Livros que não esqueço (I), por Izaías Almada

A literatura me pegou de surpresa ainda no curso primário, mais precisamente nas aulas da professora Lenir Ferreira no Colégio Izabela Hendrix de Belo Horizonte.

Livros que não esqueço (I)

por Izaías Almada

OS GRANDES PERSONAGENS DE MONTEIRO LOBATO

Diante da ignorância e da selvageria, para dizer o mínimo, do novo governo brasileiro em relação à arte, a cultura e à ciência, vou por uns tempos deixar de lado o cotidiano político e falar de um assunto com o qual convivo há muitos e muitos anos: a literatura.

Através dela e da influência de algumas obras que tiveram o valor de me despertar para o humanismo e para as virtudes e, sobretudo, as mazelas do ser humano, pude também me dedicar ao teatro e ao cinema, triunvirato que abracei há exatos sessenta anos.

A literatura me pegou de surpresa ainda no curso primário, mais precisamente nas aulas da professora Lenir Ferreira no Colégio Izabela Hendrix de Belo Horizonte. Final da década de 50 do século passado. Caramba! Acho que estou mesmo ficando velho…

Nos ensinamentos iniciais e rudimentares de Aritmética, Geografia, Historia do Brasil e Língua Pátria, assim se denominava o estudo do português, dona Lenir – como a chamávamos – começou a ler para os alunos do segundo ano primário algumas das obras de Monteiro Lobato, apresentando-nos às Reinações de Narizinho. 

Depois vieram as aventuras do Pedrinho, dona benta, a boneca Emília e o personagem que eu mais gostava na época, o Visconde de Sabugosa.

Convenhamos, o curso primário já apresentava as dificuldades normais do aprender ler, escrever, somar, multiplicar e por aí afora. Decorar o nome dos estados e das capitais brasileiras era outro divertimento, isso quando não se transformava em prova de final de ano. Ouvir falar mesmo que superficialmente da Inconfidência Mineira… 

Dessa maneira, ouvir a leitura de Monteiro Lobato era como um bálsamo para nossos atentos ouvidos, pois nos descansava por bons e silenciosos minutos das atividades e práticas da educação formal. 

GRAHAN GREENE E AS DIVERTIDAS AVENTURAS DE UM ESPIÃO

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Embora nascendo, vivendo e crescendo em Belo Horizonte, o meu pequenino mundo vinha impregnado dos ressentimentos da Segunda Grande Guerra e era natural que, embora ouvíssemos em nossas casas falar palavras como democracia, nazismo, comunismo e nomes como Dutra, Getúlio Vargas e Brigadeiro Eduardo Gomes, o que nos divertia mesmo e chamava a nossa atenção, para além das brincadeiras com os amigos da escola ou da rua onde morávamos, eram as aventuras do Mickey e do Pato Donald, do Pernalonga e do Hortelino Trocaletra, heróis das revistas em quadrinhos. Além, é claro, dos clássicos juvenis dos amigos e irmãos mais velhos: Super-homem e a família Marvel.

Claro, o futebol já provocava discussões acaloradas entre os pirralhos que “torciam” pelo Atlético, Cruzeiro ou América, esse, aliás, o meu time do coração.

Tudo passando muito rápido. Fiz o exame de admissão ao curso ginasial e já adolescente fui presenteado em um dos meus aniversários, se não me engano ao completar 17 anos de idade, com o livro do escritor inglês Graham Greene: “Nosso Homem em Havana”. Até então jamais ouvira falar do livro e do autor.

Fui apresentado a ambos pela minha primeira namorada. Pessoa que naquela altura já se mostrava dona de muitas leituras e extremamente inteligente… É hoje doutora em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais, além de vários outros títulos. Saudosa Vera Alice Cardoso.

Graham Greene prendeu a minha atenção da primeira à última página pelo simples fato de que eu ainda não havia lido um romance cuja narrativa criava algum suspense e expectativas na vida de um cidadão inglês que morava na ilha de Cuba antes da revolução vitoriosa de Fidel Castro e Che Guevara. Um espião a serviço de Sua Majestade e do governo inglês.

Sem que eu soubesse, e muito menos Graham Greene, seu livro despertou-me a curiosidade, ainda que sem os filtros para avaliar os segredos e as qualidades da boa literatura, para os romances de aventuras policias e misteriosas. Todos com narrativas extremamente criativas e, porque não dizer, muito bem escritos. Garanto que Arsène Lupin, Hercule Poirot e Miss Marple divertiram-me por muitas e muitas noites de leitura, criando-me o hábito que mantenho até os dias atuais. E isso já não era pouco.

Agatha Christie e Maurice Leblanc são os culpados desse “crime”…

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4 comentários

  1. Izaias. Pelas tuas citações e referências imagino que você deve ter mais ou menos a minha idade. Podemos mantê-las em segredo, por enquanto. O que você pode me dizer sobre as acusações de racismo que atiram sobre Monteiro Lobato cuja obra infantil li dezenas de vezes sem perceber qualquer indício de sua procedência? Tenho confrontado meus próprios filhos a esse respeito.

    • Caro Sílvio, grato pela mensagem. A polêmica é antiga e… delicada. Classificar Lobato de racista parece-me exagerado. Quando me lembro das aulas da professora Lenir, como digo no texto, a primeira imagem que me vem à memória é a de um congraçamento entre meninos e meninas que dão os primeiros passos em sua vida intelectual. E provavelmente naquela sala muitos tivessem empregadas domésticas negras em suas casas.
      O convívio semanal com as obras de Lobato teria deixado a semente do racismo em suas mentes? Tenho quase a certeza que não.
      E depois Lobato escreveu a sua obra na primeira metade do século XX, num Brasil ainda de extremo conservadorismo e dominado (como até hoje, aliás) pelos senhores de engenho.
      Combater o racismo, sim, mas censurar autores do passado com argumentos de uma sociedade que avançou em outros domínios das ciências e das artes, parece-me uma atitude de combater os adversários usando as suas mesmas armas: a censura e o preconceito que se quer combater.

  2. Não sentíamos esse chamado racismo quando crianças. É o tipo da questão complicada para se discutir. Contudo, parto do principio de que se nós usarmos os conhecimentos adquiridos com os passar dos séculos, acabamos, em muitos casos, por destruir uma parte desse conhecimento que um dia foi novidade e avanço.
    Creio que essa não é melhor forma de crítica.

  3. Outro dia ouvi o Zeca Pagodinho cantando o samba Piston de Gafieira do Billy Blanco onde ele troca “não é que o Doca, um crioulo comportado” por “um sujeito comportado”. Será por aí? Noel Rosa era anti-semita porque andava “empenhado nas mãos de um judeu”? Nesses tempos de misoginia e racismo exacerbados (e federalizados) compreendo que todo o cuidado seja pouco. Mas não há como evitar ser prisioneiro da cultura adquirida ao longo de tantos anos.

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