Multidões, por Zê Carota

Multidões

por Zê Carota

manhã do último 25 de dezembro, desci pra cheirar a vida num daqueles interioranos bancos de praça que há na frente do prédio em que moro.

 

aos poucos, crianças começaram a chegar, todas trazendo os presentes recém descobertos sob os embrulhos colhidos ao pé do pinheirinho cujos frutos são sonhos e surpresas, e babau escovar os dentes, tomar café da manhã, pentear os cabelos, trocar de roupa, enfim, babau qualquer obediência, pois aquele instinto nato, desenvolvido desde as primeiras lambanças com papinhas e mingaus, ensina: tudo nessa vida pode ser deixado pra depois, menos alegria e liberdade – e, mesmo, em dias como esse, o que pode fazer sorrir e alimentar mais e melhor do que a diversão, qual roupa poderá ser mais bonita que o uniforme do herói e da heroína preferidos, que penteado sobreviverá a capacetes, tiaras e máscaras?

 

dentre todas, me chamou atenção uma menina de 5, 6 anos, toda vestida de médica, estetoscópio e tudo, pousando na grama um kit de cozinha quase do seu tamanho, com mais loucinhas e utensílios do que a Rita Lobo utiliza em uma temporada inteira de seu programa, mas deixou a lida com as comidas pra depois, iniciando as consultas do dia – nas flores e plantas do jardim.

 

auscultou todas as flores ao seu alcance, que estão ótimas não apenas de aparência, uma vez que ao despedir-se das pacientes sem prescrever receitas em seu bloquinho disse apenas “muito bem, continuem assim”, o que não se deu com uma espada de São Jorge, à qual, depois de aplicar uma injeção, recomendou tomar mais sol – e, de fato, a planta estava meio borocoxô mesmo.

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terminado o expediente como médica e botânica, assumiu as funções de chef e, descobri pouco depois, veterinária.

tendo como plateia eu e um casal de gatos de rua que vive aqui no prédio, ela preparou um prato à base de massinha cor de abóbora, bolinhas coloridas de plástico e grama fresca, o qual, terminado, foi servir aos gatos – que fugiram.

meu temor de que viesse oferecê-lo a mim durou pouco: vestiu-se novamente de médica e foi atrás dos gatos, que deixaram-se consultar menos por previdência, mais pela atração com o estetoscópio pendulando que tentavam pegar.

 

não sei em que momento da vida abdicamos desse super poder da multiplicidade, que adquirimos não assistindo aos desenhos de walt disney, repletos de dualismos e paradigmas, mas intuindo outro e bem melhor Walt, o Whitman, poeta libertário norte-americano, que versou: “Sim, sou contraditório. Eu contenho multidões”.

 

com o passar do tempo, deixando-nos moldar aos interessados padrões estabelecidos por empresas, religiões e mídia de massa, todas determinadas a insuflar a subserviência, a cobiça e a inveja por uma perfeição sempre postiça e não raro hipócrita, limitamos nossos infinitos interesses mais legítimos a uma coisa só,  reduzindo nosso cérebro, que era do tamanho do universo, a uma quinoa – e babau àquele super poder, bem como ao sorriso que ele promove e inspira.

 

a frustração é garantida e generalizada: os que chegaram “lá”, quando a conquista torna-se apenas um troféu empoeirado no umbigo, se perguntam “e agora?”, e a resposta não vem. os que ainda não chegaram “lá” se perguntam “até quando?”, e a resposta não vem.

no tédio da limitação, sucesso e fracasso são gêmeos univitelinos, já no universo das multidões que todos contemos, apenas duas dentre tantas possibilidades.

 

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em 2018, sejamos multidões.

para nós e, por natural decorrência, para os outros – afinal, é libertador, inspirador. basta dizer que aquela menina que é tantas em uma me salvou do mais terrível inimigo de um cronista: a falta de assunto.

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