O lobo em pele de lobo, por Douglas Portari

O lobo em pele de lobo, por Douglas Portari

Houve um vilarejo certa vez, lugar de muitos problemas, como todo vilarejo, mas também próspero, pleno de possibilidades. Lugar de gente obediente aos velhos senhores, que mantinham sua vontade menos pela força aparente que pela persuasão disfarçada. Décadas e décadas dizendo às gentes o que pensar, como pensar, quando pensar. Nas ordens diárias ou nas diversões consentidas, no ensinamento e no trabalho, o lugar que cabia a cada um era repetido, reiterado, repisado.

Quando, então, outro grupo de senhores surgiu com uma afrontosa ideia de que as coisas poderiam ser de outra forma, os velhos senhores gritaram “Lobo!”. E décadas se passaram acusando-os de licantropias e bradando sobre os perigos de suas ideias. Um dia, porém, as gentes deram ouvidos aos novos senhores e às suas novidades, muitas delas boas. Mas não tardou para os novos senhores se assemelharem aos velhos senhores, que de suas tocas continuavam “lobo, lobo, lobo!”.

Enfim, incitadas pelos bumbos do coro monocórdio, as gentes escorraçaram os novos senhores, esqueceram-se do que era bom, e a eles atribuíram só a maldade. Os velhos senhores sorriram e disseram “tudo agora volta ao normal e a paz reina mais uma vez em nosso vilarejo”. Mas as gentes os ignoraram, pois não mais acreditavam nesses velhos. Deles, restou apenas o “lobo, lobo”. Estavam surdos a tudo que não fosse os ecos infernais de falsos profetas e seus próprios ódios.

Escolheram, assim, um novo mestre, aquele que prometia vingá-los e trazer de volta o tempo dos caçadores, pois só estes podiam acabar de vez com os lobos. Horrorizados, os velhos senhores admitiram que os novos senhores eram apenas cordeiros em pele de lobo, que não havia por que temê-los. Mas era tarde. As gentes agora obedeciam somente ao caçador e à sua horda e assim tiveram início as grandes fogueiras e os banquetes profanos.

Primeiro foram consumidos os novos senhores; depois os fracos, e então os diferentes, os descontentes, até que os bumbos vibraram para os velhos senhores. Quando não havia mais a quem devorar, o caçador ordenou às gentes que trouxessem seus próprios filhos. Só então elas souberam que estavam diante do lobo em pele de lobo. E daquele lugarejo, certa vez lugar de problemas, mas também de possibilidades, agora triste e maldito, nunca mais se ouviu falar.

 

 

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