O olhar canino, por Rui Daher

Em cabo-de-guerra, sou mais um novo cachorro, ela um gato. Diz felinos terem mais a ver com escritores. Lembro de alguns. Como não o sou, continuo com os expansivos cães.

O olhar canino, por Rui Daher

Fui nascido e criado em apartamentos do centro velho de São Paulo. Largo e Viaduto Santa E(I)figênia (até hoje a Cúria Metropolitana não me esclareceu a correta grafia). Depois, mudamo-nos, pai, mãe e filho único, para a Avenida Rio Branco, de onde podia me deslocar da Estação e Praça da Luz ao Largo Paissandu, igreja de negros, com extrema e infante mobilidade.

Talvez, por velho, com essas e velhas plagas até hoje me identifico.

Desde criança estive acompanhado de cães. Também de gatos, mas aí foram traquinagens posteriores de minha mamãe, quando viva, e até hoje de Cléo, minha incorrigível mulher, na saga deste “bêbado ateu, cantor, poeta”. (Eduardo Gudin).

Em cabo-de-guerra, sou mais um novo cachorro, ela um gato. Diz felinos terem mais a ver com escritores. Lembro de alguns. Como não o sou, continuo com os expansivos cães.

Em minha vida, o primeiro foi o Lorde, um pastor-alemão que dividia o espaçoso apartamento em que morávamos. Lindo, acompanhou-me em sintonizada tristeza sempre que os sinos do Colégio de São Bento, no Largo, me chamavam à tortura de missas e aulas. Esperava minha volta na janela. Lá vinha o gordinho uniformizado atravessando o viaduto para receber suas lambidas.

Mais tarde, ano após ano, e até hoje, eles foram se repetindo. Não importava onde minha mãe e eu morássemos. Poucas vezes o destino interrompeu essa saga. De raças e pedigree aos vira-latas, todos eles valeram, em carinho, apoio e amor. Sobrevivência humana.

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Heróis de meu viver, muito prolongado, porém suficientes para aguentar a chegada da finitude e de seu apagar. Animem-se, pois, detestáveis bolsominions, escórias do trem da história e ratos de esgoto (ver e ouvir Zeca Baleiro). Não são nada!

Depois da Filó (Odonir, amiga, salve Luna), guerreira aqui já exposta, temos em casa a Duda, uma bigoduda, largada na porta de nossa casa numa véspera de Natal. Baixinha e valente, como todos nós que usamos o cérebro e não a altitude. Certo, editora? Se não, estaríamos fazendo enterradas no basquete.

Quero uma companheira para ela. Vez ou outra tive a sensacional e meiga presença da Raja, que pertence à minha filha. Hoje em dia, percebo ter sido interditado. Acontece com avôs pouco comportados.

Mas é assim que caminha a humanidade. E nela, a contragosto, ainda estou.

Semana passada fui apresentado a Scooby, bonito e de olhar meigo, como a Raja de minha filha. Pertence ao dono de um “Espetinho”, em Piedade (SP). Depois do trabalho na fábrica, e antes de voltar à capital, lá me desintoxico em afetividade, leveza etílica, e espetinhos variados preparados com muito capricho pelo amigo Rodrigo. Corações de frangos, para iniciar.

Na tarde passada, o olhar de Scooby me fez voltar a todos cães que me acalentaram. Todos como o Lorde, primeiro. Meigo, pedinte, suplicante, amoroso, pródigo em apoio e fidelidade devolutos.

Esse sempre será o olhar de todos eles, estejam à beira de mesas pobres ou ricas. Não podemos diferenciá-los. Nem devemos. Não merecem qualquer olhar crítico, amedalhados ou não. São insuperáveis.

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Conformam-se. Inalterados e neutros aos bem e mal. Mais felizes do que nós, entretanto, que nos permitimos avaliá-los. Infelizmente, alguns humanos os discernem, outros ignoram, e os mais imbecis seguem seus umbigos cegamente. Acham-se escolhidos por Deus (quem?), outros por suposto mérito em que apostam. Quem comprova tais pretensões?

No Dia da Consciência Negra e, por muitos anos, acompanho e apoio a causa negra ou preta (black? Os movimentos já divididos).

Branco, deixo a vocês decidirem bobagens terminológicas. Há coisas mais importantes a discutir. Pobres assassinados pelo sistema são brancos, amarelos ou indígenas, como pretos. O Haiti é aqui, nos lembraram Caetano e Gil.

Então concluo e, com todo o respeito, e o risco de má interpretação, deixo meu sentimento.

Os olhos de negros, pretos e mulatos parecem os de nossos cães, sôfregos, esperando justiça que devemos desde a nossa colonização?

Inté!

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2 comentários

  1. O Córrego na entrada de Piedade / SP no Bairro dos Leites ainda pede socorro. Socorram !! Paraíso da Mata Atlântica que está florescendo em Manacás da Serra. Espetaculares !!! A descida da Serra do Mar por Tapiraí / SP, passando pela ‘Cabeça da Anta’ rumo a Juquiá, Registro, Ilha Comprida, BR 116, Pariqueraçú, Fazenda Intervales, Caverna do Diabo, Ribeira de Iguape, Ilha do Cardoso, Juréia,….entre morangos, caquis, peras-asiáticas, cebolas, inhames, arroz, búfalos, carás, gengibres, palmitos, bananas, bananas e mais bananas. Todos Brasileiros deviam conhecer tal Paraíso. Todo Estudante Brasileiro deveria ter a oportunidade e privilégio de conhecer este ‘Pedaço Espetacular do seu Brasil’.

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