Missiva aos Desconfiados, por Jean Pierre Chauvin

Missiva aos Desconfiados, por Jean Pierre Chauvin

Planeta Terra, 11 de abril de 2018, Anno Domini

Meu país é algo que trago comigo.

Ele não é só um território geográfico” (Edward Snowden). [1]

 

“[…] os processos educacionais e os processos sociais mais

abrangentes de reprodução estão intimamente ligados” (István Mészarós). [2]

Diletos marcianos,

Um jovem espécime de vossa órbita solicitou-me a especial vênia de que redigisse uma breve carta, em que (eu) sugerisse formas de intervenção, frente ao que vocês vivem por lá. Os senhores, que desconfiam dos jornais e captam eficazmente as notícias, inclusive as de cá, relevem o teor didático. Perdoem-me antecipadamente se eu subestimar a sua inteligência ou desprezar a sua sensibilidade – possível efeito do resfriado.

Volta e meia topo com estudantes que me perguntam: “ok, professor, eles venceram; o que podemos fazer?”. Respondo, primeiro, com Sócrates. Digo-lhes que nosso destino provavelmente não será suicidarmo-nos com cicuta, enquanto assistimos o corpo paralisar-se na hora final antes da morte. Salto para os Jesuítas, que fizeram do ensino catequético uma das máquinas mais impressionantes, em termos de expansão política/teológica/administrativa, em nome da pseudoproteção dos índios (só para uso deles). Passo para Edgar Morin, autor do famigerado “pensamento complexo”, que defendia a importância de fazermos uso constante das brechas: pequenas fendas que permitem criar rachaduras no meio em que infravivemos.

Isto posto, com uma pitada de filosofia, religião, política, bom senso e sociologia, digo-lhes que precisamos ler atentamente os jornais/revistas e escutar atentamente o que dizem os telejornalistas. A Filosofia da Linguagem permitiu, dentre outras coisas, que a Análise do Discurso fosse cultivada por pesquisadores/pensadores excepcionais, que relembram, de tempos em tempos, os poderes (des)mobilizados pela linguagem. O léxico a que o sujeito recorre; a forma como combina os termos da oração; as possíveis intenções do falante/redator; as múltiplas formas de analisar, primeiro, e interpretá-lo – fase dois.

Via de regra, desconfie do que dizem os jornais, digamos, “patronais”. Ou seja, órgãos ligados a grandes corporações e que tendem a irradiar a recomendação de seus editores (no caso dos periódicos, rádio, televisão e internet), por sua vez atrelados aos interesses do Mercado – substantivo, hoje abstrato, que adquiriu foro de concretude, nas últimas duas ou três décadas.

Cerque-se de pessoas sensíveis e pensantes que costumam se posicionar diferentemente do senso comum.

Troque Rede Globo, Band, SBT, Gazeta, Rede TV (e mesmo a TV Cultura) por emissoras que dizem o “mesmo” de outra perspectiva. Caso não assista televisão, repare na inconsistência de certos canais do Youtube, conduzidos por charlatães que só sabem reproduzir bordões em defesa do “livre” mercado e dos homens aprisionados pela “lógica” da suposta “ampla” concorrência.

Onde há mérito em largar antes? Liberdade em corrermos todos, na mesma direção, eliminando os amigos (que transformamos em adversários) em nome da competição?

Prepare respostas que surtam efeito, diante de frases feitas. Por exemplo: ao ler “Pão com mortadela”, pergunte quanto ele cobra (ou quem ele agrada) para manter seu canal no ar. Outro exemplo: ao ler “Esse pessoal não trabalha, não?”, responda: que bonito acessar as redes sociais durante o expediente, Mister Empregado! Se persistirem no “Vai pra Cuba”, diga que ainda não desistiu do Brasil. Há mais afeto em criticar que em resignar-se, como se tivéssemos aceitado a condição exclusiva de neocoloniais.

Confira manchetes das “mesmas” notícias publicadas por veículos diferentes (você sabia que a megaempresa Folha da Manhã detém o direito da Folha de S. Paulo e do Agora? Confira lá na seção “Expediente”). Assine canais que oferecem outras perspectivas, a exemplo deste Portal (GGN). Se puder assinar revistas, que tal apoiar a do Mino Carta?

Jamais perca de vista o ângulo das fotografias, o título dado às manchetes, o teor dos editoriais, notícias e reportagens a que tiver acesso. Relativize o discurso pretensamente categórico de sujeitos que supõem ter “chegado lá” (mediante pai-trocínio); que defendem a liberdade do Brasil (apoiados por empresas estrangeiras); que disseminam ódio à legenda dos pobres (mas ignoram que SDB não condiz com Estado Mínimo Entreguista).

Não sei se o Planeta de vocês continua arredondado. Por aqui, voltaram a anunciar que a Terra é…plana. Gostaria de acreditar que se trata de uma poderosa metáfora, daquela ala raivosa, a sugerir que vivemos na suposta Era da Pós-Verdade; Era das Pós-Ideologias.

Devo estar equivocado, pois são justamente os verde-amarelos que reduzem soberania, independência e civismo às cores (historicamente portuguesas) da bandeira; que mentem em defesa de candidatos que frequentam mais vezes listas de mega-empreiteiros; que costumam substituir argumentos respeitosos por esta curiosa sentença: “Deixe de MIMIMI”.

Será isso um novo código mega-inteligente para nos comunicar com os extraterrestres?

Seu terráqueo cordial,

J.P.C.

 

[1] Ted Rall. Snowden: um herói do nosso tempo. Trad. Waldéa Barcellos. São Paulo: Martins Fontes, 2015.

[2] István Mészáros. A educação para além do capital. 2a ed. 3a reimp. Trad. Isa Tavares. São Paulo: Boitempo. 2015. 

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