Minhas aventuras no teatro (IV), por Izaías Almada

“O Inspetor Geral” de Nicolai Gogol foi o meu segundo trabalho no Arena, também dirigido por Augusto Boal.

Fauze Arap, Danilo Greguol e Eloy Araujo em “O Inspetor Geral” (1966) Foto de Dirceu Vieira Leme

Minhas aventuras no teatro (IV)

por Izaías Almada

“O Inspetor Geral” de Nicolai Gogol foi o meu segundo trabalho no Arena, também dirigido por Augusto Boal.

No livro editado pela Brasiliense com o texto da peça, na sua coleção sobre Teatro Universal, Boal, entre outras considerações, escreve o seguinte: “Cada peça adquire, em cada momento histórico e em cada encenação, uma de suas múltiplas valências. (,,,) Esta peça de Gogol exige a resposta prévia a certas questões fundamentais, tornadas ambíguas pela carência de informações mais precisas, ou pela estrutura mesma através da qual se move o drama.”

E como que adivinhando o que viria acontecer no Brasil cinquenta anos depois, acrescenta: “Estamos diante de ladrões, corruptos, gente cruel, mesquinha… Gente habituada aos seus hábitos. São hábitos e, portanto, nada têm de monstruosos, se vistos segundo a perspectiva dos habituados. Os costumes monstruosos de certos povos só são monstruosos porque são de outros povos. Os monstros não se reconhecem monstros: e não o são, vistos por si mesmos, entre si mesmos…”

Sublinho a frase por ver nela a representação precisa do Brasil de 2020, onde vários monstros andam à solta na desconstrução de um país, fantasiados de salvadores da pátria contra o comunismo e a corrupção. São monstros, claro, e não se reconhecem como tal.

Nessa minha segunda experiência como ator profissional destaco dois aprendizados: 1 – o método que Boal aplicava no trabalho dos atores, tentando organizar e dar forma às teorias de Brecht e Stanislavsky; 2 – a oportunidade de trabalhar ao lado de Gianfrancesco Guarnieri, Myriam Muniz e Fauzi Arap, três dos grandes intérpretes do teatro brasileiro da segunda metade do século XX. Sinto-me até hoje honrado por ter estado ao lado deles naquela ocasião.

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Repito aqui o que já disse em algumas palestras: eu não tinha a intenção de ser ator, mas sabia que o exercício prático da interpretação me daria algumas armas e suporte para o exercício da direção de uma peça. Não fui bom ator e como diretor/realizador fiz alguns poucos trabalhos, um deles em Portugal, após ver a minha vida mudar de rumo, o que pretendo contar em artigos mais à frente sobre as minhas aventuras na política.

Transcrevo algumas linhas do meu livro “Teatro de Arena: uma estética de resistência”. (*)

“Bem recebido pelo público e pela maioria dos críticos, ainda assim O Inspetor Geral não obteve o sucesso que dele se esperava. E, no meu caso, vaio apenas confirmar que a minha verdadeira vocação não era ser ator, muito embora – por necessidade e por acreditar em alguns poucos elogios e estímulos – eu ainda viesse a fazer várias peças como ator até o ano de 1974. Como curiosidade, cito o que disse o crítico Paulo Mendonça, meu professor na EAD, sobre a minha atuação cênica na peça: Izaías Almada, completamente deslocado, deixa no ar a figura do diretor dos Correios”. Continuamos amigos até sua morte no ano de 2008.

No ano seguinte, 1967, o Teatro de Arena estreou outra grande peça do seu repertório: “Arena Conta Tiradentes”. Nela não trabalhei como ator, pois consegui acertar com Boal e Guarnieri um compromisso de dirigir uma peça dentro do Núcleo 2 da Companhia. O Núcleo 2 tinha por finalidade encontrar novos talentos que quisessem trabalhar com o grupo.

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Fui incumbido de reorganizar o Núcleo 2, desativado por algum tempo e, entre finais de 1966 e durante o ano de 1967, conseguimos montar três espetáculos: “O Processo”, de Franz Kafka com direção de Leo Lopes, já falecido; “A Farsa do Cangaceiro com Truco e Padre”, de Chico de Assis, direção de Afonso Gentil, companheiro que se formou na EAD e “Escola de Mulheres” de Molière, dirigida por mim.

O ano de 1968, o ano que não terminou nas palavras do escritor e jornalista Zuenir Ventura, se tornou o ponto de inflexão na minha vida e não só, pois sem qualquer exagero, pode-se dizer que foi o ano que não terminou para milhares e milhares de brasileiros, marcados que foram pela opção política de pegar em armas para lutar contra a ditadura, mas isto já é outra história. Continuemos com o teatro.

(*) – Editora Boitempo

(CONTINUA)

 

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