Minhas aventuras pelo teatro (II), por Izaías Almada

Posso estar enganado, mas creio que sou o único profissional de teatro que começou a sua carreira num caminhão de mudanças transportando velhas cadeiras pela Via Dutra, sem nota fiscal

Lima Duarte, Dina Sfat, Gianfrancesco Guarnieri, Izaías Almada, David José e Vania Sant’Anna.

Minhas aventuras pelo teatro (II)

por Izaías Almada

A partir de 1965, ano em que entro para o Teatro de Arena até o ano de 1971, quando deixo o Presídio Tiradentes, após dois anos como prisioneiro da ditadura civil militar que se impôs ao país, seis anos – portanto – não sei como fui capaz de participar de tantas atividades simultâneas, escapando por pouco de um trágico final.

Sabendo do meu descontentamento com a minha turma na Escola de Arte Dramática, quando concluo o segundo ano em 1964, Augusto Boal me pergunta se eu teria disponibilidade e interesse em ir para o Rio de Janeiro, onde ele iria dirigir um show musical com a cantora Nara Leão e os compositores e cantores, João do Vale e Zé Keti. Não pensei duas vezes.

Em janeiro de 1965, desapontando o doutor Alfredo Mesquita, como era carinhosamente chamado o criador da EAD, deixei São Paulo num ônibus da Cometa e segui para o Rio de Janeiro, onde me instalei numa pensão para estudantes na rua República do Peru em Copacabana. Essa rua fica a poucos quarteirões da rua Siqueira Campos, onde o mezanino de um Shopping Center em construção deu guarida àquele que seria um dos grandes sucessos de musicais no Brasil: o show “Opinião”.

Quase dez anos mais tarde tive a oportunidade de dirigir um espetáculo sobre o poeta Fernando Pessoa nesse mesmo teatro, história curiosa que contarei mais à frente.

Nem bem os ensaios do show musical haviam começado, fui destacado para voltar a São Paulo para minha primeira missão como assistente de direção do Boal: trazer de um velho cinema em demolição da zona leste paulistana quase duzentas cadeiras que seriam colocadas no espaço que se transformou no Teatro Opinião.

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Posso estar enganado, mas creio que sou o único profissional de teatro que começou a sua carreira num caminhão de mudanças transportando velhas cadeiras pela Via Dutra, sem nota fiscal, correndo o risco de ser parado pela Polícia Rodoviária, mas o que tem que ser tem muita força, diz o provérbio árabe.

Essas cadeiras ficaram sempre ocupadas durante meses por centenas e centenas de espectadores ao mostrar o trabalho feito pela união dos integrantes do Centro Popular de Cultura e o Teatro de Arena de São Paulo. E os sucessos ali foram muitos também, como o espetáculo que se seguiu: “Liberdade, Liberdade”, de Millor Fernandes e Flávio Rangel.

Como escrevi acima, esse foi o início de um conjunto de peripécias em que o protagonista quase não teve tempo de refletir sobre cada um dos acontecimentos que levavam a sua ação dramática para frente, pois passadas algumas semanas da estreia do show “Opinião”, Boal perguntou-me se eu estaria disposto a substituir um dos atores do então grande sucesso do Teatro de Arena em São Paulo, o musical “Arena Conta Zumbi”: o ator Chant Dessian, por problemas particulares, precisava deixar o elenco.

Qual caracol, com a minha bagagem de viagem sendo a minha casa, alugo um quarto numa pensão de estudantes na rua Piauí, próximo à Universidade Mackenzie.

Durante uma semana fui ver a peça para observar a movimentação dos atores, em especial a do Chant, enquanto em casa procurava memorizar o texto. A atriz e cantora Marília Medalha foi destacada para me acompanhar nos ensaios de marcação cênica.

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Com a minha estreia no “Zumbi”, comecei de verdade a minha vida profissional em teatro, contratado que fui pelo valor de duzentos mil cruzeiros (a moeda na época), registrado em carteira, o que me deu a oportunidade de alugar um pequeno apartamento na Praça Roosevelt, onde podia ver o Teatro de Arena da janela da sala.

Um início promissor e uma escola maravilhosa de teatro, onde trabalhei com Gianfrancesco Guarnieri, Lima Duarte, Dina Sfat, Fauzi Arap, Vânia Sant’Anna, David José, Marília Medalha, Myriam Muniz, Yara Amaral, Suzana de Moraes, Paulo José, Flávio Império, Carlinhos Castilho, Theo de Barros e muitos outros novatos que viriam a se destacar nas artes cênicas, como Antonio Fagundes e Zanoni Ferrite.                                                  (CONTINUA)

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