O aplicativo, um delírio literário diplomático tecnológico, por Fábio de Oliveira Ribeiro

A primeira resolução tomada pelo grupo foi que o ganhador da máxima honraria literária concedida pela ONU seria um autor de qualquer país, independentemente do tamanho de sua população.

O aplicativo, um delírio literário diplomático tecnológico

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Preocupados com o aumento da tensão entre EUA e China, os adidos culturais de alguns países se reuniram na ONU e decidiram criar um app cultural para aproximar os povos do mundo.

O chinês que organizou a reunião fez uma proposta bem simples. Cada povo poderia escolher qual foi o maior escritor do seu país. Aquele que tivesse mais votos seria homenageado na Assembleia Geral e ganharia uma estátua no Conselho de Segurança da ONU.

Imediatamente o representante grego levantou e falou.

– Isso não é justo, pois a Grécia tem excepcionais escritores e uma  população muito pequena. Eu penso…

Antes que ele pudesse concluir a frase, algo interessante ocorreu.

O representante de Portugal recitou um poema:

“O  poeta é um fingidor.

Ele finge tão completamente

Que ele chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.”

Imediatamente todos concordarem que seria um problema desprestigiar o grandioso valor literário de um país tão pequenino quanto Portugal ou Grécia. Mas o representante inglês ficou irritado, pois ele deveria ter sido mais rápido do que o colega. Na careta que ele fez estava escrito: Damn Portuguese, he believes that Fernando Pessoa is bigger than Shakespeare.

A primeira resolução tomada pelo grupo foi que o ganhador da máxima honraria literária concedida pela ONU seria um autor de qualquer país, independentemente do tamanho de sua população.

– Devem os votos ser considerados proporcionalmente? – perguntou o chinês.

O primeiro a considerar esse problema foi o representante da Bélgica.

Afinando a ponta de seu imenso bigode ele começou.

– Vejam bem, a questão da proporcionalidade é um problema no meu país. Os belgas francofonos não nunca votariam num escritor que nasceu em Flandes. E os belgas que falam holandês odeiam todos os autores da Valônia.

Imediatamente um diplomata levantou e aplaudiu o colega belga.

– Nós temos o mesmo problema no Canadá.

Orgulhoso como todos seus conterrâneos, o espanhol e disse como se a palavra dele fosse a última.

– Então estamos resolvidos. Cada pessoa poderá escolher dois escritores, um de seu país e outro de qualquer outro país. O escritor mais votado será considerado o vencedor.

E virando para o colega chinês.

– O voto em dois autores será obrigatório, assim o tamanho da população da China ficará igual à de Portugal e Grécia.

O grego olhou para o português. Mas antes que eles pudessem falar algo o representante da França desafiou o colega da Espanha.

– Nada está decidido. As duas questões terão que ser consideradas com cuidado. Em primeiro lugar os autores chineses não são muito conhecidos fora da China. Em segundo, um cidadão da Índia nunca votaria num autor inglês em virtude das feridas deixadas pelo colonialismo.

O inglês pediu delicadamente o direito de fazer um aparte, no que foi atendido pelo francês.

– França e Inglaterra estão na mesma situação aqui. Autores franceses também podem acabar sendo discriminados nas ex-colonias da França. Além disso, os chineses provavelmente também não votariam num autor inglês porque eles são incapazes de esquecer a derrota na Guerra do Ópio.

O chinês grunhiu irritado, mas antes que pudesse fazer uma observação rude ele foi confortado pelo colega do Japão.

– O Japão também é pequeno como Portugal e Grécia e também tem grandes escritores como a Inglaterra e a França. Eu reconheço aqui que os japoneses certamente teriam motivos para não votar num escritor chinês ou russo. Nós fomos derrotados na Manchúria pela URSS e o Exército Imperial do Japão fez coisas terríveis em território chinês. Mas é preciso colocar o passado de lado. Nós estamos aqui para criar o futuro.

Aproveitando a deixa, o representante da Rússia completou o raciocínio do colega japonês.

– Você tem toda razão, colega. Vingar o passado é uma tolice. Nenhum de nós participou pessoalmente das guerras que foram aqui relembradas de uma maneira ou de outra. Nossos filhos também não tem as mãos sujas de sangue. Eles podem decidir que a literatura mundial é mais valiosa do que cada uma das histórias nacionais. A Rússia é um grande país com grandes escritores. Nós russos temos orgulho de nossa história. E não temos medo de que nossos feitos militares do passado sejam levados em conta quando nossa maravilhosa literatura é submetida a julgamento em qualquer lugar do mundo.

O norte-americano pigarreou e, de maneira meio arrogante, começou a discursar.

– A América também é um grande país. Nossos escritores são mais lidos e vistos no cinema do que os escritores de qualquer outro país. Nós também não temos medo de ver nossos monumentos literários apreciados. Todavia, existe uma verdadeira má vontade contra os EUA por causa da…

Antes que ele continuasse, o representante de Israel tomou a palavra e começou a falar com aquele jeito malicioso que lhe era peculiar.

– Os judeus são um pequeno povo num país pequeno e árido. Mas a nossa literatura é a única realmente conhecida mundialmente. Na Europa, nas Américas, na África, na Oceania e eventualmente até na Ásia nenhum outro livro pode ter causado tanto impacto quanto a Bíblia…

O grego sorriu alto e replicou.

– Vamos lá colega… A Bíblia não pode ser considerada uma obra literária.

Ao contrário da Ilíada e da Odisseia, a Bíblia não tem um autor conhecido. Além disso, o que nós estamos querendo aqui é criar um app que permita a todas as pessoas de todos os países decidir quem deve ser considerado o maior escritor de todos os tempos e não qual foi o livro que causou mais guerra sangrentas.

O representante do Irã deu uma gargalhada e se retirou do recinto.

Ele ficou extremamente satisfeito com o que ouviu do adido cultural da Grécia. Antes de sair ele fez questão de apertar a mão do colega. Quando chegou na rua, o iraniano viu o representante da Venezuela sendo agredido por seguranças norte-americanos que o impediam de entrar no recinto.

– Isso é realmente uma desgraça!

Quando a discussão começava avançar, alguém levantava uma nova questão de altíssima indagação. O representante da Itália exigiu que a literatura romana fosse considerada como parte da literatura italiana, algo que foi violentamente rejeitado pelo adido diplomático da Alemanha. Superada essa questão, o representante da Espanha exigiu que somente os escritores do século XVI e XVII fossem considerados, algo que causou profunda irritação no alemão e no francês. O italiano exigiu que os escritores do século XIV fossem incluídos. O representante da Grécia já havia desistido de submeter aos colegas a necessidade de considerar a continuidade histórica entre a Grécia dele e a de Homero quando o representante do Brasil pediu a palavra.

– Colegas, colegas… O Brasil é um grande país, certamente tem escritores excepcionais e raramente entrou em guerra com os vizinhos. Mesmo assim eu admito que meu país não tem chance alguma de vencer essa disputa por causa de seus próprios problemas. No Brasil uma pequena quantidade de pessoas cultiva o hábito de ler obras literárias e muitos não tem condição econômica nem de comprar livros. Se dependesse de mim, autores como Homero, Virgílio, Luis da Camões, Shakespeare, Dante Alighieri, Miguel de Cervantes, Goethe, Molière, Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges, Shelley, Gustave Flauber, Jane Austen etc deveriam ser considerados universais. Eles ultrapassaram todas as barreiras do tempo e do espaço, como certamente autores chineses fizeram ou farão isso no futuro…

Amargurado, o representante dos EUA interrompeu o brasileiro:

– O colega esqueceu de mencionar um escritor norte-americano, por certo.

O brasileiro sorriu e completou o raciocínio.

– No mundo em que nós vivemos, os tóxicos filmes norte-americanos de HQs fazem menos pela literatura do que qualquer grande autor fez ou poderá fazer por ela. O sucesso desses filmes é imenso e mundial. No entanto ninguém possivelmente consideraria a hipótese de por uma estátua do Homem de Ferro na sede da ONU.

– Eu não entendo onde você quer chegar! – disse o representante da França, tomando as dores do colega norte-americano.

O representante da Argentina pediu licença ao brasileiro e sepultou o app.

– Eu entendo o problema do meu colega do Brasil. A questão que ele quis levantar aqui é muito simples. Os apps são inadequados para medir sentimentos: eles podem no máximo fornecer um resultado enganoso a partir de um recorte simplificado da realidade. A função deles é coletar dados que possam ser interpretados, filtrados e tabulados, reorganizados e comparados com outros dados, com uma finalidade econômica ou política. A literatura é e não é um produto comercial. A obra literária pode ser comercializada, é verdade, mas o valor emocional que ela contém ou pode despertar é impossível de ser mensurado da mesma maneira em todos os lugares em relação a todos os leitores.

Aproveitando a deixa, o representante de Portugal cutucou o colega inglês.

– Shakespeare foi um escritor imaginativo prolífico, com uma imensa capacidade de adaptar histórias reais e fictícias ao teatro. Mas no teatro do mundo, nós todos somos navegantes. A palavra “mar” é neutra para os ingleses, masculina para os falantes de português e feminina para os franceses. Isso faz toda diferença…

O russo soltou uma risada e atropelou o português.

– Bem lembrado colega, bem lembrado. Nenhum leitor francês jamais seria capaz de entender com a devida profundidade emocional o significado das frases  escritas em francês no livro Guerra e Paz de Leon de Tolstoi. O leitor precisa ser russo para sentir o que isso significa.

-Ok. Eu posso concordar com o russo nesse particular – disse o norte-americano – e nossos colegas da Argentina, Portugal e Brasil realmente tem alguma razão no que eles disseram. Mas qual é a proposta deles?

Os três diplomatas mencionados pelo representante dos EUA se entreolharam.

Eles sorriram como se fossem cúmplices, mas ficaram calados.

Então o chinês se levantou e disse.

– Eu suponho que nós precisaremos voltar a pensar nesse assunto. Eu gostaria muito de saber o que pensa o colega da Índia, mas ele infelizmente me avisou que não poderia comparecer a essa reunião. Segundo ele, governo Narendra Modi acredita ser ofensivo sequer considerar a possibilidade de discutir esse tema num momento em que nossos países estão trocando tiros na fronteira.

Assim que todos se levantaram para ir embora, o representante de Angola deu um salto da cadeira. Há bastante tempo ele estava mergulhado nos próprios pensamentos.

– E se nós criarmos um app que permita às pessoas de todos os países ficarem juntas conversando sobre literatura, ou sobre qualquer outro assunto…

– Você já ouviu falar do Whatsapp! – disseram vários diplomatas em coro.

– É evidente que sim, mas deixem-me completar meu raciocínio. O Whatsapp permite que as várias pessoas de países diferentes conversem ao mesmo tempo. Mas para fazer isso elas tem que usar a mesma língua, o que obriga alguns a usar algum tipo de tradutor “on line”. O processo de comunicação as vezes é demorado, quase sempre fragmentado.

E se o novo app der ao usuário a possibilidade de escolher apenas uma língua para escrever e receber mensagens? Quando pessoas que fizeram opções diferentes começassem a conversar o algoritmo ou a Inteligência Artificial detectaria a diferença e produziria uma tradução automática em duas direções. Assim, Um usuário que optou pelo chinês, por exemplo, receberia a mensagem sempre traduzida para o chinês, ainda que ela tenha sido originariamente escrita em português, inglês, espanhol, alemão ou francês. O mesmo ocorreria quando a mensagem escrita em chinês fosse recebida por um usuário de qualquer outra língua. Quando a língua materna deixar de ser uma prisão, a criação de uma literatura realmente mundial criada e emocionalmente experienciada por falantes de línguas diferentes começaria a se tornar uma possibilidade real. E por favor, colegas, não subestimem minha pessoa por causa da minha cor e porque meu país fica na pobre África.

Alguns diplomatas europeus ficaram preocupados. Esse angolano é perigoso, disse o belga para o italiano. O representante da Rússia preferiu deixar o recinto sem falar qualquer coisa. Nós precisamos pensar nessa possibilidade, confidenciou o chinês aos colegas da Inglaterra e da Espanha. Os representantes do Brasil, Argentina, Alemanha e Portugal aplaudiram o colega de Angola. Silencioso num canto, o norte-americano esfregou as mãos imaginando que poderia ganhar milhões de dólares patenteando aquela ideia.

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