Marília no país do futuro, por Jean D. Soares

Tive daquelas impressões de raridade no meio da música popular. Era uma mulher tornando as mulheres algo mais do que o objeto de uma relação. Ela cantava agora também como sujeito, com voz e conceitos na canção.

Dvulgação

Marília no país do futuro

por Jean D. Soares

Subia a rua Turquesa de táxi, voltando pra casa com minha companheira e minha filha. O rádio tocava uma voz bonita, brilhante e arrendondada. A canção soava ao mesmo tempo emancipatória e popular, fazia um tipo de revolução de entrelinhas: todo mundo canta, sem perceber o encanto da mudança que aqueles versos continham. Seria uma sereia? Pelo sucesso, certamente, estava no rádio. Mas havia algo mais do que só o comércio musical de sempre.

            Tive daquelas impressões de raridade no meio da música popular. Era uma mulher tornando as mulheres algo mais do que o objeto de uma relação. Ela cantava agora também como sujeito, com voz e conceitos na canção. Pensei, comentei com uma das flores ao meu lado, e ficou por isso. Era mais um fim de dia e mais uma canção no rádio. Guardei no pensário a ideia, mas não fui procurar a fonte.

            Andando de metrô em BH para o ensaio, com o contrabaixo entre as pernas, achava graça naquelas propagandas de concertos no Mineirão – “As patroas”. O nome era um achado e devia ser daquelas coisas superpopulares de encher estádio e fazer todo mundo cantar a plenos pulmões. Lia aqueles nomes todos com êmes, pensava na riqueza e na potência das aliterações e tocava minha vida. Nunca pesquisei, busquei saber mais, escutar. Olhava para tudo aquilo como quem vê um pôr do sol: distante.

            Quando ia para a ilustre São Domingos do Prata, escutava sem saber quem eram aquelas vozes femininas que eu queria não ouvir. Interessava-me a sinfonia dos campos, os coaxares, os piares, os mugidos, os estridulares; aquelas músicas de poucos minutos tocadas em alto-falantes distorcidos exigiam imediatamente que o meu ouvido desfocasse, escutasse outra coisa no meio daquilo tudo para me distrair. Não julgava ninguém mal, e peço que não me julguem, mas eu sentia um pouco o oposto de minha irmã quando esses sertanejos modernos tocavam.

            Acho que ela ainda hoje reclamaria de minhas músicas instrumentais: “– Afinal, quando começam a cantar?” – certa vez perguntou com uma sincera ironia. Acho que inconscientemente eu me perguntava quando aquelas vozes parariam de cantar. Elas eram ininterruptas, e digo isso como uma constatação de um estado de coisas mais do que um juízo de valor. Soava um estridular.

            Constato isso para dizer por que não conseguia escutar de fato a revolução que se passava ali para as mulheres. Tenho a impressão de que minha irmã adora essas mulheres, mas confesso que nunca parei para conversar com ela sobre isso com calma. E agora estou momentaneamente longe demais.

            Então, resolvi escrever também como uma forma de reconhecimento à mulherada femineja. O sentimento geral de perda me vez voltar àquela ideia guardada no pensário. Elas talvez tenham feito pelas mulheres do Brasil algo em escala semelhante a Maria da Penha. Alguém pode me acusar (corretamente?!) de exagero, mas ouso a comparação. Sei que se Maria da Penha foi responsável ainda que indiretamente por dar proteção legal à mulherada, o feito de Marília Mendonça e suas companheiras feminejas dá um passo simbólico em frente: não só protege com lei, mas emancipa práticas.

            O fato é que com elas se pôde finalmente falar com franqueza e liberdade sobre temas tabus, sem necessariamente estar em uma bolha social muito restrita, ou seja, poder falar abertamente sobre o desejo feminino em suas formas as mais plurais, em primeira pessoa, no rádio, para milhões de pessoas, sem as censuras usuais do machismo.

            É claro que há ainda toda uma sensualidade que pode ser vista por alguns como vulgar e há também uma afirmação de tipos de relações majoritárias, mas novas formas da sexualidade feminina ganharam espaço simbólico, especialmente na voz de Marília. E não quero aqui ser o profeta da obra pronta. Escrevo por reconhecimento intelectual. Lembro os eufemismos de uma geração anterior de mulheres que mandavam os homens “irem com Deus”, agora efetivamente abandonados. O que Nietzsche diria nessas horas em que somem os eufemismos, eu não vou dizer agora, mas não é difícil chegar no momento em que se apagam as luzes e a mulher manda o homem ir para a…

            Ou melhor, este é o momento em que as mulheres se emancipam sem precisar apelar para um sentido ético mais amplo ou mesmo para um suposto destino do Outro. Com Marília, elas podem se assumir ativas, bêbadas, com amantes. O amor é franco, carnal, direto, ciumento, alcoólico até. A verdade emerge do amor, sem filtros, sem deus ou moral da história. É a mulher emancipando-se no mundo desencantado, e certamente daí vem o motivo da comoção geral.

            Muitos homens, inclusive, reconhecem nas letras delas um alívio, uma possibilidade de se situar em novos lugares da relação, interditos pelo machismo. Não surpreende assim o tom de unanimidade nas homenagens. Na sinceridade de seus gestos, ela mostra escutar a mulher brasileira em todos os cantos, mostra escutar outras formas de amar e de sofrer. E as vozes do público, aos berros, em catarse plena, mostram a visceralidade de suas canções. Canta-se como num ritual de expurgo profano. Os sentimentos sem penitência, sem necessidade de confissão no escurinho da catedral, ali na praça de uma capital qualquer do país.

            Marília me faz lembrar de um país esquecido, naqueles tempos em que aprendemos a sonhar. Outra vez retorna o motivo dos dias atuais: o país do futuro parece que vai ficando no passado, morrendo aos poucos nas mãos de gente estúpida e hipócrita, que empareda a coragem de dizer que “ele não”. Esse país viverá em vozes como a de Marília e de seu público. E eu hoje consigo escutá-la de coração leve, ouvido aberto, como se pudesse finalmente entender um pouco melhor o modo de amar e sofrer de mulheres como a minha irmã. Consegui tomar o chá de “real feminismo” que ela oferece para entrar no país do futuro que ela cantou. Quem sabe esse país, ou melhor, no feminino, essa nação não retorna sincera, catártica, amável e justa como Marília é. Sim, Marília como Marielle, essas novas Marias cheias de dom seguirão presentes. Marília não era musa da inconfidência. Talvez cometa outro exagero, mas há algo comparável em sua atitude poética com a de Vinícius de Moraes, a saber, uma franqueza diante do sofrer e do amar. E ela continuará como estrela a iluminar o caminho. Muitas estrelas hão de aparecer na manhã de novos amores.

Jean D. Soares é doutor em filosofia, músico e agricultor nas horas mais frescas.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

1 Comentário

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AMBAR

- 2021-11-08 15:10:19

O homem não quer escutar o que a mulher quer dizer nem mesmo quando ela diz que o ama. Por que? Porque o homem prefere ser temido a ser amado. Como ele optou pelo poder, somente é capaz de ouvir a própria voz. Só ele tem direitos. Os demais, obrigações. À mulher, a obrigação de amar em silêncio; ao homem, o direito de dizer que ama. Talvez por isso a voz de Marília tenha soado como um zunido incômodo ao homem comum, abandonado, infiel, bêbado, desabrigado ou impotente. Ele jamais admitiria que uma mulher, qualquer mulher, especialmente a dele, dissesse isso em voz alta. Nenhum homem se admite vítima em qualquer relacionamento, embora as estatísticas dêem conta de que 70% dos pedidos de divórcio são de iniciativa da mulher. https://veja.abril.com.br/ciencia/mulheres-pedem-mais-o-divorcio-do-que-homens/

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