Mamães felizes, crianças a cantar, por Rui Daher, Nestor & Pestana

Mamães felizes, crianças a cantar, por Rui Daher, Nestor & Pestana

Creio muitos conhecerem os repórteres do Blog do Rui Daher (BRD), os investigativos Nestor & Pestana, ultimamente trabalhando para Mark Zuckerberg, no Facebook, onde publicam o “N&P Diário”.

Não sei se as dificuldades financeiras do jovem Mark e o fora modismo no Brasil do velho Marx chegaram à dupla de solertes repórteres. Sei é que me procuraram um tanto desolados depois que confrontei procedimentos da Avianca com passageiros prioritários.

Não deixaram de citar minha abominável sisudez atualmente no BRD (o termo foi deles). Como outros, acham ter sido ordens superiores. Não concordei. Nada. Aqui, tenho toda a liberdade, além de meiga e amiga receptividade.

A gravidade do momento exige mesmo reflexões mais profundas, proposições ácidas, posicionamentos fortes. E como pedir luta a gente que, empregada, pega condução às quatro da madruga para trabalhar, ou, não empregada, uma hora antes para fazer um bico na Uber ou em semáforos?

Nem Brancaleone exigiria tanto de sua Armada.

Aleguei que até tenho entremeado algumas galhofas aos textos que protestam uma Federação de Corporações sem corpo, pé e cabeça. Claro que não posso me comparar aos demais escribas que ao GGN comparecem. Sou consciente de uma finitude com pouca expressão.

Foi quando fomos à galhofa amparados em uma garrafa de “Asa Branca”, recomendo a música e a cachaça.

Nestor, de chofre:

– Rui, nesses seus voos, como aguenta as crianças pequenas berrando, chorando, andando pra lá e pra cá?

– Pena de quem as leva. Sofrem mais do que eu. Insuportáveis os choros e quereres, as babas, e pais, avós, tios e tias, olhando a tudo aquilo impotentes, sabendo todos na cabine querendo esgoelar seus anjinhos.

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-E não fazem nada?

– Até fazem, Pestana. Uns incentivam outros ameaçam, de saco também cheio. Tentam distraí-los, ameaçam: “Olha, assim o avião vai cair”. É o pior. Diante de tal possibilidade até eu choraria.

– Triste. E não tem jeito, né?

– Creio que não. E toca comissário(a)s trazerem suquinhos, bolachinhas, balinhas, sacos plásticos para babas e vômitos, fones de ouvido que eles acabam por roer.

– Sempre assim?

– Pelo menos em minhas viagens. Parece ser geral. Amigo meu vai mais longe. Diz que crianças com essa idade não deveriam pisar em aviões.

– Deve ter um jeito.

– Caros, também não podemos proibir crianças de colo ou pequenas em aviões. Também tivemos filhos, outros têm netos, precisam viajar em férias, visitar vovozinhas em outros estados ou países, mudarem-se de malas, cuias e gaiolas. É assim no planeta todo.

– E se eles fossem obrigados a viajar no compartimento de bagagens?

– Tá louco?

– Não. Apenas uma ideia genial que tive agora.

– Sempre o genial Nestor.

– Você mesmo já nos confessou ser assim e os tantos que também se incomodam com a presença de crianças em viagens aéreas. Tem mais, muitos odeiam, mas não admitem, por medo de serem considerados incorretos, cruéis, preconceituosos, verdadeiros Herodes de tempos modernos.

– Mas sem exageros.

– Acho que fora do Brasil são mais educados. Os pais, principalmente.

– Isso, Pestana. Ou lá, no aeroporto, dão um comprimido de Dormonid.

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– Porra, Nestor.

O negro grisalho ri e continua:

– Pensa: crianças menores de 10 anos só poderiam viajar no compartimento das bagagens, com todo o conforto e segurança, aliás, os mesmos de quem vai na cabine.

– Enlouqueceu? Será preso. Já pensou a Lo Prete e o Camarotti, na Globo News, revirando os olhinhos e dizendo isso é coisa do PT, crueldade, nem com os animais domésticos se faz mais isso.

– Calma, Rui. Claro que pensei nisso. O projeto vai além.

– Imagino. Alimentação apenas vegetal e óleo de rícino.

– Cara, amo as crianças, mas não em cabines de aeronaves. Já viajei muito com a bateria da Vai-Vai. Esqueceu?

– Bêbado, nem ficou sabendo que tinha crianças no avião.

– Pestana, ouça-me por um minuto: a ideia é instalar nos compartimentos de bagagens o mais moderno e aparelhado playground para eles. Iriam acompanhados por comissário(a)s, formados em psicologia infantil e treinados em representação como aquela excelente trupe que visita hospitais de crianças enfermas. Sofreriam menos do que sem porra nenhuma a fazer, os pais estariam sossegados e, nós, passageiros também.

– E a temperatura? Sabe que o compartimento de bagagens é muito frio.

– Uai, pelo preço que cobram, poderiam climatizar o ambiente entre 22 e 25 graus. Muitos pais até pagariam um pouco mais para não ter que aguentar o incômodo de controlar a petizada e o olhar reprovador dos demais passageiros.

– Pensando bem, a ideia não é assim tão abominável. Eles já começariam a se divertir no check-in sendo pesados e seguir brincando naquelas esteiras rolantes.

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– Tá vendo, Rui, como era só prestar um pouco atenção em minha criatividade. E tem muito mais. Musiquinhas infantis, cirandas, o frequente Toquinho e Vinícius com sua “Aquarela”, uma espécie de Virada Cultural nos céus do planeta.

– Um problema: e os muito pequenos, os de colo, geralmente aqueles em maior número.

– Pestana, esses, ainda não entendem porra nenhuma. Um chiqueirinho bastaria para uni-los, entre chocalhos, mobiles de pássaros na forma de aviõezinhos, chupetas intercambiáveis.

– Banheiros?

– Fraldário. Não serão piores do que os lavatórios que nos oferecem nas cabines.

– Classes diferenciadas?

– Jeito nenhum. Vamos começar a ensina-los desde crianças um mundo menos injusto.

– Meus caros, o BRD vai encampar a ideia. Vamos detalhar o projeto e mandar para Boeing, Airbus, Bombardier, Embraer, e mesmo as menores, tudo será proporcional ao tamanho da aeronave e de quantos passageiros podem levar.

– Rui, você trouxe apenas uma garrafa de “Asa Branca”, de Petrolina? 

– Com o Baden? Aí embaixo.

 

 

 

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4 comentários

  1. Caro camarada

    Crianças, cirandas e o re-encantamento do mundo

    Há muito pouco tempo, por obra do acaso, vi um movimento numa pracinha perto do lugar por onde caminhava.

    Não sabia do que se tratava e desconhecia as pessoas.

    Vi criancinhas descalças, no chão de terra, branquinhas, pretinhas, vermelhinhas, de mão dadas, brincando de roda. As mulheres, enquanto não tiravam os olhos dessas que brincavam, teciam singelas e graciosas bonecas de pano, rodeadas por vários garotinhas e garotinhos.

    Só aí fui me dando conta de quem era esse povo e essa gente.

    Na barraca maior e central, dois violeiros cantavam músicas da terra.

    Na outra, ao lado direito, jovens encenavam Guimarães Rosa.

    Uma jovem com microfone dizia poesias e convidava para o slam (só muito depois soube do que se tratava)

    Todos extremamente educados.

    O compaqnheiro Rui deve ter muitas histórias sobre o povo brasileiro sob o manto do MST.

    Este é um lindo vídeo do povo em Brasília no dia mais triste da nossa história:

    [video:https://youtu.be/1IagAiOK9go%5D

    A Fraternidade é Vermelha.

    Abraço.

     

     

    • Serjão,

      claro que, de minha parte, foi uma ficção de hunos, diria, até bem comportada. As situações relatadas por você são constantes. em São Paulo, e em minhas andanças. Mais: meu filho mais novo trabaçha como arte-educador em Paraisópolis, projetos sociais do Einstein e do Caritas. Todos os dias vejo o seu trabalho como vermelha é a liberdade.

      Grande abraço

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