Livros que não esqueço (XI), por Izaías Almada

Como disse lá no início desses meus artigos, foram os contos policiais, em boa parte, os responsáveis na minha adolescência pelo gosto que adquiri pela leitura.

Livros que não esqueço (XI)

por Izaías Almada

Sempre gostei de ler contos, um dos gêneros literários responsáveis pelo surgimento e a confirmação do talento de grandes escritores da literatura universal.

Como disse lá no início desses meus artigos, foram os contos policiais, em boa parte, os responsáveis na minha adolescência pelo gosto que adquiri pela leitura.

Edgar Allan Poe, Conan Doyle, Agatha Christie, Maurice Leblanc, o nosso Luiz Lopes Coelho, a quem tive o prazer de conhecer pessoalmente, fazem parte de um grupo de escritores que, pelo gênero – embora não fossem somente contistas – criou em mim a paixão por livros que, se de início tinham o interesse pela surpresa, pelo divertimento e mistério, pelo raciocínio arguto dos principais personagens e pela lógica dedutiva, abriram-me a perspectiva de outros caminhos.. 

Aos poucos esse mundo de magia e suspense foi se transformando numa busca por novas aventuras, numa atração quase que insaciável não só pelo divertimento, mas também pelo conhecimento e pela oportunidade de iniciar-me pelos vários campos do saber. 

Romances como O Processo (Kafka), O Vermelho e o Negro (Stendhal), Incidente em Antares (Érico Veríssimo), foram obras que também fizeram a minha cabeça com os rastros de humanismo com que abordam a injustiça, a síndrome da ascensão social e das lutas políticas.

Livros desse calibre foram se transformando em leituras que chamavam a minha atenção não mais pela engenhosidade de um possível criminoso e sua captura por uma mente mais sagaz de um detetive, mas pelo despertar de problemas, subjetivos ou não, com que a arte da escrita lidava com as ações e os sentimentos humanos. Dos mais comezinhos aos mais profundos.

Estabelecer essa diferença, mesmo que intuitiva em princípio, se tornou possível pela leitura quase que em dose excessiva de contos os mais variados de países e culturas distintas.

E sobre tais contos propriamente ditos, duas obras em especial chamaram a minha atenção: ‘O Decameron’ de Boccacio e ‘49 contos de Tennessee Williams (Collected Stories), uma obra do século XIV e outra do século XX.  

O primeiro obteve uma belíssima e impactante versão cinematográfica feita pelo realizador italiano Pier Paolo Pasolini, onde a sensualidade de alguns contos ultrapassam os falsos valores de pretensa moralidade da época em que viveu o cineasta. 

O segundo, uma obra já editada da primeira para a segunda metade do século passado, talvez seja um dos melhores livros de contos que já li, onde a angústia e o sofrimento das relações humanas são narrados da mesma forma brilhante com que o autor criou duas de suas peças teatrais mais atormentadoras sobre a condição humana, “A Margem da Vida” (The Glass Menagerie) e “Um Bonde Chamado Desejo” (A Streetcar Named Desire). 

Os ’49 contos de Tennessee Williams’ (*) li há pouco mais de dez anos e confesso que, sem exceção, todos os contos me encantaram não só pelo tema que cada um deles apresenta, mas – sobretudo – pela elegância com que foram escritos, o cuidado em descrever cada personagem e o seu jeito de ser, cada pormenor do caráter dos principais personagens e do habitat em que viviam.

O conto O Retrato de uma Moça em Vidro (pág. 154) é o que dá origem ao texto da peça À Margem da Vida, até hoje um grande sucesso de público toda vez que é montada.

Tennessee Williams é, sem dúvida, um autor contemporâneo responsável por contos e peças que jamais esquecerei. Lembrar que ele teve ao seu lado na literatura norte americana nomes como Eugene O’Neil, Truman Capote, Arthur Miller, Gore Vidal e Edward Albee, entre outros, já não é pouco.

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(*) – Editado pela Cia. Das Letras.

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