Livros que não esqueço (XII), por Izaías Almada

Pessoa e seus heterônimos me perseguem há anos ou, expressando-me de maneira mais correta, eu os persigo há anos.

Livros que não esqueço (XII)

por Izaías Almada

Hoje vou escrever não propriamente sobre um livro, mas sobre um autor que não esqueço: o poeta português Fernando Pessoa. 

Pessoa e seus heterônimos me perseguem há anos ou, expressando-me de maneira mais correta, eu os persigo há anos. A rigor não me lembro em que época da minha vida comecei a ler a poesia de Fernando Pessoa, provavelmente durante o meu recolhimento forçado ao Presídio Tiradentes entre os anos de 1969 e 1971.

Lembro-me muito bem que um dos companheiros presos, o Francisco Luis Salles Gonçalves, Chicão, posto em liberdade algumas semanas antes da minha soltura, ao se despedir me deixou de presente um exemplar da obra completa de Pessoa, da Editora Aguilar.

E penso que não há melhor lugar para se ler Pessoa, sobretudo o heterônimo Álvaro de Campos, do que no sossego de uma cela. 

Diz um antigo provérbio árabe que “o que tem que ser tem muita força” e no segundo semestre do ano de 1971, um grupo de atores, entre eles João José Pompeu, Ariclê Perez, Jandira Martini, Luiz Raul Machado, o diretor Silney Siqueira, eu e o músico Murilo Alvarenga construímos um espetáculo sobre Fernando Pessoa e que teve boa acolhida pelo público que foi ao Teatro Ruth Escobar em São Paulo.

Para tanto, além de avançar minha pesquisa sobre Pessoa tive a oportunidade de ler a melhor biografia escrita sobre o poeta até aquele momento, a de João Gaspar Simões, escritor, dramaturgo e crítico literário português.

Após um intervalo para fazer o musical “O Homem de La Mancha” com Paulo Autran e Bibi Ferreira, vou para Portugal com a Cia de Ruth Escobar no início do ano de 1973.

Não sou particularmente crédulo em coincidências, mas – assim como as bruxas – que elas existem, existem. 

Em outubro daquele mesmo ano, após passar a temporada em Lisboa com a Cia de Ruth Escobar apresentando a peça “Cemitério de Automóveis” de Fernando Arrabal, conheço o futuro cineasta português Luís Filipe Rocha que, ao lado do realizador José Fonseca e Costa, trabalhou na filmagem do espetáculo. 

Finda a temporada Rocha e eu fomos para Paris e lá, durante todo o mês de novembro escrevemos o roteiro para um filme de curta metragem sobre Pessoa. Enviado a concurso, o roteiro foi aprovado e ao mesmo tempo censurado e, algumas cenas, pois ainda estávamos no Portugal salazarista de Marcelo Caetano. Não aceitamos a censura e o filme não foi feito.

Em fevereiro de 1974, de volta do périplo europeu, sou convidado a dirigir no Rio de Janeiro o mesmo espetáculo sobre Fernando Pessoa apresentado em São Paulo.

Dias antes de começarmos os ensaios, para minha surpresa, chega ao Rio de Janeiro o já agora grande amigo português Luís Filipe Rocha. Pacifista, Luís negou-se a combater em África, voou para o Brasil e se juntou ao nosso grupo que começava os ensaios da montagem carioca de Fernando Pessoa. Gentilmente, assumiu a função de assistente de realização. 

Juntos, conseguimos dar um clima de ‘café concerto’ ao espetáculo, muito bem aceito pelo público, mas duramente criticado pela elite da crítica teatral do Rio de Janeiro. “Desrespeito para com o grande poeta luso” assim disse um deles… 

Era um espetáculo de música e poesia e, tenho a certeza, se vivo fosse e aparecesse lá no Teatro Opinião, Pessoa teria cantado e dançado alguns de seus próprios versos com o elenco. 

Muitas vezes o crítico de uma obra artística confunde o conteúdo com os acessórios, a forma com o conteúdo, e fica falando sozinho.

Com a Revolução dos Cravos em 25 de abril de 1974, Luís voltou para Portugal e começou naquele mesmo ano a sua talentosa carreira de cineasta, já hoje com alguns prêmios internacionais, e por lá ficou, com um tempo vivido em Macau, na altura ainda possessão portuguesa no Oriente. 

Mas o meu contato com Fernando Pessoa não parou por aí. 

Na primeira década do século XXI, mais exatamente no ano de 2006, escrevi junto com Cristina Leal o roteiro “O Marinheiro das Nuvens”, uma divertida e fictícia aventura de Fernando Pessoa no Rio de Janeiro dos anos 20 na companhia de Carmen Miranda, Noel Rosa, Lamartine Babo, Wilson Batista e outros nomes da música e das noites cariocas.  

O produtor não conseguiu emplacar o projeto de coprodução com os portugueses e o roteiro e seus heterônimos ficaram até hoje à espera de encontrar algum produtor ousado para a realização de uma ideia bastante original na sua carpintaria.

Em 2006, a caminho de Madri, onde iria visitar meu filho caçula, fiz a viagem de ida e volta com escalas em Lisboa, nova oportunidade de jogar conversa fora com o Luís Rocha, ocasião em que fui por ele presenteado com a edição portuguesa daquela que talvez seja a mais completa biografia do poeta.

Escrita por Robert Bréchon, ensaísta francês já falecido, a obra “Estranho Estrangeiro” (*) traz um estudo minucioso e uma bem estruturada avaliação do autor da Ode Triumphal, contendo 650 páginas, e que exigem do leitor uma atenção monástica para melhor apreciar a qualidade de um poeta que soube tão bem juntar os nossos sentimentos mais íntimos com as palavras mais apropriadas para eles, expressando aquilo que no fundo, cada um de nós seres humanos somos, poetas e fingidores.  

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(*) Quetzal Editores/Lisboa/1996

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1 comentário

  1. Outro dia descobri, entre divertido e surpreso, que aquela música “João e Maria” do Chico Buarque e do Sivuca tinha uma outra letra muito anterior de autoria do pernambucano Ruy de Morais e Silva (muito boa por sinal) para a mesma melodia. O Chico não sabia na época. Recentemente me deparei com um Prólogo publicado em 1920 de onde extraí o trecho: “E digo que além daquilo que somos para Deus – se é que se chega a ser alguém para Deus – e do que se é para os outros e do que se acredita ser, há aquele que se quisera ser. E que este, que se deseja ser, é nele, em seu seio, o criador, e é o real de verdade. E por aquele que tenhamos desejado ser, não pelo que tenhamos sido, nos salvaremos ou perderemos. Deus premiará ou castigará fazendo com que se seja por toda a eternidade aquilo que se quis ser.”
    E pensei no Pessoa!
    De quem, aliás gosto muito de um soneto que começa assim (de ouvido): “When I do think my meanest line shall be/ More, in times use, than my creating whole (…) “

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