Loas a Sérgio Ricardo, por Walnice Nogueira Galvão

E era modesto,  avesso a surtos de narcisismo. Seu momento de maior notoriedade foi quando espatifou o violão, num festival, reagindo às vaias que seu “Beto bom de bola” recebia.

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Loas a Sérgio Ricardo

por Walnice Nogueira Galvão

Um grande artista, de múltiplos talentos. Seu forte era, é claro, a música, pois, pianista completo, também era compositor e cantor. Substituiu Tom Jobim no piano da boate Posto 5 em Copacabana, lá ficando  por longos anos. Foi ator galã por algum tempo, no cinema e na televisão. Dirigiu filmes, montou peças de teatro, gravou discos, escreveu livros,  pintou telas, desenhou uma animação. Esteve na linha de frente da efervescência cultural de seu tempo, na Bossa Nova e no Cinema Novo, no Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE e no Teatro de Arena. Fez a trilha sonora de Deus e o Diabo na terra do sol e de Terra em transe.  E foi Glauber Rocha quem o incentivou a abrir o peito e soltar a voz, livrando-se do trinado bossanovista que não dava conta de bradar  “Se entreeeeeeega, Corisco!”

Como se não bastasse, era cidadão consciente e militante de movimentos sociais, posição de que não arredou pé até à morte aos 88 anos. Orgulhava-se de sua condição de morador do morro do Vidigal. Foi uma das lideranças do movimento contra a remoção da favela nos anos 70, afinal vitorioso, sob a égide de Sobral Pinto. Seu longa-metragem Bandeira de retalhos (2017) historia essa luta.

E as canções, ah! as canções… “Zelão”, “Mundo velho sem porteira”,  “Perseguição”, “O nosso olhar”, “Ponto de partida”, “Calabouço” com seu refrão encantatório “cala a boca, moço”  – é só escolher…

E era modesto,  avesso a surtos de narcisismo. Seu momento de maior notoriedade foi quando espatifou o violão, num festival, reagindo às vaias que seu “Beto bom de bola” recebia. Mas aos poucos a mídia foi se desinteressando dele, quase não o mencionando mais, embora ele continuasse a produzir, e sempre em alto nível.  Ele nem batalhava por celebridade,  nem ganhar dinheiro era uma prioridade. Ateve-se ao circuito universitário e seus filmes  deixaram de ser lançados comercialmente. E assim foi sendo empurrado para as margens.

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Sua morte, ao que parece das sequelas do coronavirus, relançou o DVD Cinema na música de Sérgio Ricardo, último show, quando tinha já 86 anos. Resumo de trajetória, um telão exibe trechos das realizações, enquanto no palco as canções se sucedem. A banda inclui seus três filhos, Marina (diretora do show), Adriana e João Gurgel.

Outros artistas colaboram, assinalando o faro do descobridor de talentos.  Afora Dorí Caymmi, João Bosco, por ele levado para gravar o primeiro disco; Alceu Valença, lançado a seu convite no filme A noite do espantalho, que dirigiu; Geraldo Azevedo, outro estreante,  diretor musical e ator no mesmo filme. Dib Lutfi, seu irmão, brilhante câmera do Cinema Novo, cinegrafou esse e os demais filmes do mano. A noite do espantalho  representou o Brasil no Oscar de melhor filme estrangeiro.

E que mais?

Ainda não abordamos os livros, nem completamos os filmes. Entre estes, afora os supracitados,  mais Este mundo é meu, Juliana do amor perdido e vários curtas, entre os quais Menino da calça branca – sempre sem distribuição adequada. Entre as ilustres co-autorias, há até Carlos Drummond de Andrade, em a Estória de João-Joana, em show e CD, que suscitou uma comovida carta de agradecimento do poeta. Quanto aos livros, podem-se escolher os de poesia, de memórias, de escritos variados, até um para crianças. E data da maturidade uma série de exposições de pintura.

O show Cinema na música de Sérgio Ricardo termina apoteoticamente com a embolada desabusada “Vou renovar”, verdadeiro manifesto anti-saudosista.  Entre inumeráveis proezas, que incluem trilhas sonoras para filmes alheios e para telenovelas, divisa-se mais uma: suas obras parecem mudar de lugar e reaparecer onde menos se espera. Como ocorreu com a canção “Bichos da noite”, ressemantizada  no Bacurau – assim se chamam filme e cidade – premiado em Cannes, cantada por todos e criando atmosfera a partir da cena do funeral . Ele renova mesmo, como garante na embolada. Outro caso é o da belíssima canção Mundo velho sem porteira, que acabou cumprindo seu destino latente de moda de viola: não há dupla caipira que resista a entoá-la e gravá-la. Sem dúvida podemos aguardar mais surpresas.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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