Notícias de inverno, por Maíra Vasconcelos

Dizem que entre o fim e o início das estações, algumas coisas se repetem, outras não. Durante o inverno isso poderá ser verificado.

Cândido Portinari

Notícias de inverno, por Maíra Vasconcelos

Mesmo que o outono tenha ido embora, restam as árvores de folhas caducas que são como a lembrança dos seus efeitos bárbaros. As barbaridades de uma estação passada. Não deixou sequer as folhas secas. Todas se esconderam no ar da cidade ou foram varridas para onde ninguém sabe. As folhas do outono não possuem endereço, e alguns de nós habitam como folhas, às vezes. Dizem que entre o fim e o início das estações, algumas coisas se repetem, outras não. Durante o inverno isso poderá ser verificado. Digamos, a partir de então. Não repetir a si mesmo é um ato de renovação, ouvi dizer. Apenas as estações necessitam copiar a si mesmas, sempre e constantemente da mesmíssima maneira. A originalidade é própria do pensamento e do agir reflexivo, dos corpos e dos ossos, ou de como se queira definir uma vida humana. E assim chegou o inverno, como em todos os anos. E, com ele, outros poemas. Isso que, por certo, pode atravessar as estações e suas barbaridades. Digo, os versos podem. Sendo o outono sempre de Juan Gelman, como se atravessasse e permanecesse. Claro, ninguém em sã consciência duvida da força dos versos. Até onde pude verificar, a crença na poesia é como ter esperança. E muitos privilegiam esse sentimento, como se resistíssemos, como se não abaixássemos as mãos, os braços, o corpo. E para isso está a poesia, talvez, para abrigar o caminhar entre quaisquer alterações, entre quaisquer barbaridades. Como as do outono que não deixou sequer as folhas secas ou uma árvore verde a flamular. E assim chegou o inverno, que está sempre um pouco mais vazio porque o outono arrastou toda quantidade de coisas, deixando espaço apenas ao que já é de inverno. Como um novo poema e outro grande poeta, ou apenas ao que é a esperança de Nicolás Guillén.

 

Um som para Portinari

                                     Buenos Aires, 47.

Para Cândido Portinari,
o mel e o rum
e um violão de açúcar
e uma canção
e um coração.
Para Cândido Portinari,
Buenos Aires e um bandoneón.

Ai, nessa noite se pode,
se pode,
ai, nessa noite se pode,
se pode,
se pode cantar um som!

Sonha e reluz.
Um homem de mão dura,
feito de sangue e pintura,
grita na tela.
Sonha e reluz
seu sangue de mão dura;
sonha e reluz,
como talhado em candela;
sonha e reluz,
como uma estrela nas alturas;
sonha e reluz,
como uma faísca que voa . . .
Sonha e reluz.

Assim com sua mão dura,
feito de sangue e pintura
sobre a tela,
sonha e reluz
um homem de mão dura.
Portinari o revela
e cura seu quebrado peito,
ao homem de mão dura
que está gritando na tela,
feito de sangue e pintura.

Sonha e reluz.

 

*Un son para Portinari

                                    Buenos Aires, 47.

Para Cándido Portinari,
la miel y el ron
y una guitarra de azúcar
y una canción
y un corazón.
Para Cándido Portinari,
Buenos Aires y un bandoneón.

Ay, esta noche se puede,
se puede,
ay, esta noche se puede,
se puede,
se puede cantar un son!

Sueña y fulgura.
Un hombre de mano dura,
hecho de sangre y pintura,
grita en la tela.
Sueña y fulgura
su sangre de mano dura;
sueña y fulgura,
como tallado en candela;
sueña y fulgura,
como una estrella en la altura;
sueña y fulgura,
como una chispa que vuela. . .
Sueña y fulgura.

Así con su mano dura,
hecho de sangre y pintura
sobre la tela,
sueña y fulgura
un hombre de mano dura.
Portinari lo desvela
y el roto pecho le cura,
al hombre de mano dura
que está gritando en la tela,
hecho de sangre y pintura.

Sueña y fulgura.

*La paloma del vuelo popular (1958) – Nicolás Guillén