onde a justiça tarda e falha.

  3. Não é brinquedo, Rui….. e

    Não é brinquedo, Rui….. e ainda tem que carregar a culpa, segundo o amigo crítico do comentário nonsense de tudo. Haja boteco e bebida pra aturar, não?

    Lendo o seu texto,  que mistura magistralmente lirismo e realidade, lembro do documentário que vi há pouco sobre a música brasileira no tempo dos festivais. Rapaz, como era pulsante aquele país, seus artistas, sua sociedade.  E pensar que os filhos daquela geração, a turma que hoje está em torno de seus 50 anos, quase não encontramos ninguém capaz de enxergar que estamos regredindo a algo pior do que aquele tempo,

    E pensar também no quanto você está certo ao dizer que por uns poucos anos respiramos – no segundo mandato de Lula principalmente – inclusão social, crescimento econômico, combate às nosas mazelas seculares, entre ela a mais degradante de todas: a  fome! E pensar que isso foi “ontem”, meu Deus, ontem…. E parece que foi há séculos, tamanha a discrepância entre os dois “Brasis”.  Lembro que houve um curto período de tempo nesse segundo governo Lula que tínhamos ORGULHO do nosso país, soberano, altivo, citado por todos os intelectuais e estadistas do planeta como exemplo quase que de uma espécie de “milagre”, Lula era aclamado justamente, um ambiente alegre, otimista quanto ao presente a ao futuro contaminava a sociedade, e o mundo percebia isso. Millhões fizeram o caminho de volta para casa.

    Independente dos erros de avaliação de Lula, sua quase inacreditável ingenuidade no republicanismo em que fortaleceu todas as instituições que hoje o destroem selvagemente, sejamos francos: quem esperava pessoas tão perversas, arrogantes, doentes, tão malignamente narcísicas e tomadas desse ódio, esse espírito excludente, que impuseram ao país essa agenda de horror, perseguição, fascismo, intolerância, cientes que empurram dezenas de milhões para a fome de novo, a miséria, o crime, a mendicância…?  Havia um sonho em construção, incompleto, frágil, mas com suas sementes já florescendo e hoje somos terra arrasada, fatiada aos poucos e entregue por nossos maiores canalhas.

    Mas não se fala em resistência! Você está certo também em dizer que parte de nossa esquerda se dedica ao seu esporte preferido: alisar o próprio ego em análises e mais análises onde sobram farpas para os adversários das outras “correntes ideológicas”.  Um Moro sozinho faz mais estragos do que é capaz de reagir toda a esquerda brasileira. 

    Estamos sim no fundo do poço! E se não pensarmos em algum modo de finalmente confrontarmos os que tomaram nosso país à força – das togas e da mídia dessa vez… – então talvez seja aí o lugar que merecemos estar.

    Abraço!!!

  4. Amigos do BRD e da sensatez,

    Acabo de reponder aos comentários do texto anterior, sobre o imbecil “Caderno Agro”, da inominável FSP. Tenho viajado e trabalhado muito, o que me faz deixar GGN e CartaCpital um pouco de lado. Como sabem, a internet, talvez com raríssimas exceções a nomes famosos, não paga a quem escreve. Então, corro, caixeiro~viajante que sou, a desenvolver produtos e conceitos menos agressivos à humanidade e ao meio agrícola em que vivemos.

    A partir de agosto, minha vida fica mais acelerada. Passei meses aflito com a falta de chuvas. Hoje, converso com vocês, no molhado. Mas não deixarei de amanhã responder aos ensinamentos que vocês me trazem. Ao difícil de sempre, que me considera um esquerdopata, continuarei tentando entender. Talvez, peça ajuda à minha mulher, que é psicóloga. Abraços a todos. 

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