Minhas aventuras no teatro (X), por Izaías Almada

Para além do trabalho cênico dos atores, quase que acrobático em alguns momentos, o cenário disputava com esses e com o texto de Arrabal o protagonismo da mise-en-scene.  

Minhas aventuras no teatro (X)

por Izaías Almada

Era um dia de semana normal do mês de julho de 1973. Com a desculpa de um defeito nas instalações elétricas do circo teatro preparado para a montagem de “Cemitério de Automóveis”, o espetáculo teve sua estreia adiada pela ameaça de censura.

Ruth Escobar pediu que todo o elenco a acompanhasse até a Avenida da Liberdade onde teria um encontro com o Ministro da Cultura. Já não me recordo se o encontro era no próprio Ministério da Cultura ou se num de seus departamentos.

Eram aí pelas dez horas da manhã quando nos instalamos num café que ficava no canteiro ajardinado entre as duas pistas da avenida, próximo à Praça dos Restauradores, ansiosos com a inusitada situação de vermos frustrada a montagem de um espetáculo exótico, arrojado mesmo, do diretor Victor Garcia e do cenógrafo uruguaio Nestor Azardun.

Tensos, preocupados, parecia-nos que o tempo não passava, mas depois de uma hora de cafezinhos e pastéis de nata, Ruth retornou sem esconder do grupo o seu sorriso de vitória.

Se imposta, a censura criaria um caso diplomático e um vexame internacional, pois até a presença do autor, Fernando Arrabal, vindo da vizinha Espanha, era posta em dúvida. Refiro-me, é claro, a um Portugal em fim de salazarismo.

Entre chuvas e trovoadas a peça estreou ainda naquele mês de julho e, com excelente afluência de público, o espetáculo foi apresentado até o mês de setembro.

Para além do trabalho cênico dos atores, quase que acrobático em alguns momentos, o cenário disputava com esses e com o texto de Arrabal o protagonismo da mise-en-scene.

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Em matéria do Jornal do Comércio de 25/07/1973 podia-se ler: “Um cenário que assenta como uma luva na nova peça: a crítica mordaz de uma sociedade de consumo transformada em detrito… E lá estão as carcaças cremadas de antigas viaturas a lembrar aos homens que… tudo passa e se transforma”.

Pondo de lado a química de Lavoisier e indo às teorias de Aristóteles a Brecht, o trabalho da dupla Victor Garcia/Nestor Azardun conseguia um equilíbrio estético de rara beleza, envolvendo a plateia numa espécie de culto pagão, onde os personagens invocavam divindades alheias ao cotidiano de cada espectador ali presente, provocando estranheza e sensações desconhecidas, pois à sua frente estava um ritual de dor provocado, entre outras razões, pela visão de um filho, o próprio Arrabal, cuja mãe entregou o pai ao regime fascista de Franco.

Palhaços, equilibristas, malabaristas, transformistas, amparados por um figurino também ele exótico, andavam, corriam e pulavam sobre carros abandonados e rampas de madeira, onde o silêncio do público podia ser cortado por uma navalha. O surrealismo a provocar alguma esperança para os que não acreditam em absolutamente nada, até mesmo em Deus.

Creio que a maior emoção para o público e principalmente para nós, os atores, foi a presença de Fernando Arrabal em uma das apresentações, até então proibido de entrar em Portugal. Sem esquecer que sua obra foi proibida em toda a Espanha durante o franquismo.

Anunciada a sua presença, foi aplaudido de pé. Muitas emoções para alguém, como eu, que até então não conhecia o mundo além do barroco mineiro e da Serra do Mar.

A sensibilidade de Ruth Escobar, talvez uma das ferramentas mais consistentes de sua personalidade, fez com que ela procurasse um cineasta português que filmasse o espetáculo. Foi quando conheci José Fonseca e Costa, já falecido, e seu assistente na ocasião, Luis Filipe Rocha. Ambos têm os seus nomes já na galeria dos bons cineastas portugueses, tendo Fonseca e Costa participado de algumas coproduções com o Brasil. Na filmagem, feita com duas câmeras, participaram os fotógrafos Acácio de Almeida e Leonel Efe.

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O Luís Filipe e eu fomos indicados pelo Fonseca e Costa e por Ruth Escobar para acompanharmos a montagem do filme, feita pela montadora Helena Batista. Eu e o Luís aí e começamos uma amizade ultramarina que já perdura por quarenta e sete anos, com a particularidade de termos escrito os roteiros de duas de suas primeiras longas metragens. Sobre isso falarei mais à frente quando escrever sobre minhas aventuras no cinema.

Para além do espetáculo que, além de sua ousadia e originalidade, causou elogios e críticas apaixonadas na imprensa e no público português, devo dizer que o momento mais emocionante para mim – e o digo consciente do lado egoísta que encerra – foi poder, justamente por causa do documentário cinematográfico – entrevistar Fernando Arrabal, um dos nomes mais sonantes da poesia, do teatro e do cinema contemporâneos.

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