Isto não é um texto de autoajuda, por Douglas Portari

Isto não é um texto de autoajuda, por Douglas Portari

Em tempos de tanta mentira, tanta força bruta, será questão de saúde encontrarmos formas de exercitar a paz de espírito. E não me refiro à praia deserta e à montanha isolada – quase sempre ao alcance de poucos. Falo de buscar aquela pepita de equilíbrio na mina escura e funda que tem sido o cotidiano, nas pequenas coisas às quais damos pouca importância. Não o farol na ponta da praia, mas as tímidas luzes bruxuleando pelo caminho, a nos proteger do breu total.

O livro que se lê no meio do dia, a cerveja com os amigos, um filme, uma caminhada, a música. Sozinho ou acompanhado – para quem brigou com parentes, lembre-se, os laços se estreitaram com quem ficou. Cuidemos uns dos outros. Não sou um otimista, mas sei que o pessimista sofre duas vezes, o que me permite rir da lama. Há muita gente com a alma gangrenada aí fora, mas não podemos deixar que nos envenene o moral. A maioria está apenas desorientada.

Dos pequenos prazeres que me cabem, levar minha filha à escola é uma assepsia mental. Vamos caminhando e nosso caminho é feito de escolhas: a rua dos cachorros ou a dos gatos (de quem, aliás, sabemos nomes e manhas). E tome cafuné e ronronar e rabos felizes. Tem também loja de ração com aquário de peixes coloridos. E até um arbusto-berçário de grilos. Enquanto pequenos, ela adora pegá-los na mão; quando grandes, admira suas cores… respeitosamente a distância.

A cidade não é particularmente bonita, ao contrário. Não estamos em um bairro de classe média alta, longe disso. Mas se nós gatos já nascemos periféricos, porém, nascemos livres. Ver o encantamento de minha filha ao topar com as coisas mais simples, de uma lagarta a uma borboleta, é um bálsamo para o coração. (re)Descobrir com ela a emoção verdadeira de um mundo que se levanta – de filmes a músicas e livrinhos -, se não puro, ao menos ainda livre do ódio, idem.

E, não, isso não é um texto de autoajuda – pra mim, autoajuda é masturbação ou livro sobre mecânica de emergência. Também não é sobre negar a realidade, muito menos proselitismo da resignação. Tem gente nesse país usando o fogão como armário, peça decorativa, e isso é vergonhosamente doloroso. Se digo para fecharmos os olhos, é somente pra respirarmos, devolvermos os ombros pra debaixo das orelhas, e, assim, respirando, tragar a dor e enfrentar a labuta.

 

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