GGN

O desejo divino do juiz e o pesadelo da realidade mundana, por Fábio de Oliveira Ribeiro

O desejo divino do juiz e o pesadelo da realidade mundana

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Fruto de um novo mergulho no inconsciente coletivo (ou da macarronada que devorei em excesso ontem a noite) um estranho pesadelo invadiu meu sono.

“Na sacada do apartamento onde estou aparece uma imensa caixa de abelhas. Ela tem o formato de um ovo e paira no ar como se fosse uma nave espacial. Estou no computador fazendo algo, mas não consigo deixar parar de prestar atenção na aparição.

Fecho a porta balcão para não ser incomodado pelos insetos. Um líquido grosso, viscoso e dourado que parece ser mel começa a escorrer do fundo da colméia. Muito lentamente ele se acumula no chão. Penso em colocar uma vasilha para apanhar um pouco dele, mas quando abro a porta balcão alguns marimbondos me fazem lembrar que há milhares de ferroadas a serem levadas em consideração.

O líquido que parece mel continua escorrendo. Que desperdício de alimento, penso. Há algo de errado com aquela colméia? Abro uma fresta da porta balcão para investigar, alguns marimbondos entram. Espero eles saírem e fecho-a novamente, pois vejo que outros insetos sobrevoam a sacada e pousam no mel. Impossível dizer se eles saíram ou não daquela mesma colméia.

Mais e mais marimbondos chegam e pousam no mel. Eles já são milhares, milhões. Eles devoram avidamente o líquido que parece doce e ficam inevitavelmente presos nele por causa de sua imensa viscosidade. Em alguns minutos os insetos param de se movimentar. Eles estão fartos, dopados ou mortos?

A colméia desaparece. Resolvo investigar o mistério. Abro a porta balcão e apanho um inseto na superfície do mel. É impossível dizer se ele está ou não vivo.

Inspeciono-o mais de perto. Oh my God… Isso é terrível, monstruoso, aterrorizador. A cabeça do marimbondo não é de inseto e sim de um ser humano. Ele se parece com um juiz que defeca e despacha no TSE e do STF. Todos os outros insetos têm a mesma característica monstruosa e o rosto idêntico ao primeiro marimbondo que apanhei. Assustado desperto.”

O exercício do poder é algo doce, entorpecente, delicioso, irresistível. Mas o mundo dos fenômenos, locus em que todas as decisões operam efeitos e produzem consequências imprevisíveis, é um rio viscoso e perigoso.

A história é uma armadilha que inevitavelmente prende para sempre cada qual ao resultado desejado e indesejado de suas escolhas. Quando decide o juiz é livre para cumprir fielmente a Lei ou para agir como se fosse a divindade fundadora de uma nova legalidade aparente. Mas ao colher a civilização ou barbárie que provocou ele se torna humano, excessivamente humano.

Não há decisão pessoal ou judicial que não possa ser julgada virtuosa ou envenenada. Essa lição que serve para mim, pode muito bem servir para cada inseto com cabeça de juiz que apareceu no meu pesadelo.  

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

Sair da versão mobile