O Papa e o Diabo no Recife, por Urariano Mota

Os registros são implacáveis. Eles mostram que o Papa desceu para nós em 1980, no santo dia 7 de julho. As notícias até falam que Ele rezou uma missa à tarde

O Papa e o Diabo no Recife

por Urariano Mota

Nesta semana, quase tomei um choque ao pesquisar e descobrir que O Santo Padre João Paulo II visitou o Recife há quarenta anos. Essa é mais uma prova de que depois dos 60 o tempo passa muito depressa. Quarenta do Papa no Recife já?! O certo é que os registros são implacáveis. Eles mostram que o Papa desceu para nós em 1980, no santo dia 7 de julho. As notícias até falam que Ele rezou uma missa à tarde, às 17 horas e 10 minutos, se forem  verdadeiras estas informações do Jornal do Commercio:

“Uma grande manifestação de fé mobilizou a cidade na passagem do papa João Paulo II pelo Recife, nos dias 7 e 8 de julho de 1980. Já na Base Aérea, a recepção calorosa do então arcebispo de Olinda e Recife, dom Hélder Câmara, plenamente correspondida por Sua Santidade no abraço espontâneo ao arcebispo, deu o tom da visita papal, que durou menos de 24 horas. Da chegada ao aeroporto no Ibura, às 15h30 – onde foi recebido pelo governador Marco Maciel, pelo prefeito Gustavo Krause e por dom Hélder Câmara – até o embarque na manhã do dia seguinte rumo a Salvador, milhares de pessoas, entre elas centenas vindas de todo o Nordeste, saudaram João Paulo ao longo de todo o trajeto, que incluiu as avenidas Mascarenhas de Moraes, Boa Viagem e Antônio de Góis, até o altar erguido sobre o Viaduto Joana Bezerra, onde o Santo Padre celebrou, às 17h10, uma missa campal acompanhada por aproximadamente 300 mil pessoas, que se acotovelavam no local desde o início da tarde….”.

Não vem ao caso aqui mostrar a imprecisão do número de pessoas nesse registro. O arquivo do jornal fala em milhares de pessoas, embora saibamos que foram ver o Papa cerca de dois milhões. A notícia fala em uma assistência de 300.000 pessoas à missa, mas esquece que a santa missa foi transmitida pela televisão, e todos, todo ser vivente no Recife, em Olinda, em Pernambuco, todo o mundo assistiu a essa missa. Digo todos e acrescento, até nós. Sim, até nós, os ateus, os degenerados, os maldizentes da vida, os insatisfeitos contra o céu e contra as coisas do espaço aéreo, da terra, todos que estávamos na casa do Gordo, que estava e vivia em um domingo de segunda-feira. Agora entro com a precisão da memória, aquela que guarda a essência e despreza que o 7 de julho de 1980 era uma segunda-feira. Um feriado, portanto, na maior nação católica do mundo, sabe Deus o que isso quer dizer.

Entremos. Na sala estamos eu, o Gordo, Marcão, Tarcizo Galego, Zé Correia, o negro mais jovem de todos nós, e Semadá, a professora de História, pálida e de óculos e de ar blasé, e Marcelino, o fiel escudeiro do Gordo, seu segundo a segui-lo e persegui-lo, e Givaldo, com o seu humor feroz. Em uma palavra, uma gangue. (O que eu não daria para rever e reaver uma vez só todos esses delinquentes!) E, claro, a mãe do Gordo, dona Dagmar, mais a irmã do Gordo, irmãos, e sobrinhos, tudo isto de mistura a nós. Uma família promíscua, portanto. É impressionante, a memória e a lógica não conseguem explicar como cabia tanta gente em um só lugar, naquela casa pequena, de uma rua estreita, que dava para uma praia suja em Rio Doce. Mas talvez o mais impressionante seja a falta de uma briga, de luta corporal mesmo, de agressões físicas, de sangue, quando se encontravam em um espaço curto, estreito, tantas pessoas sufocadas, em luta permanente até contra o próprio íntimo. Não sei por quê. Posso apenas imaginar que nos reuníamos como companheiros, ainda que estivéssemos em credos e partidos e opiniões distintas. Éramos todos companheiros, de maldição.

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Naquele falso domingo estávamos uma vez mais bebendo. Claro, esta era nossa exterior unidade. Beber, beber, e comer, aqui e ali. E não posso deixar de lembrar, ainda que de passagem como um raio, que “comer bem” para nós era comer até não poder mais respirar. Abarrotar completo. E beber muito, na medida de nossas carências, era beber até o vômito, que era a consumação das consumações. “Vomitei”, ah, que farra. Estávamos todos, pois, predispostos a um ato cujo exórdio era o álcool. Bebíamos, com paciência e método, porque o melhor estava por vir. O Papa !

Dona Dagmar sempre soube que não acreditávamos em Deus. Mas esse conhecimento, ainda que não trouxesse uma aceitação de nossas ideias, possuía pelo menos uma transigência, um conviver sábio, porque éramos, devíamos ser, bons meninos. Ela desconfiava que apesar de ateus não podíamos ser tão maus assim, porque afinal éramos amigos do seu filho, o seu mais velho filho, o homem que pelo estudo, pela instrução, conseguira tirar a família da extrema pobreza. O Gordo, o senhor Antonio Luís da Silva, era graduado em História e funcionário do Banco do Nordeste do Brasil, onde ingressara por concurso público. E não só nisso residia a sua excentricidade. Diferente de tantos filhos do povo que, ao ingressarem em um meio onde antes seus pais só entraram como criados, mudam comportamentos, modos e palavras, o Gordo, de perfil de Balzac e senso de humor de Sancho Pança, amava aquela gente como se ela fosse a própria redenção. Isso significa que ele, longe de possuir uma vergonha pela mãe e avó analfabeta, possuía orgulho da singularidade daquelas bravas mulheres. Dona Dagmar, não poucas vezes, era assunto de nossas conversas no bar, e, aqui para nós, nisto ele era meio cruel, porque me fazia lembrar por vias indiretas da minha, com quem tão pouco vivi. O fato é que Dona Dagmar sempre soube que não acreditávamos em Deus. Mas com poderes e lógica que somente a complexidade humana pode explicar, ela nos perdoava, enquanto para o filho ela mais de uma vez disse, “Você acredita em Deus e não sabe”. O Gordo sempre sorria muito disso.

Por isso esperávamos O Papa, a missa papal, como se fôssemos Berlim Oriental e Ocidental em uma mesma sala. E bebíamos. Enquanto a missa não vinha, era possível a televisão ligada e os frevos em discos da Mocambo, em vinil, a rodar. O Galego perguntava:

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– Quem é maior, Capiba ou Nelson Ferreira?

Isso era mais que uma pergunta. Em Tarcizo Galego era um método, a saber: todas as vezes em que a conversa esmorecia, em que o tédio se anunciava – sim, acreditem, em meio à angústia é possível o tédio -, o Galego propunha um desafio. E como discutir para nós era o mesmo que correr argumentos sob cerveja, o Galego jamais ficaria a beber sozinho enquanto houvesse uma polêmica. Por isso ele perguntava:

– Quem é maior…?

Eu sempre achava que era Nelson Ferreira, o Gordo achava que era Capiba, e a manhã e o começo da tarde avançavam. Semadá, não, única mulher – de fora, das “nossas” – àquela altura reinava absoluta, e, justiça seja feita, naquele mar de desolação até o seu ar blasé possuía um irresistível encanto. Ela não discutia, bocejava, enquanto lançava redes e dardos. Correia sorria, gargalhava, e de repente sumia com a sobrinha do Gordo, rumo às areias distantes da praia. Na volta, ao vê-lo manso e em paz, Dona Dagmar cochichava aos ouvidos do filho:

– A serpente perdeu a peçonha.

Mas quem era maior? Marcão, ou Marco Albertim, acompanhava interessado o que ele chamava de “tertúlia etílica”. Givaldo se inclinava para o Gordo, e Marcelino, claro, apoiava incondicional o Gordo, como só os discípulos apoiam. Um apoio feito de voz em falsete, para nosso maior desespero. Eu ficava praticamente só, ainda que fosse uma solidão a que os partidários de Capiba piscavam um olho, como se dissessem, “Isso é como torcer pelo Sport Club do Recife ou pelo Santa Cruz – ambos são grandes. O mais é destino”, A tarde avançava.

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Ora, quis o Diabo então que às cinco em ponto da tarde todos entrássemos em silêncio forçado, em respeito a Dona Dagmar, senhora católica, crente dos poderes e infalibilidade papal. Assinamos como por encanto uma trégua, um acordo, sem papel. Os frevos pararam de rodar, e ficamos todos, em tensão máxima, aos murmúrios, pois o respeito àquela mulher do povo assim exigia. Escrevi certo? Eu creio que sim, porque o respeito somente poderia ser a ela, nunca ao Papa nem a seus sacrossantos dogmas, está visto. Por isso o Diabo, os demônios, em nova conjura assestaram e acertaram um tento na pessoa de um dos nossos. Em mim, estava escrito. No minuto santo, magno e piedoso em que o Papa se preparava para distribuir a hóstia em santa comunhão, o que faz o Demônio? Ele me toma o corpo, a mão, o espírito, a alma, e faz com que ele em mim se dirija em silêncio à cozinha, e lá encha vários copos de aguardente, ponha-os em uma bandeja, e arranque pedaços de pão do armário, divida-os bem divididos, e, assim posto em papel de sacerdote das trevas, retorne à sala e distribua o álcool e o pão hereges enquanto Deus era servido em comunhão na tevê. Marcão, Semadá, Givaldo, Marcelino, Zé Correia, todos comungaram. Mas, safados, comungaram inocentes, alheios e alienados ao instante da hóstia consagrada do Papa. Melhor dizendo, beberam, com toda educação e respeito. Eu, o Diabo, que suportasse as consequências.

O Gordo me contou o resultado disso, longe da cena do crime, uma semana depois:

– Minha mãe me chamou naquele dia na cozinha e me disse: “olha para as minhas mãos”. As mãos de Dona Dagmar tremiam.

Somente muito tempo depois pude voltar à casa do Gordo. Dona Dagmar fez de conta que de nada mais se lembrava. Mulher sábia, a perturbação no reencontro foi minha. Imagino que ela compreendeu ao fim que filhos de Deus ou do Diabo todos temos o mesmo destino.

*Vermelho https://vermelho.org.br/coluna/o-papa-e-o-diabo-no-recife/

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