Lágrimas pela Itália, por Izaías Almada

O avanço rápido e cruel do coronavírus pelo mundo, além de nos deixar em alerta, consegue o triste protagonismo dos noticiários em expor tragédias coletivas e individuais.

Lágrimas pela Itália

por Izaías Almada

Por que os deuses estão bravos com a Itália?

Qual a razão de castigar um povo que em sua história antiga, medieval ou moderna procurou, no mais das vezes, manter em equilíbrio as relações entre o homem e a natureza?

Dante, Maquiavel, Corelli, Vivaldi, Petrarca… 

O avanço rápido e cruel do coronavírus pelo mundo, além de nos deixar em alerta, consegue o triste protagonismo dos noticiários em expor tragédias coletivas e individuais.

Todas elas se tornam motivos de dor, lágrimas e solidariedade, consoante o grau de relacionamento afetivo com parentes, amigos, países e povos.

Esse amálgama de sentimentos nos conduz, por vezes, a lembranças de fatos que, de uma maneira ou de outra, marcaram a nossa vida privada e profissional.

No meu caso pessoal trata-se da grande admiração que tenho pela Itália, pais que visitei pela primeira vez há quase cinquenta anos e que, das inúmeras vezes em que lá estive, só fez aumentar a admiração e o respeito pelo seu povo, sua língua e sua cultura.

Michelangelo, Verdi, Collodi, Caruso, Pavarotti, Da Vinci…

Numa dessas viagens, trabalhando na agencia de publicidade Mc Cann-Erickson, no Brasil, fui a Roma e Veneza para realizar dois filmes publicitários para a empresa Gessy/Lever: o sorvete Cornetto. 

O filme de Veneza era, na verdade a realização brasileira de um roteiro criado pela Mc Cann-Erickson inglesa em cima de uma canção napolitana: “O Sole Mio”. O que, aliás, causou alguma estranheza aos curiosos venezianos que assistiam as filmagens, pois os italianos são muitos orgulhosos de seus dialetos natais. Uma canção napolitana nos canais do Veneto? A publicidade consegue essas “poezas”.

O segundo filme, esse já de criação brasileira, foi feito no Castel Sant’Angelo, em Roma, onde vivi uma experiência fascinante: o diretor de fotografia do comercial havia trabalhado como assistente de fotografia num filme de Federico Fellini, um dos ícones do neorrealismo  italiano e do cinema mundial.

Sophia Loren, Cláudia Cardinalle, Monica Belluci, Stefania Sandrelli, Gina Lollobrigida…

No dia seguinte após as filmagens do comercial, fui com o fotógrafo a um laboratório conferir se estava tudo certo com os negativos revelados, praxe nos tempos das películas Kodak ou Eastman Color.

Após constatar que o material filmado estava em ordem, fui convidado pelo fotógrafo para conhecer os então famosos estúdios da Cinnecittá, bem ao lado do laboratório cinematográfico.

Ali Fellini havia acabado de filmar dias antes “A Cidade das Mulheres” (La città delle Donne) e partes dos cenários das filmagens ainda não haviam sido desmontados. Era o ano de 1979. Uma visita inesperada e que me remetia sentimentalmente a muitos dos grandes filmes do movimento neorrealista italiano.

Uma surpresa, assim que saímos do estúdio com parte dos cenários intactos, ainda estava reservada. O diretor Federico Fellini chegava com uma de suas assistentes para uma reunião e veio cumprimentar ao meu lado o fotógrafo com quem trabalhara. 

Terno preto, como costumava trajar, estendeu-me a mão após a apresentação feita e conversamos por uns cinco minutinhos, um dos cinco minutinhos mais ricos que o cinema já me proporcionou.

Essa é apenas umas das boas lembranças que retenho da Itália, onde já visitei inúmeras de suas cidades, todas com uma característica invejável: a beleza natural que se mistura com a beleza arquitetônica criada pelo homem.

Assim fui conhecendo muitas cidades do país. Além de Roma, Milão, Veneza e seus arredores visitei, na companhia da minha companheira Bernadette Figueiredo, Bolonha, Ravena, Ferrara, Padova, Bassano del Grappa, Vicenza, Verona, Veneza, Florença, Lucca, Pisa, Rovigo, Lendinara. 

Não há como ignorar o sofrimento do povo italiano nesse momento. Não há como esquecer “A Divina Comédia” de Dante, “O Príncipe” de Maquiavel, “Aída” de Verdi, “Madame Buterfly, de Puccini, “Assim é se lhe parece” de Pirandello, “Mirandolina” de Carlo Goldoni, entre outros”.

Lina Cavalieri, Renata Tebaldi, Mina, Carla Bruni…

Impossível a indiferença diante da “Pietà” e “David” de Michelangelo, “Mona Lisa” e “A Santa Ceia” de Da Vinci, da voz de Andrea Bocelli, de Galileu Galilei, do matemático Fibonacci, do Pinóquio e do velho Gepeto da nossa infância, dos pensamentos filosóficos de Tomás de Aquino, Giordano Bruno, Gramsci, Humberto Eco… A lista de artistas, cientistas e pensadores seria imensa.

Rita Pavoni, Gigliola Cinquentti, Laura Pausini, Ornella Vanoni…

O mundo não há de ser assim para sempre. A ajuda humanitária e a solidariedade têm que mostrar a sua força e prevalecer sobre um sistema econômico que até na desgraça procura satisfazer seus interesses.

Lágrimas e esperanças pela Itália!

2 comentários

  1. Beleza de colocação, parabéns…
    não existe coisa mais linda do que a gente ver alguém expandir sua consciência na direção dos nossos irmãos e irmãs de jornada que estão sofrendo por todo planeta………………………….

    ter ciência é apenas conhecer…………………………expandir a consciência é conhece com sentimentos

    algo de muito bonito pode restar do que estamos passando, já se apresenta

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