Homenagem à prima Rosa Maria

Pelo WhatsApp, o grupo da família alerta que a prima Rosa Maria partiu.

Rosa morava em Belo Horizonte e veio para São Paulo se tratar e acompanhar a filha, genro e neto. Ficou pouco tempo por aqui.

Cada cidade tem seus momentos. Na primeira metade dos anos 60, os momentos de Poços foram intensamente vividos por Rosa. Foi, de longe, a pessoa mais popular da cidade, aquela sobre a qual todos os contemporâneos primeiro perguntam, nos nossos encontros esporádicos.

Nem se fale da amazona audaz que saia a cavalo pela cidade, acompanhando o trotar das amazonas das famílias Nader, Maluf, Saad e outros patrícios que aportavam em Poços nas temporadas e que se tornaram nossos amigos.

Nem da capitã do time de vôlei do Colégio São Domingos, com um saque campeã que levantava o ginásio da Caldense nas Olimpíadas Estudantis – embora o campeonato sempre fosse do adversário, Colégio São José, que tinha algumas cortadoras temíveis.

Havia a Rosa solidária que, quando tive crupe, ficava comigo lendo histórias infantis; a Rosa namoradeira, que cativava os internos do Marista e a Rosa líder das meninas do São Domingos, tão popular que os Lundgren, das Casas Pernambucanas, chegaram a propor para ela estudar na Suíça, acompanhando a herdeira rebelde, a Anita.

Uma das mais interessantes foi a Rosa bossa nova, musa da rapaziada  que modernizou a sala da casa do tio Léo com seus acordes dissonantes e as interpretações à João Gilberto. Embora fosse consenso que o Ângelo cantava mais bonito que o João.

Havia a Rosa militante estudantil, única moça a presidir uma Comissão do GGN, o nosso Grupo Gente Nova, a Comissão Social, já que sempre foi a mais festeira. E ainda teve que aguentar o patrulhamento moralista do Netinho, o Antonio Neto Barbosa que, depois, conhecido como Barbosinha, presidiu o PCdoB em São Paulo. Tudo porque ajudou a introduzir no carnaval de Poços o bloco das “Domésticas de Lourdes”, de Belo Horizonte, considerado de cunho burguês.

Foi através da Rosa Maria que os jovens secundaristas de Poços tomaram conhecimento dos movimentos estudantis de Belo Horizonte. Na casa do tio Léo se hospedaram os jovens guerreiros belorizontinos, de passagem para São Paulo, para o  Congresso da UNE realizado no Convento Dominicano.

O mais assentado deles, que ficava na varanda do tio Léo com a gente ouvindo e cantando as serestas, era o José Carlos da Mata-Machado, uma das primeiras vítimas de tortura da ditadura.

Foi a Rosa que deu o pontapé inicial para a entrada da JEC (Juventude Estudantil Católica) em Poços. E, depois, da AP (Ação Popular). Foi ela que nos apresentou frei Beto e frei TIto, do grupo de seminaristas dominicanos que passava as férias em Poços.

No ano seguinte,  tornou-se a heroína absoluta da turma, ao ser detida no Congresso da UNE em Ibiúna.

Lembro-me de meu pai telefonando para o professor Antônio Cândido e a Gilda, que foram tirá-la da prisão.

Através da Rosa, montávamos nosso juízo sobre as lideranças estudantis da época. Luiz Travassos, da AP, era autêntico, radical, isto é, “ía até a raiz”; José Dirceu liderava a facção considerada pequeno burguesa. Aliás, meu pai era muito amigo de um dono de lanchonete em Casa Branca, pai da “maçã dourada”, a agente que o DOPS infiltrou junto a Dirceu. Acho que a irmã dela foi minha professora de matemática em São João.

Quando fui estudar em São João da Boa Vista não sei a propósito de que consegui montar um “seminário de conscientização política”, seja lá isso o que fosse. E quem levei para palestrar? As primas Cristina e Rosa Maria, que encantaram a plateia.

E quase ía me esquecendo da Rosa atriz, que brilhou na peça Dona Rosita, a Solteirona, de Garcia Lorca.

Para inaugurar nosso grupo de teatro em São João da Boa Vista, o Gajos, dissidência do grupo da escola, escrevi uma peça, Camélia Redentora, uma sátira algo cruel à dona Adélia, diretora do Instituto Educacional Coronel Cristiano Osório de Oliveira. E quem foi a escolhida para encarnar a Camélia? A Rosa, claro, que entrava no palco assobiando com dois dedos na boca, coçando o saco para compor a personagem “rainha de todos os povos / por intervenção militar”.

Só no dia da formatura a dona Adélia soube que havia emprestado o mimeógrafo da escola para tirarmos cópias da peça.

Rosa e Cristina eram as líderes absolutas da política estudantil de Poços. Tão absolutas que a Cristina conseguiu eleger presidente da UME (União Municipal dos Estudantes) seu namorado Rowilson Molina, de codinome Meio Quilo. Eram tão poderosas que, mesmo estudando em São João, resolvi montar uma oposição a elas lançando a candidatura do Zé Grandão, presidente do Grêmio da Maçonaria. Mas o tenente Hélio acabou com a UME antes das eleições, evitando um cisma familiar.

Não diria que o  discernimento da Rosa fosse sempre perfeito. Na época se aproximou de um líder estudantil de BH de nome Weber Americano que, mais tarde, se tornaria delegado de polícia e braço direito do ex-governador Newton Cardoso. Mas o Weber permitiu-lhe conhecer o Eduardo que deu-lhe duas filhas preciosas. Mas, dentro das limitações de informação da época, era a mais antenada.

Casada, passou por maus bocados, mas nunca perdeu a alegria e a iniciativa. Dirigiu uma escola do Senai em Belo Horizonte. Depois, liderou um grupo de professores que montou uma escola que, por algum tempo, foi a mais popular da cidade, com mais de 2 mil alunos, além de dar aulas para os juvenis do Cruzeiro, na Toca da Raposa.

O câncer que a tomou, herança familiar terrível do lado dos Mesquita, judiou mas não a abateu. Continuou alegre, “exibida”, como brincávamos com ela, pelo fato de ser a mais atirada de uma família razoavelmente tímida.

Escolheu ser enterrada em Poços de Caldas, a querida Poços de nossos melhores dias, quando as casas dos Mesquita e dos Nassif acolhiam das serestas à MPB, passando pela bossa nova, sem deixar de reverenciar os congos de São Benedito.

27 Comentários

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Teresa Blasi

- 2017-09-27 16:12:04

Fui aluna delas.

Aos 11 anos, conheci a professora Rosa no colégio São Domingos e pouco tempo depois também fuia aluna da Cristina, sua irmã.

Em plena ditadura 2 guerreiras que marcaram meu coração para o senso crítico que tanto ensinavam nas suas aulas.

Só hoje soube de seu falecimento, deixo aqui minha homenagem a Grande Lutadora!  

JOSE MARIA FURTADO

- 2015-07-06 16:14:08

Rosa Maria

Prezado,

Só soube ontem, pelo Gerinho, pois no dia eu estava no interior e não te li.

Rosa encarnava o ideal (um tanto quanto vago e no entanto tão justo) dos jovens de esquerda daqueles anos 60. Ela era linda e sua liderança à frente da estudantada fizeram dela a nossa musa.  Na verdade, eu a conheci brevemente - tinha uns 14 anos à época e quase tive um troço quando ela me dirigiu a palavra enquanto 'fiscalizávamos' a apuração da eleição na qual Arthur de Mendonça Chaves Neto, o Chavinho, infelizmente, perdeu pra Sebastião Navarro Vieira, o reaça-mór dos reaças sul-mineiros, a disputa por uma vaga à Assembleia Legislativa de Minas Gerais naquele inesquecível verão de 1966.

Desde então nunca mais a vi, embora também resida em BH já há bastante tempo. De longe eu mantinha o respeito pelo passado de lutas e torcia para que ela ganhasse a batalha contra o câncer. Embora nunca tivesse sido amigo próximo (a diferença de idade não me deixou aproximar dela, só admirar), lamento muito.

Conforta dizer que, naqueles tempos, ela fez a diferença? Pois fez e por isso mesmo se tornou inequescível para todos que a conheceram em vida. Um abraço.

 

 

 

Maria da Graça Carvalho

- 2015-06-11 18:15:41

Deus seja contigo Rosinha!
Deus seja contigo Rosinha! Meu respeito pela guerreira e valorosa mulher que nos deixa fisicamente mas permanece em nossos corações. ! Meus sentimentos a toda a família.

Claudio Valentini

- 2015-06-11 10:26:13

Um mar de Rosas ...

Belo texto. Linda e merecida homenagem às outras tantas Rosas que eu ainda não conhecia. Tive o privilégio de conhecer a educadora, a chefe de família, a tia e a amiga. Uma dessas pessoas que não se encontra em cada esquina. Solidariedade e generosidade eram suas maiores marcas. Me levou para conhecer a casa do tio Léo. Me ensinou a valorizar os pequenos prazeres quotidianos da vida. Uma grande perda!

Cláudio José

- 2015-06-06 00:39:42

Meus sentimentos aos

Meus sentimentos aos familiares e amigos! 

Lucila Casseb Pessoti

- 2015-06-05 20:24:12

Rosa não se foi.

Meu abraço à família, e um beijo em você e na Maria Cristina, Luiz. Acho que eu me lembro de uma irmã mais nova, mas a neblina anda meio densa. Lembro-me de doces e música. Do Fernando Duarte e do uirapuru. Rosa era linda e tinha uma vivacidade incendiária. Pessoas assim não se vão.

Zeca Leporace

- 2015-06-05 18:18:21

Caro Luis, Gostaria de

Caro Luis,

Gostaria de cumprimentá-lo pela bela homenagem à sua prima, uma pessoa de fato excepcional. E seu texto nos faz lamentar não a termos conhecido. Também passamos bons momentos em Poços, onde meu pai trabalhou algumas vezes na Rádio Cultura e é de lá que meus irmãos e eu guardamos as melhores lembranças da infância. 

Aproveito a oportunidade para dizer que você e outros grandes e incansáveis jornalistas da rede nos têm suprido de informações valiosas, num contexto onde não se obtém mais a verdadeira informação pelos canais oficiais, que deveriam fornecê-la de maneira isenta e responsável, mas que há tempos se esqueceram desse compromisso . Hoje, quem faz o verdadeiro jornalismo são vocês e sei que a duras penas e sob todas as formas de pressão. Torço sempre para que esse "bloco de resistência" prospere e se fortaleça a cada dia.

Grande abraço,

Zeca Leporace (meu nome completo é Sebastião José Leporace Jr.)

 

Kenneth Camargo

- 2015-06-04 19:55:59

Meus sentimentos

Muito bonita homenagem, deixo um abraço  solidário...

Anna Dutra

- 2015-06-04 12:09:10

Vida!

Nassif,

Rosa cometeu uma vida profícua e em movimento. Construções, edificações, mãos dadas levando, conduzindo, irmanando. Muitas conquistas do coração e tesouros abrigados no espírito.

O "céu" deve estar em festa com sua chegada.

Fica em Paz!

 

 

 

Marcelo T. Duarte

- 2015-06-04 11:59:27

A Rosa foi embora

Aos filhos, irmãos, primos e sobrinhos, fica aqui nossos profundos sentimentos a uma pessoa que acompanhamos desde a adolescência e fase adulta, como não bastasse a inteligência aguda para a boa luta, ainda conseguir desenvolver atributos intelectuais e morais para conduzir a sua vida e a das quais a cercavam, além de espalhar a luz por onde passava. Fica também a saudade das tardes e noites na casa dos Mesquita em Poços, onde eram ocupadas a sala e a sacada de frente para a Igreja de São Benedito, encimada pela mata do Cristo, ouvindo Sêo Leo, Oscarzinho e quem aparecesse para tocar ou ouvir (que era o meu caso), ali reinava a verdadeira democracia.

Um abraço fraternal a todos da família por esta imensa perda.

Marcelo T. Duarte

- 2015-06-04 11:56:58

A Rosa foi embora

Aos filhos, irmãos, primos e sobrinhos, fica aqui nossos profundos sentimentos a uma pessoa que acompanhamos desde a adolescência e fase adulta, como não bastasse a inteligência aguda para a boa luta, ainda conseguir desenvolver atributos intelectuais e morais para conduzir a sua vida e a das quais a cercavam, além de espalhar a luz por onde passava. Fica também a saudade das tardes e noites na casa dos Mesquita em Poços, onde eram ocupadas a sala e a sacada de frente para a Igreja de São Benedito, encimada pela mata do Cristo, ouvindo Sêo Leo, Oscarzinho e quem aparecesse para tocar ou ouvir (que era o meu caso), ali reinava a verdadeira democracia.

Um abraço fraternal a todos da família por esta imensa perda.

ReginaAlbrectsen

- 2015-06-04 08:01:54

Homenagem à prima Rosa Maria

Família Nassif querida,

receba as minhas condolências pela passagem de vossa estimada e admirada prima Rosa.

 

 

Lydia Aguiar

- 2015-06-04 05:06:39

Pessoas que deixam um legado

Fico consternada quando pssoas assim deixam este plano deixando esse rastro de luz por onde passaram e na vida das pessoas que tiveram o prazer de conhecê-las. 

Que ela descanse em paz, pq certamente foi daquelas que não veio à passeio! Adorooo

Vou pensar nessa alma nas minhas orações budistas dos próximos dias. 

Marcelo Menna Barreto

- 2015-06-04 04:12:39

Força e Paz

Não a conheci. Em comum, o fato de ser sogra do meu garnde amigo Dirceu, colega na Unisinos. Talvez não só isto.... Nesta bela homenagem, percebi que a Dona Rosa Maria integrou um importante movimento da Igreja progressista. Enfim, uma mulher de fibra e de fé. Uma fé verdadeira, que talvez seja bem simbolizada na figura de São João XXIII, que ilustra mais este belo texto do Nassif. Que ele, Dom Helder Câmara, Dom Tomas Balduíno e outros verdadeiros santos a recebam de braços abertos na sua nova morada.

Laura Macedo

- 2015-06-04 03:00:51

Amigo Nassif, meus

Amigo Nassif, meus sentimentos.

Taí uma pessoa que gostaria de ter conhecido...

Que descanse em PAZ.

Meire

- 2015-06-04 02:30:50

*

Liturgia Diária                          

3 de Junho de 2015

4ª-feira da 9ª Semana Tempo Comum

Evangelho - Mc 12,18-27

Ele não é Deus de mortos, mas de vivos!

+ Evangelho de Jesus Cristo segundo São Marcos 12,18-27

Reflexão - Mc 12, 18-27

Tem gente que sente o maior prazer em discutir religião. Essas discussões, na verdade, não significam a busca de uma melhor compreensão da fé com a finalidade de possibilitar uma resposta de qualidade aos apelativos dos valores evangélicos, mas na maioria das vezes se constituem numa discussão sobre posições unilaterais e não negociáveis, muitas vezes posições pessoais, que só servem para aprofundar diferenças e criar divisões e em nada contribuem para que todos possam chegar à verdade, muito menos para viver segundo ela.

 

Meire

- 2015-06-04 01:13:12

*

Pela Fé, Espera-se a Continuidade Dessa e de Todas as Histórias de Vida!


 

Eliane Faccion

- 2015-06-04 00:43:24

O meu abraço

Nassif,

Estou triste, pois, há alguns anos soube que Rosa estava em BH, ao tempo e que lá estive, mas a correria desta vida me impediu de procurá-la...e ao Oscar...Receba o meu abraço e envie a todos eles (incluindo a Cristina)um beijo e todo este sentimento que me invade...

 

Paulo Tadeu

- 2015-06-03 23:17:43

ROSA

E quem, como eu, tenha chegado depois, caminhou por marcas de passos e ecos que neste planalto ela deixou. E como se os anos 60 das inquietações e rebeldias não estivessem em nossa história, se suas pegadas e voz não os tivessem marcados. Vidas sonhadas nem sempre se materializam, sonhos vividos não morrem.

Nilva de Souza

- 2015-06-03 22:21:46

Meus sentimentos pela perda

Meus sentimentos pela perda desta guerreira.

Rogério Furtado

- 2015-06-03 18:53:59

Nassif, que tristeza doída,

Nassif, que tristeza doída, sô!

 

Maria Luisa

- 2015-06-03 17:34:04

A grande beleza!

[video:https://youtu.be/EDHL4v0UtqQ]

Marly

- 2015-06-03 17:09:57

Carinhosa homenagem à prima que se foi!

E pelo relatado, Rosa Maria engrandeceu a vida que teve!  E agora, virou mais uma estrelinha no céu!  Que ela brilhe e com sua sabedoria possa abrir as mentes daqueles que aqui, continuam suas árduas viagens.

Mara L. Baraúna

- 2015-06-03 16:12:06

Viva Rosa Maria!!

Rosa Maria devia ser uma pessoa muito agradável. Era alegre, exibida, antenada e talentosa. Vá em paz, que seja bem recebida e que tenha um caminho de luz

Dito Vivaldo

- 2015-06-03 14:36:29

Não a conheci. Mas, parabéns
Não a conheci. Mas, parabéns pela homenagem. Certamente, os seus entes queridos e fãs ficaram felizes com a lembrança e bela escrita.

Odonir Oliveira

- 2015-06-03 13:51:35

Ah, Nassif, quanto fez essa sua Rosa Maria !

Descansou de tanta coisa linda e promissora. Animadora cultural, política, educacional... muita coisa, Nassif.

Deixou muito... e como se não bastasse, ainda  esse texto cheio de ternuras de você a nós.

Abraços aos familiares e conhecidos todos.

Segue em paz, Rosa Maria !

Lionel Rupaud

- 2015-06-03 13:47:06

Não a conheci,

mas já gostei de mais!

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