o escritor Fidel e o político Gabo, por Z Carota

amigos, sim, mas evidente que numa relação envolvendo tanto poder e prestígio mútuos, interesses igualmente mútuos roçam cotovelos, mas, neste caso, não para ganhos pessoais.

o escritor Fidel e o político Gabo

por Z Carota

Fidel Castro e Gabriel García Márquez se conheceram em 1977 – digo, pessoalmente, pois 10 anos antes, quando do lançamento de “Cem Anos de Solidão”, um encantado Fidel, leitor voraz, tratou de estabelecer regular comunicação com o escritor colombiano via cartas e telefonemas, nas quais tornaram-se amigos de infância.

na quase totalidade dos necrológios feitos pela mídia quando das mortes de Gabo, em 2014, aos 87 anos, e de Fidel, em 2016, aos 90 anos, se fez um festival de piruetas retóricas para retratar, em tal amizade, o traço “ditatorial” de Fidel até com os amigos, e um Gabo reduzido a sabujo deslumbrado com o poder do “caudilho”.

e nada mais distante da verdade dos fatos.

amigos, sim, mas evidente que numa relação envolvendo tanto poder e prestígio mútuos, interesses igualmente mútuos roçam cotovelos, mas, neste caso, não para ganhos pessoais.

Fidel enxergou em Gabo, já com o Nobel na prateleira, uma bela oportunidade para propagar urbi et orbi – e em espanhol, segunda língua mais falada no planeta – as conquistas da Revolução, dirimir dúvidas e desmentir factóides da mídia, o que Gabo percebeu, faria com prazer, por afinidade ideológica, mas não sem barganhar solução para um problema que, como cidadão e escritor, lhe afligia: a perseguição do governo a autores que, por questionarem um e outro ponto da nova política, ou mesmo por orientação sexual, transgrediam os princípios revolucionários.

desde o começo da amizade, mais de uma vez Gabo percebera um certo e respeitoso prazer de Fidel em apontar deslizes que ele, Gabo, cometera em seus livros contra a gramática, ou em detalhes técnicos, tais como as especificidades de uma arma usada por alguma personagem, então passou a conferir ao poderoso amigo uma distinção: lhe confiar os manuscritos para revisão, edição e um e outro copidesque, até, antes de entregá-los à editora, o que Fidel aceitou de pronto, com enorme satisfação.

paralelamente à defesa do que havia de bom acontecendo na Ilha, Gabo passou a usar da confidencialidade que estabelecera entre ambos para opinar sobre o que entendia equivocado, tal como a citada perseguição, e muitos escritores cubanos, desde então, passaram a se beneficiar desse tricô entre o escritor Fidel e o político Gabo.

eis a importância da cultura para e na política, e taí uma obra factual de Gabo tão valiosa para tantos quanto a sua ficção.

Z Carota é jornalista e escritor, autor de “dropz” (Editora Penalux) e “a beleza que existe” (Páginas Editora)

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