O indomável capitalismo, por Jota A. Botelho


 

por Jota A. Botelho

Algo engraçado tinha ocorrido quando ele viu as imagens do presidente Trump cumprimentando o líder norte-coreano Kim Jong-un. Aliás, mais do que engraçadas, as imagens na televisão desencadearam em sua mente uma sucessão de ideias incontroláveis e também bem-humoradas. Ele sabia que os tempos em que estava vivendo não tinha graça nenhuma, eram tempos sombrios, mas talvez para socorrê-lo da depressão vinha tendo agora, espaçadamente, mais vontade de rir do que de se enfurecer. O fato é que o senhor Trump pareceu-lhe um leão de juba ruiva que acabava de sair da jaula com uma vontade danada de devorar o obeso domador norte-coreano. 

Foram a partir dessas imagens que uma torrente de ideias reais e imaginárias, entre a ficção e a realidade, não paravam mais de fluir em sua mente perplexa e aturdida nessas horas incertas. Começaram desde a lembrança de uma piada engraçada sobre um caçador inglês que buscava abater um leão de juba ruiva em plena selva africana – que ele não quis contá-la, pois acreditava que se tratava de uma piada bastante conhecida e repetir piada perde a graça – até atribuir à figura do senhor Trump como representando o leão capitalista que volta e meia sai da jaula e é preciso que apareça um domador experiente, determinado e corajoso para prendê-lo de volta. Vieram-lhe então um fluxo incontido de indagações e reflexões.

“O leão capitalista estaria solto novamente? E faminto? Onde estão os tratadores ou domadores de leões? Fugiram? Pobre do senhor Kim, ao que parece é o último domador de leões da chamada era comunista que ainda se mantém vivo. Eu deveria avisá-lo para tomar cuidado com esse leão, ele não tem nada de manso”.

Pensava ainda que a nossa história era pródiga em correr com os domadores de leões.

“E o injustiçado do Lula, hein? Seria o nosso último domador de leões famintos? Teria sido Lula um bom domador? Como esse país é esculhambado, prenderam o domador e soltaram o leão. E a Dilma? Por que foi poupada pelo leão? O nosso leão é macho ou fêmea? Dos candidatos, caso haja eleições, quem seria o domador desse leão faminto que quer devorar todo o mundo? E se povo resolvesse caçar essa fera com lentes telescópicas? Alguém aí já pegou um leão pelo rabo? Sansão realmente havia lutado com um leão? Quem estaria com medo desse leão capitalista?” 

Para não se estender muito sobre o fluxo de suas indagações, além de se lembrar das novelas A fera na selva e A morte do leão, de Henry James, no final ele se lembrava também de uma outra piada de um brasileiro perdido e faminto em Nova York, que era mais ou menos assim:

“O imigrante estava roncando de fome quando entrou numa lanchonete e pediu ajuda de um cliente abocanhando um Super Big Mac. Ao negá-lo disse:
– Se quer trabalhar, eu tenho um circo em Nova Jersey que tem uma vaga para leão.
Quando o proprietário apareceu, o ilegal já estava lá esperando pelo patrão. Como chegou antes? Ninguém sabe, ninguém viu. O contratante foi logo dizendo para o precarizado:
– O negócio é seguinte: nesse próximo domingo, na matinê para a criançada, você veste uma indumentária de leão, entra no picadeiro e faz umas brincadeiras para a meninada, entendeu? Depois do trabalho você come, certo?
Domingo, circo lotado, o refugiado foi jogado no palco fantasiado de leão para a alegria da molecada. Na sequência, entrou um outro leão urrando como uma fera faminta. O desterrado, diante dessa inesperada besta fera, não teve outro jeito senão urrar ainda mais forte, que o outro leão soltou um berro tão alto, mas tão alto a ponto de paralisar completamente o retirante esfomeado:
– Me acuda, Padim Ciço!”

Esse maldito berro ficou martelando em sua mente ao se lembrar que teria de treinar vários leões no dia seguinte. “Ser domador de circo é dose pra leão”, disse, se enfurecendo de vez, antes de ser devorado.
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