Minhas aventuras no teatro (VII), por Izaías Almada

Duas peças em que participei como ator, o musical “O Homem de La Mancha” e a montagem de “Cemitério de Automóveis”, devolveram-me uma enorme alegria de viver para continuar lutando por justiça social

Minhas aventuras no teatro (VII)

por Izaías Almada

Ainda não totalmente refeito das minhas “férias forçadas”, boa parte delas passada no “hotel”, digo, Presídio Tiradentes, além dos “spas” da Rua Tutóia e do Largo do General Osório, hoje Memorial da Resistência, tenho a mais absoluta certeza ter sido o teatro e a sua prática ininterrupta por bons e saudosos quatro anos, um dos fatores – senão o principal deles – da minha recuperação física e psicológica para recomeçar a vida com renovada esperança.

Duas peças em que participei como ator, o musical “O Homem de La Mancha” e a montagem de “Cemitério de Automóveis”, produzida por Ruth Escobar para ser apresentada em Portugal devolveram-me, em muitos aspectos, uma enorme alegria de viver e poder continuar acreditando e lutando por ideias de justiça social, solidariedade e diretos humanos, esses palavrões que os incompetentes e os renitentes fascistas do mundo contemporâneo têm procurado calar com mentiras, violências, injustiças e desprezo pela maioria da população mundial.

Foi preciso uma pandemia para tornar isso visível… E ainda assim há muitos que não perceberam o abismo à frente.

Mas voltemos ao teatro: A estrutura dramático/musical de “O Homem de La Mancha” sustenta-se numa narrativa original e cativante: o autor, Dale Wasserman, escritor e dramaturgo norte americano já falecido, mostra Miguel de Cervantes, o criador de Dom Quixote, sendo conduzido a uma prisão da Inquisição.

Já na cela, ao lado de outros prisioneiros, conta a história de Dom Quixote e suas aventuras e seus sonhos impossíveis, fazendo com que seus companheiros de masmorra interpretem e vivam os personagens a que vai dando vida.

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Amparado pelas canções e pelas coreografias, como pede a tradição dos musicais feitos na Broadway, os prisioneiros vão aos poucos percebendo o jogo proposto pelo inesperado visitante e se transformam em novas pessoas, cumprindo os objetivos de uma dramaturgia que mostra a possibilidade de mudanças sociais através de novas ideias.

A direção de Flávio Rangel, a coreografia de Fernando Azevedo e a orquestra conduzida por Murilo Alvarenga davam alegria e encantamento às canções e danças, permitindo que a peça prendesse a atenção da plateia do primeiro ao último minuto.

Fazendo e não apenas vendo, pude perceber a grande diferença, não só formal, entre o teatro feito em Arena e o teatro tradicional feito no chamado palco italiano. Mais do que isso, pois não é o formato de palco ou o tipo de encenação que dá vida e força a uma peça, mas sim o que ela tem a dizer. O que muitas vezes não é entendido nem por que faz teatro ou por quem o assiste.

O palco italiano, a arena, a rua ou qualquer outro espaço que sirva a uma representação teatral tem, creio que assim  posso dizer, o mesmo significado que uma folha de papel ou a tela do computador têm para um escritor, pois recebem qualquer conteúdo: seja de uma ideia pusilânime a uma atitude transformadora, de um panfleto autodestrutivo a um hino â liberdade, à diversidade e respeito aos direitos humanos.

A excelente tradução da música “The impossible dream”, (Mitch Leigh e Joe Darion), feita por Chico Buarque e Ruy Guerra resume com sensibilidade a necessidade que o homem tem de sonhar e viver suas utopias, escopo da narrativa dramática da primeira montagem no Brasil de “O Homem de La Mancha”, dirigida por Flávio Rangel.

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Ainda vivendo a ditadura civil/militar era preciso sonhar mais um sonho impossível. Esse sonho, para todos que fizeram o espetáculo, começou no Teatro Municipal de Santo André em 1972 e só terminou no Teatro João Caetano no Rio de Janeiro em 1974, depois de passar pelo teatro Anchieta em São Paulo e inaugurar o Teatro Manchete no Rio de Janeiro.

Sobre a encenação propriamente dita, deixo minhas memórias para a próxima crônica.

(CONTINUA)

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3 comentários

  1. uuuuuuuuuuuuuuuuufa!!!eu perco ofôlego com suas memorias bemnarradas e que me remetem às peças de teatro e como os atores eram dignos etalentosos….como dizze a Fernanda Montenegro o Teatro é avida de muitos atores….pena que hoje pra conseguir lotar um teatrohaja a necessidade de ter no elenco um ou dois atores de novelas…que têm umahistora absolutamente diferente dos atores e atrizes do teatro italiano,de arena…de praças de colegios enfim de onde for possivel exercer a qualidade de atores de teatro!!!Salve Isaias almada….

  2. Izaias almada narra a vida e ahistoria do Brasil recente através de cua vida no teatros brasileiros quem não leu não saberá o que aconteceu

  3. Grato, Luiz , pelas suas amáveis palavras, mas como já disse um filósofo, lembrar é resistir. Escreverei também sobre a publicidade e o nosso bom tempo de MCCann-Erickson

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