O extremo do sonho

Farei a invocação de um sonho? Talvez, nunca mais. Talvez, nunca mais um sonho. O que escrevo é o sonho acabado. Lembram? E todos os dias o recomeço. Essa história que ainda não há, essa história que se procura, mas que vem da continuidade. Sem meios-termos, uma história cheia de esbeltos extremos. Como o extremo de um nascimento, como o extremo de uma morte. Como se apenas pelos extremos fosse possível reter certo conhecimento. Sim. O sonho acabado é um extremo? Amanhã.

E assim estou sempre tão cheia. Essa fartura de uma alma inquieta e acolhedora. Colhendo e reunindo na palma da minha mão. Sempre tão cheia. Também de flores e de cansaços. Qual o tamanho de um cansaço dentro do corpo? O cansaço que somente acaba com. Existirão novos sonhos depois que a palavra ocupou um lugar nesta cadeira? Aqui neste quarto, tão quieta tão mansa nesta cadeira, cumpro o dever de viver o cada-dia, de viver cada palavra, apenas. Assim como a uma velha, assim como a um velho. Se escrever é como estudar a própria morte. E escutar uma voz que não é a minha, mas às vezes se parece. Voz voz voz. Ter a voz preponderante e a voz retida em vastos expoentes de tempos que não sei. Amanhã. Sem amém e sem o poder do perdão – se cada um sabe de si, sentindo-se livre o suficiente, livre como a um pássaro que apenas ama fielmente no silêncio e recolhe no ar as benesses.

Assim tão cheia, apenas. Tão cheia de prazer e despudor, desnuda desnuda. De indecências faço-me. Uma barriga exposta ao sol, uma barriga tão lisa, uma barriga que pode ser lambida por mim mesma, limpando-me ao sol ao amarelo, mais uma vez. Um corpo exposto ao sol. Porque o amarelo é assim, o amarelo é como um grito, todos o escutam exalar. E ao escrever exibo reflexos do impossível, afirmo impossibilidades porque nisso há os desejos. Como a luz no corpo. E isso a realidade do mundo não sustenta, jamais, nunca. A suposta realidade, essa realidade que não vê a luz no corpo.

E permaneço ainda sem sonhos, porque meus olhos tanto captam que se sentem agredidos. Haverá um dia permitido a descansar os olhos? Mas há o trabalho constante de construção-reconstrução da criação que se faz presente em mim. Se há coisas que somente a palavra escrita pode. Apenas a palavra. Um determinado acabamento da alma. E assim entendemos os raios o amarelo, o corpo no transitório das luzes: claro-escuro claro-escuro.

Hoje é sábado e acordei sem sonho. Mais uma vez, sem sonho. E minha mão agitada não para de escrever, não para. Vou. Junto a essa história perigosa. Se não fosse perigosa não me emprestaria ao papel. Ao papel de uma personagem? Não sei, há de se averiguar os pormenores dos disfarces, os pormenores de todas as palavras. Vou. Pisando e recolhendo flores. Depositando flores e pétalas no prato cheio de proteção, essa minha proteção diante do mundo. Mas ainda não comi nenhuma flor. Comerei flores? Escrevo, apenas. Lembram? Sem deixar de falar, nunca mais, nunca mais abandonar essa expressão. Ah. Também almejaria um descanso, certamente. Sonhar descansa? Um passo uma voz, um passo uma voz: um-atrás-do-outro. Ah, meu Deus, como há no todo o velado. 

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