O dia em que o Brasil parou (I), por Izaías Almada

O dia em que o Brasil parou (I)

por Izaías Almada

O dia 28 de outubro de 2018 será, infelizmente, o dia em que o Brasil se lembrará do salto no escuro que deu. Milhões de brasileiros, sem contar o golpe das ‘fake news’, foram às urnas para eleger um dos piores, senão mesmo o pior, de todos os nossos governos republicanos.

Insuflados por uma mídia tacanha e irresponsável e pelo teatro de uma falsa operação de combate à corrupção denominada Lava a Jato, o país mergulhou numa perigosa escalada de ódios e ressentimentos que, ao que tudo indica, levará um bom tempo para se recuperar.

O primeiro trimestre de 2021 já nos dá uma ideia do que vem por aí num país sem governo. As consequências da irresponsabilidade no combate à Covid-19 já está sobejamente comprovada: 350 mil mortes e já caminhamos rapidamente para 400 mil até o final do mês de abril.

Assim, sem mais nem menos, os três poderes republicanos passam a se digladiar num pântano de acusações e suspeições de seus integrantes, muito mais preocupados em fazer demagogia e aparecer para a imprensa, enquanto o país desce a ladeira do renovado empobrecimento de sua população, colocando em cheque a lisura de cada um dos poderes, mesmo quando uma ou outra de suas decisões possam ser acertadas.

A impressão que se tem, às vezes, quando tratamos da atividade política no Brasil, aquela que expressa ou escancara os mais variados interesses de grupos, grupelhos e até alguma bandidagem, é que – de fato – passamos recibo como sendo o nosso um país de energúmenos. Sempre de olho na casa do vizinho, enquanto a sujeira vai se acumulando nos cantinhos da nossa própria casa.

Acostumados ao sofrimento com a lei da chibata e do pelourinho, muitos de nossos antepassados nos legaram, ainda que não o quisessem, os das senzalas, sobretudo, o medo e a hipocrisia como forma de defesa e sobrevivência física e intelectual. Está introjetado na sociedade brasileira.

E outros, os da casa grande, a turma do cinismo, já agora culturalmente ligada à necessidade de todos se mostrarem senhores e não escravos, uma espécie de antídoto da sem-vergonhice. Faz parte do figurino neoliberal.

Sempre nos curvamos à Europa até os primeiros anos do século XX e, após a Segunda Guerra Mundial, aos interesses do mais avassalador capitalismo e seus capitães do mato ao redor do mundo, há anos sediado nos cofres e escritórios das grandes corporações nos Estados Unidos da América e na Europa (Suíça).  E sob a proteção de um arsenal de ogivas nucleares.

A tal ponto vai essa crença e obsessão, ou submissão, que para muitos de nossos conterrâneos, os do cinismo, sobretudo, ou mesmo os papagaios de pirata, o futuro da humanidade está em Miami, ali pertinho da Disneylândia, onde o estoque de bonecos do Pateta se renova em progressão geométrica.

Como país de uma democracia sempre em construção, tal como as infindáveis obras do metrô paulistano durante anos a distribuir propinas, entrou para valer no jogo do faz de conta, a ver se conseguimos acreditar um pouquinho em nós mesmos.

Faz de conta que somos sérios em nossas intenções; faz de conta que estamos combatendo a corrupção; faz de conta que a justiça é igual para todos; faz de conta que vamos fazer uma reforma política séria; faz de conta que não somos racistas; faz de conta que democracia é só poder protestar livremente nas ruas e nos meios de comunicação; faz de conta que liberdade de expressão é poder trocar de canal de televisão; faz de conta que acreditamos que outro mundo seja possível; faz de conta que São Paulo ainda é a locomotiva do país; faz de conta que o Partido dos Trabalhadores é a origem de todos os nossos males; faz de conta que os três poderes são independentes e que se respeitam; faz de conta que a nossa imprensa é imparcial.

                                                                            (CONTINUA)

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