Irmão Sol, irmã Lua – II, por Izaías Almada

Eu, na confortável condição de observador e, por que não dizer beneficiário final desse puro e santo ato de amor, procurei para mim o melhor lugar do espetáculo, para com isso poder melhor descrevê-lo...

Irmão Sol, irmã Lua – II (*)

por Izaías Almada

Nesses encontros em que o sentimento de culpa é mais intenso e, sobretudo para evitar novos constrangimentos, eles costumam iniciar em silêncio o seu ato de amor, deixando a cada um dos sentidos a responsabilidade de seguirem sua própria trajetória, livres de quaisquer preconceitos. Desejos queimando a pele.

Eu, na confortável condição de observador e, por que não dizer beneficiário final desse puro e santo ato de amor, procurei para mim o melhor lugar do espetáculo, para com isso poder melhor descrevê-lo…

No livre jogo dos sentidos entre os amantes, a visão assegurou como sempre – na plenitude da sua função imediata e primordial – o privilégio de assumir o comando do ritual libidinoso, para logo em seguida ceder sua vez ao ansioso tato que, movido pelo desejo de prospecção em áreas mais sensíveis, obedeceu sem qualquer indecisão a toda uma sequencia de carinhos, apalpadelas e pequenas violações, mudando em fração de segundos do carinho e recato do primeiro toque a ousadias mais recônditas, a certas buscas e penetrações que, passando por línguas, dedos e mãos, acabaram por completar-se no ocultar de punhos e braços. Loucuras! Muitas delas já descritas por seus fanáticos antepassados medievais.

O paladar e o olfato seguiram com naturalidade dentro do ritual lascivo ao buscarem numa espécie de gula e de luxúria intermináveis os músculos intumescidos e latejantes de seus donos com cheiros e humores próprios. E por último, o gozo pleno da audição, manifestando-se aqui em gritos, urros e alguns sons menos definidos, mas que poderão muito bem indicar e avaliar o alto grau de dores e prazeres provocados em cada um dos parceiros. Completava-se assim, em delírio, o jogo inicial dos sentidos.

Entretanto, muitas vezes isso já mostrara não ser suficiente, pois, como ainda há pouco me referi, havia em vários desses encontros o desconforto provocado por alguns sentimentos pecaminosos. Mas hoje, pelo que vejo, resolveram em tudo assumir-se como amantes mundanos, terminar de vez com os problemas de consciência. Pois é assim, precisamente em nome desse desconforto, e até mesmo pela incomoda convivência com ele, que resolveram deixar explodir algumas taras há muito reprimidas, na satisfação de um desejo bruto e primitivo, na realização plena de desejos milenares. E, porque não dizer, acrescento eu com a ponta de um impiedoso moralismo, no extremo e devasso gozo que, nessas questões de cama, muitos homens e mulheres costumam não saber muito bem separar as trevas da luz. Mas atenção: posso garantir-vos que o melhor do pecado estará sempre nas trevas, se é que me faço entender.

Júlia, a minha doce e pequena Júlia, acaba de completar trinta anos de idade. Frederico, o bom e meigo irmão Frederico, irá fazer trinta e sete daqui a duas semanas. Uma das quartas-feiras que entremeia os dois aniversários foi o dia escolhido pelo casal para realizar aquele que deverá ser o seu mais grandioso ato de amor, e que chamaram – não sem algum proposital deboche para eles e júbilo para mim – como o seu dia da grande fornicação.

Que maravilha! Hoje uma quarta-feira santa, logo após o jejum. Vinte quatro horas de fantasias e delírios, de violências e contrições, de dor e prazer, de paixão e morte. Vinte e quatro horas de sexo transcendente, furioso, quase completo, nada que se pareça ao tradicional… Ao contrário do que muitos ainda pensam, a plenitude do sexo sé se consegue com a morte de todos os sentidos, o orgasmo, e não com o sentimento redutor da procriação. A manutenção da espécie não tem qualquer relação com o prazer sexual. Basta ver o que fazem os nossos irmãos animais…

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(*) – Conto do meu livro “Memórias Emotivas” / Ed. Mania de Livro.                                                         (CONTINUA)

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro. Nascido em BH, em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

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