O jornal é demasiado factível, a nossa diferença é a fantasia, por Maíra Vasconcelos

A voz literária pode virar eco no tempo. Mas nada disso é certeza alguma. A voz renasce ou também não renasce.

José Malhoa

O jornal é demasiado factível, a nossa diferença é a fantasia

por Maíra Vasconcelos

*leitura da a-crónica aqui: 110205_001

Sempre soube das vozes, bastava ficar em silêncio. Essa necessidade de construir cada tom de voz. Também, a capacidade de desmerecer a própria voz. Às vezes, é tão necessário apenas deixar de falar. Não dar continuidade, cortar, refazer, esquecer como se quisesse sempre nascer em outra. Outra que ainda não vi. Mas que também irá novamente se esquecer como sintoma da repetição do apagamento de si mesmo.

E assim prosseguir. Escrever para o jornal é assim como dramatizar e amar o teatro. Afinal, o teatro é solar, escrevi isso há quase três anos. Também, aqui no jornal.

Então, esse emaranhado de tarefas trabalhosas para sustentar as vozes. Uma hora fala-se de mulheres rindo à beira de um abismo, outra hora fala-se das montanhas, das ruas, da polis ou de tudo isso o contrário, como a morte. Depois, todas as vozes em algum momento serão esquecidas para que o corpo possa estar apenas com as estações e o clima. Notem, o corpo ocupa uma preocupação estacional. Olhar o sol e gostar do sol. Assim como para fingir que não estou a perfilar uma personagem escritora. Entende? Para mentir. Além do mais, tudo o que está nesse jornal é demasiado factível. A nossa diferença é a fantasia.

A voz literária pode virar eco no tempo. Mas nada disso é certeza alguma. A voz renasce ou também não renasce. Tem gente que não deixa a voz morrer e vira uma murrinha arrastada. Eu mesma já matei várias vozes, apenas porque escrever é se desfazer e voltar a refazer. Não sei ainda onde está o próprio fazer. Entende? Talvez esteja resumido nas mãos que trabalham. Ah. E vozes também passam de moda. Virou até manchete de jornal por provar o decaimento de uma época. O tempo é muito importante.

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