Minhas aventuras no teatro (VIII), por Izaías Almada

Mais aventuras de Izaías. Aqui, uma nova narrativa envolvendo o musical “O Homem de La Mancha”.

Roberto Azevedo, Bernadette Figueiredo e Paulo Autran em ‘O Homem de La Mancha’ (1972)

Minhas aventuras no teatro (VIII)

por Izaías Almada

Foi em “O Homem de La Mancha” (1972) que pude conhecer melhor o diretor Flávio Rangel, de quem já tinha visto grandes montagens como “Amadeus” (Peter Shaffer), “Depois da Queda” (Arthur Miller) “Liberdade, Liberdade” (Millor Fernandes), “Abelardo e Heloísa” (Ronald Millar) e tantas outras feitas por esse incansável batalhador do teatro brasileiro.

Grande cultura, sarcástico, nariz arrebitado, não fazia amizades à primeira vista. Dele, contaram-me uma história saborosa: uma noite, numa das mesas do restaurante Giggeto, frequentado nos anos 60 pelo pessoal do teatro, viu entrar um desses “amigos íntimos” que dá palpites em qualquer assunto, sabe tudo, figurinha difícil.

Olhando na direção do rapaz, comentou com os colegas à sua volta: “acaba de entrar no Giggeto um homem que se pode considerar um dos extremos do conhecimento e do saber humano”. Ao verem de quem se tratava, alguns olhares voltaram-se para Flávio Rangel com ar interrogativo e surpreso com aquela afirmação.

Flávio, num gesto teatral e após pequena pausa de suspense, emendou: “No outro extremo está Immanuel Kant”. A gargalhada foi geral.

Nos ensaios do musical eu observava o seu jeito de trabalhar. Entre calmo e irritado, situação natural que envolve o processo de criação artística, observava com atenção os pormenores de uma encenação que deveria, por contrato, seguir o modelo apresentado na Broadway.

Confesso que não sei se ainda é costume, mas os musicais importados da Broadway deveriam obedecer rigorosamente os cenários, os figurinos e até as marcações de cena dos espetáculos apresentados originalmente nos palcos novaiorquinos.

A peça fez sua estreia no belíssimo Teatro Municipal de Santo André em agosto de 1972, cidade onde o ator Antonio Petrin iniciou sua carreira. Um mês e tal de ensaios, sobretudo a parte musical, pois a movimentação das atrizes e atores em cena não era das mais complicadas. Em certos aspectos, o coreógrafo Fernando Azevedo, que havia participado na montagem mexicana da peça, trabalhou mais que o diretor.

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Nos dez dias que antecederam a estreia éramos 40 pessoas a ensaiar entre músicos, bailarinos, atores e diretor, onde a animação crescia à medida que tudo ia se ajustando na pintura do quadro que contava e cantava as aventuras de Quixote e Sancho Pança pelas estradas e tavernas espanholas.

No palco cruzavam-se a experiência de Bibi Ferreira, Paulo Autran, Benedito Corsi e Dante Rui (no Rio substituído por Grande Otelo) com alguns talentos que começavam a marcar seu caminho no teatro paulista como Antonio Petrin, Lourival Pariz, Roberto Azevedo, Ariclê Perez e um grupo de novíssimos atores e bailarinos como Odilon Wagner, Maneco Bueno, Flávio Siqueira, Horácio Russo e Bernadette Figueiredo.

Até os anos 80 os musicais originários da Broadway não eram comuns no Brasil, pois não tínhamos ainda a formação de bons atores que soubessem cantar. Entre 1963 até a estreia de “Man of La Mancha” em 1972, apenas três musicais desse tipo foram montados entre nós: “My Fair Lady”, “Hello Dolly” e “Hair”.

Contudo esse panorama mudou muito de 1980 até os dias de hoje com o empenho e o trabalho de três diretores que fizeram grandes espetáculos musicais: Cláudio Botelho, José Possi Neto e Miguel Fallabela.

Confesso que sempre fui um grande admirador do teatro musical e tive a oportunidade de assistir vários deles fora do Brasil, como “West Side Story”, “Evita”, “Miss Saigon”, “Mary Poppins”, “Chicago”, “O Fantasma da Ópera”, “Fosse”, musical feito sobre o coreografo Bob Fosse, autor – entre outras – da excepcional coreografia de “Cabaret”.

Ter trabalhado na primeira montagem de “O Homem de La Mancha” no Brasil é, para mim, uma experiência inesquecível, gratificante mesmo, pois como escreveu Flávio Rangel no texto inserido no programa do espetáculo, ‘O Homem de La Mancha’ é uma peça de permanente beleza, de incessante energia e de evidente interesse. E é através da grandeza de sua fabulação que podemos encontrar recursos para enfrentar a mediocridade de um cotidiano cinzento e ameaçador.

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1 comentário

  1. Desde que me apaixoinei pela poesia, pela musica, por todas as artes, que é através delas que encontro forças coragem, equilibrio, ideias para viver todas as manhãs do mundo. Aagradeço a você, ainda que não escreva para nenhuma pessoa em particular, ou no caso, somente para mim, por dividir suas historias e lembranças tão importantes. Neste momento precisamos bastante. O medo de que a extrema direita, com toda esse circo de horrores, continue no poder nas proximas eleições é grande e parte da esquerda, do movimentos sociais e intelectuais se inquietam e se debatem. Precisamos de um norte.

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