Marília, por Rui Daher

Entrarei em severa penitência. Como pude desconhecê-la? Nunca soube de sua existência e do quanto fazia pela cultura musical brasileira, fenômeno atestado por milhões de adeptos e seguidores.

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Marília

por Rui Daher

Aguardei 10 dias para comentar a queda do avião que matou a cantora goiana Marília Mendonça e mais quatro pessoas. Dada a comoção dos primeiros dias, sabia que todos os detalhes do acidente, as virtudes da artista, os lamentos de familiares e fãs e, dada sua proeminência pública, tudo teria chegado aos leitores.

Entrarei em severa penitência. Como pude desconhecê-la? Nunca soube de sua existência e do quanto fazia pela cultura musical brasileira, fenômeno atestado por milhões de adeptos e seguidores.

Minto. Talvez houvesse ouvido Marília e suas canções fluindo de algum desses potentes alto-falantes instalados em estabelecimentos comerciais que frequento quando nas beiradas do sertão. Nunca, no entanto, liguei som à pessoa. Muito provável preconceito de inveterado seguidor das pérolas da produção cultural brasileira.

Durante o período pós-falecimento, o massacre em folhas e telas cotidianas expondo “Marília Mendonça, Vida e Morte” me colocou em contato com a “Rainha da Sofrência”, criadora do subgênero “Feminejo” (música sertaneja cantada por mulheres), e meritória criadora de neologismos.

Se ainda valer, peço desculpas à moça nascida em Cristianópolis, Goiás, estado brasileiro que, em matéria de produções musicais sertanejas, rivaliza com acidentes fluviais no Pará e ferroviários na Índia.

Reconheço minha irascibilidade atual, castelos de fezes construídos pelos atos do insano presidente da República, e por recente acidente pessoal que paralisa minha outrora força física de Maciste e literária de Machado (da série Fakes do BRD).

Ao conhecer a obra musical de Marília Mendonça, sua simpatia e voz potente, não pude evitar perguntar-me: então é isso que o povo brasileiro gosta e quer?

Década atrás de décadanão soube decifrar ser essa a verdadeira defesa da dignidade das mulheres aferroadas pelo machismo nacional. Imaginem o pecado que cometi quando sorri com uma galhofa do execrável Fernando Collor: espingarda de dois canos é boa para exterminar duplas sertanejas.

Pois bem, a produção musical de Marília Mendonça e congêneres é o que mais execro na música popular brasileira. Desde que surgiram o neosertanejo, universitário, seja lá o termo que preferirem, percebi infantes mediocrizarem as modas regionais de raiz, em diversidades curiosas, identificadas com a natureza, fauna e flora, que ainda nos salva, mas com tempo marcado para a extinção.

Quer dizer que para defender direitos e criticar assaques feitos contra as mulheres é necessário sublinhar “encontros em motéis … chamar para o colchão homem que [naquele dia] preferiu o sofá … traições … agora quer de novo a minha cama … de novo passa lá em casa tira a minha roupa … vai fazer papel de bobo outra vez … de mulher pra mulher, supera”.

Não irei além. O cancioneiro brasileiro é farto em relatá-los. Abandonos, chifres, entregas ao alcoolismo, confrontos, suicídios, sofrimentos, prantos lancinantes, proliferaram logo depois que Donga e Mauro de Almeida, lançaram “Pelo Telefone” (1916).

“Tomara que tu apanhes pra não fazer isso, tirar os amores dos outros e depois fazer feitiço”. Músicas e letras de soberba inspiração e bom-gosto, o mesmo que o “Novo Anormal Sertanejo” não despeja.

Hoje em dia, no entanto, temos uma rainha ou mais, que através de suas músicas, denunciam o machismo e, independente do gênero são feitas sucesso.

É isso ou a estridência do mau gosto que hoje se espraia pelo Brasil e deságua em cantores, cantoras, duplas, trios, que através de suas canções fazem repetir as sequências mais “apimentadas” das chanchadas do cinema brasileiro do século passado, em cine-poeiras de São Paulo.

Ambos fizeram bilheteria, como fez Marília Mendonça.

Inté!       

Nota: decidiranão escrever sobre a tragédia que viti mou Marília. Açulou-me texto de J. H. Mariante, “Prazer, Marília Mendonça”, FSP, 14/11.

Dedica sua ira à mídia, inclusive ao jornal onde escreve, por não ter antecipado tal fenômeno recôndito no ideário cultural brasileiro, sob argumento de que “nossos gostos se limitam aos daqueles com quem convivemos (…)a verdade é que o Brasil não é só litoral”.

Não é mesmo. Erra o articulista ou não teve a felicidade, como eu, de viajar as regiões Norte e Nordeste e conhecer seu verdadeiro folclore em música e literatura.

Hoje em dia, quando o faço – e continuo a fazê-lo – em qualquer povoado, se paro ou sou convidado a comer rins de bodes e tomar uma cachaça Caribé, o que ouço? Marília Mendonça e sucedâneos, importados das ondas dos mares goianos.

Nem sequer um frevinho de Alceu Valença, um auto de Suassuna, galopados, desafios do cordel, Patativa do Assaré.

Marília Mendonça sim, mas talvez não a tenha percebido. Desculpa, moça.

Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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7 comentários

  1. Se for possível. Cabe a insistência. Marilia Mendonça é o Brasil que não se conhece devido ao Revisionismo Histórico AntiNacionalista destas 9 décadas. É a Empregada Doméstica com dinheiro para comprar um disco. Que virou CD, que virou DVD, que virou…É o Sertanejo, é o Brega, é o Brasileiro. É Magazine Luiza assombrando do Interior rumo às Capitais. Marilia Mendonça são estes novos tempos. É o Brasil visto pelos Brasileiros. É a AgroPecuária. É a Liberdade. É este novo projeto político construído na realidade das vontades nacionais, traduzidas por ruas lotadas. Marilia Mendonça é Agro, é tech, é pop, é tudo. É o Sertanejo Universitário que não quer comprar o Imperialismo, o Americanismo, também Cultural, que chega junto com Ditadura Caudilha Esquerdopata Fascista em 1930. É o Brasil que quer Dolly, Guaraná, Tubaína e não Coca Cola.

  2. A morte é um fenômeno curioso. Ela é capaz de tornar o braço cultural do agronegócio em fenômeno da cultura popular. Os escritórios responsáveis pelas letras, que estrategicamente a vendem muitas vezes até o direito da assinatura, viram os projetistas de toda uma forma social que é tão popular quanto falsa. Curiosamente, a matéria achincalhada do escriba da Folha, lida com a habilidade semântica infantojuvenil dos identitários (e nesse balaio temos doutores e desocupados twitteiros), foi o texto mais honesto e elogioso – uma vez que falsidade e elogios não combinam.

    A verdadeira e única tragédia é do filho. Ninguém merece perder a mãe tão jovem. Assim como perder a formação do seu filho é das coisas mais lamentáveis que pode existir.

    Musicalmente o significado é nulo. Novas manifestações industriais supostamente populares serão produzidas e todos ficarão satisfeitos.

  3. “…Que bom…” Rui Daher, que está de volta. O Cardápio atual nem rotulo como Sertanejo. E tenho também muito mais criticas que elogios. Mas é sim, este Brasil de Goiania, de Pouso Alegre, de Porto Nacional, de Poconé, de Pacaraima, de Eldorado,…de onde vem os Brasileiros omitidos por décadas. Abraços.

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