Irmão gangorra – um causo de natal, por Zê Carota

Irmão gangorra – um causo de natal

por Zê Carota

durante anos, nas ceias de natal de minha enorme família materna, cumpria-se um ritual que incomodava a muitos, mas que ninguém, mesmo sob risco de um piripaque por tédio ou fome, se ousava a questionar: a ladainha que um meu tio-avô ordenado irmão marista teimava em puxar no exato instante em que as comidas da ceia eram postas à mesa.

 

o pretexto era legítimo: agradecer o privilégio de poder comer, e com abundância, num país em que tantos passavam fome.

ocorre que as orações não se circunscreviam aos agradecimentos pela boia: percorriam o Gênesis desde o “Fiat Lux”, até chegarem ao abençoado fósforo que a cozinheira riscou para acender o forno que assou o leitão à pururuca – que, obviamente, ao final da Missa do Galo domiciliar, esfriara até o ponto em que se podia rebatiza-lo leitão ao azulejo…

 

certa vez, ao chegar para uma destas ceias, num secretíssimo bate-papo com parentes, cunhei em meu tio-avô um apelido: irmão gangorra, pois quando ele se assentava pra conversar, todo mundo levantava, e quando se levantava, todo mundo assentava outra vez.

era pra ser uma piada íntima, mas alguém vazou, causando, primeiro, um pequeno bafafá familiar, depois, uma encrenca grande pra mim.

 

após solenes conciliábulos entre os decanos do clã, acertou-se que eu teria um particular com Tia Mariana, autoridade máxima da família, em cuja casa, no alpendre, o destino da família tantas vezes fora debatido e definido, e não só: também os destinos de Minas e, até, do país, pois o mais renomado parente era ninguém menos que Aureliano Chaves, que quando governador, ministro e vice-presidente, sempre que de passagem por sua Três Pontas natal, jamais deixou de ter audiências com Tia Mariana, nos quais não duvido que os conselhos ultrapassaram questões políticas, envolvendo outras especialidades de Tia Mariana, como a boa mesa e as boas modas – e era sabida a sua implicância com aquela sunga que o então presidente, general figueiredo, usava para, dizia ela, “dar um passeio e panhar sol”.

era com esta mulher que eu me haveria pela troça profana praticada.

 

porém, sua figura não inspirava temor, mas sabedoria – e afeto: de largura, tinha o mesmo metro e meio que tinha de altura, bochechas muito rosadinhas salientadas pelo riso fácil, sempre com um casaquinho anti ventos encanados, dona de um abraço tão gostoso quanto perfumado pelos bons talcos que usava com fartura.

eu assentado no divã, ela em sua cadeira de balanço, deu-se a prosa.

 

me advertiu que, realmente, não fora “bonitinho” apelidar meu tio-avô, seu irmão, daquela maneira, pois, embora parente, ele era uma autoridade – e religiosa! –, e era vaidoso de seu posto, então ela tinha duas coisas pra registrar: primeiro, que eu o procurasse e pedisse, nos seguintes termos, “desculpas esposadas com a verdade”; por fim, e para minha surpresa, me agradecer, porque ela morria de fome esperando “aquela reza toda se acabar, mas não via cabimento em falar, então o ocorrido serviu pra, quem sabe, mudar essa coisa. mas, ó, isso fica sendo um segredinho nosso, ouviu?”.

 

ouvi – ri muito –, fiz minha parte, passou.

veio a outra ceia.

no que foi posta à mesa a última travessa – com um pernil assado no fogão de lenha, com a superfície arrematada a maçarico, estabelecendo mistura de maciez com crocância –, olhei pra Tia Mariana, que, de sua poltrona, me piscou.

no que irmão gangorra – digo, irmão marista – se assentou e anunciou “vamos orar”, Tia Mariana, muito calma, muito terna, mas determinada, interferiu:

 

– breve, meu irmão. não vamos dar razão ao menino.

 

demorou um cadinho, mas todos riram, até ele – e comeram gostoso e quentinho como nunca.

 

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