Minhas aventuras pela publicidade (III), por Izaías Almada

Lembro-me perfeitamente de uma campanha que o Paulo Dantas e eu fizemos na Movi&Art para a Fotoptica e que tinha um bordão interessante: “Fotografou? Não... Então, dançou!”

Acervo MIS

Minhas aventuras pela publicidade (III)

por Izaías Almada

A Mc Cann-Erickson que conheci e onde comecei a trabalhar tinha sua sede na Rua Sete de Abril, centro de São Paulo. Por vezes tenho a impressão que estou ficando velho (rsrsrs). Quanto a isso não há muito que fazer, ou melhor, há sim: resgatar algumas memórias. Por que não?

Na época, 1976, eu morava no bairro da Bela Vista, o velho e boêmio bairro do Bexiga e costumava ir e voltar a pé do trabalho. Pelo caminho, ao passar pela antiga redação do jornal ‘O Estado de São Paulo’ em direção à Av. São Luís esbarrava numa construção de um imponente edifício que ficava na confluência das Ruas da Consolação e Martins Fontes.

Mal sabia eu que dois ou três anos depois, a MC Cann Erickson mudaria sua sede exatamente para aquele edifício, ocupando três andares inteiros. Por lá apareceram novos colegas como a Cristina Carvalho Pinto, o velho e querido Joca, o Carlão (Carlos Bittencourt Ferreira) que escreveu um livro saboroso sobre histórias do jogo de sinuca com o título de “Pela Sete” e tantos outros que o tempo comete a injustiça de me fazer esquecer os nomes.

Foram quatro anos de muito trabalho, muita preocupação com o resultado dos trabalhos, muitas caipirinhas e uísques num barzinho da Rua da Consolação e, sobretudo, muitas viagens pelo Brasil e pelo mundo.

Numa dessas viagens, quando realizei dois comerciais para a Gelato, um em Veneza e o outro em Roma, tive a sorte e o privilégio de conhecer um dos monstros sagrados do cinema italiano e mundial: Federico Fellini.

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Enquanto aguardava a revelação dos negativos, fui convidado pelo simpático fotógrafo italiano, com quem trabalhei, para conhecer os estúdios da Cinecittà, que ficava quase em frente ao laboratório em que estava o material a ser revelado.

Aqui, uma curiosidade: os fotógrafos do cinema italiano estavam em greve pela melhoria de salários e condições de trabalho e como se tratava de uma filmagem feita por uma produtora estrangeira, o sindicato dos fotógrafos possuía uma lista na qual o primeiro nome era indicado para os trabalhos que surgissem, criando um rodízio entre os profissionais da área.

Luigi, o fotógrafo, de cujo sobrenome não me recordo, levou-me para conhecer o estúdio de número 05, o preferido de Fellini, fiquei sabendo por ele, e pude ver parte do cenário de “La città delle donne”, ainda por desmontar. Quando saíamos do estúdio, Fellini chegava com uma sua secretária e o fotógrafo – que já havia trabalhado com o diretor – fez a gentileza de nos apresentar. Uma tarde inesquecível, como podem imaginar.

Assim eram aqueles dias: muito trabalho, muita responsabilidade, muitos aborrecimentos, pois não era nada difícil ter reuniões com clientes indecisos na hora da aprovação dos filmes ou, pior ainda, durante os dias de filmagens.

Lembro-me perfeitamente de uma campanha que o Paulo Dantas e eu fizemos na Movi&Art para a Fotoptica e que tinha um bordão interessante: “Fotografou? Não… Então, dançou!” Foram quatro ou cinco filmes com esse tema. Um deles mostrava a famosa rainha Cleópatra do Egito se gabando de seus feitos, interrompida pela voz de um locutor: “Fotografou?” Surpresa, ela dizia não e a locução completava “Então dançou!”

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O criador da campanha acompanhava as filmagens e dava inúmeros palpites durante o trabalho, quase que assumindo a direção do filme e isso começou a criar uma insegurança na modelo que representava Cleópatra.

Não tive dúvida: parei a filmagem, anunciando a todos que retomaríamos no dia seguinte e, educadamente, sugeri ao criador da agência que ele me deixasse trabalhar em paz, sabedor dos riscos que isso poderia acarretar para a Movi&Art.

Contudo, prevaleceu o bom senso…

(CONTINUA)

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