Memória emotiva II, por Izaías Almada

Nesses quarenta anos se deram duas guerras mundiais, uma revolução na Rússia, uma guerra civil na Espanha, uma longa marcha na China, a depressão norte americana e a revolução industrial no Brasil. A História do século em que nasci ganhou novo ritmo.

 Memória emotiva II (*)

 por Izaías Almada

Nascemos os dois em terras brasileiras das Minas Gerais, terras carregadas pelos anos afora de uma severa colonização portuguesa, como sabeis. E aonde o mar nunca chegou. Quis Deus dessa maneira que, como parte integrante de um povo em formação, nós mineiros –  como viemos a ser designados –tivéssemos origem nesse paradoxo cultural e geográfico. Do mar recebemos e a ele não chegamos.

Terra onde muitos dos seus pequenos rios secaram,  desviados que foram do seu curso natural pela ação dos faiscadores de ouro. E onde a escravatura foi exercida com mão de ferro. Mas são também as mesmas Minas Gerais de Thomaz Antonio Gonzaga, Guimarães Rosa e de Carlos Drummond de Andrade, do canto triste e alongado dos carros de boi carregados de milho e cana de açúcar, do recato das modinhas cantadas em serenatas. Aí nascemos, eu e meu pai, com a diferença de quarenta anos, concebido que fui dez anos após o casamento.

Nesses quarenta anos se deram duas guerras mundiais, uma revolução na Rússia, uma guerra civil na Espanha, uma longa marcha na China, a depressão norte americana e a revolução industrial no Brasil. A História do século em que nasci ganhou novo ritmo.

Meu pai Arthur, com seu nome de rei bretão, nasceu e se criou nos duros sertões de Minas Gerais entre pastos, serpentes e canaviais. A necessidade do trabalho prematuro impediu-o de completar a escola primária. Um forte, contudo. Eu, mais frágil e já nascido em meio às facilidades da capital, com suas águas encanadas e bondes elétricos, frequentei escolas metodistas e batistas, graças às bolsas de estudos que ele conseguia.

Duas épocas, dois homens, duas maneiras distintas de ver e pensar o mundo. Com o passar dos anos, entretanto, a religião criou para mim e para meu pai um paradoxo: embora o transformando no cavalheiro semialfabetizado que foi, fragilizou-o na rudeza do dia a dia, enquanto para mim – fugindo à própria influência do exemplo paterno, por teimosia e revolta que fosse – criou uma armadura protetora contra aquilo a que os protestantes chamam de os percalços da vida adulta ou, apenas, de vida pecaminosa. Dessa mesma vida, enfim, que haveria de cruzar em direções opostas os destinos de pai e filho.

Durante quinze anos, sob pena de ver arder minh’alma nos fogos danados do inferno, ia sendo obrigado em todos os domingos a frequentar os cultos matutinos e vespertinos da Igreja Metodista. E conquanto possa eu hoje dizer que era uma obrigação imposta pela sincera e devota religiosidade de meus pais, não me ressentia nem um pouco dessa obrigação, pois era através desses domingos de convívio espiritual que costumava esquecer o ambiente pobre da minha casa, a doença da minha mãe e as ausências do meu pai, motivadas por seu trabalho na policial estadual.

Não sei se concordareis comigo, mas é espantosa – às vezes – a propensão que temos para ignorar o óbvio. Enquanto vendeu sua força de trabalho ao governo, meu pai foi um abnegado policial protestante num país de formação católica. Um país onde analfabetismo e ignorância se constituíram em privilégios dos negros e pobres, bem como seu acesso às religiões fora do catolicismo, mas cuja riqueza terrena e material – a esses sempre prometida como recompensa numa outra vida – é defendida a ferro, cruz e fogo pelos donos católicos das terras e seus guardiães policiais. Meu pai, contudo, jamais percebeu essa contradição.

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(*) – Conto do meu livro “Memórias Emotivas” / Ed; Mania de Livro.

                                                         (CONTINUA)

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro. Nascido em BH, em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

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