O pistoleiro Billy the Kid e o deputado Eduardo Bolsonaro, por Sebastião Nunes

Nesse caos de catinga e carapinhas, gozou do primado que concedem as sardas e uma melena avermelhada. Praticava o orgulho de ser branco; também era mirrado, bravio, soez

O pistoleiro Billy the Kid e o deputado Eduardo Bolsonaro
Por Sebastião Nunes

“Por volta de 1859”, relata Jorge Luis Borges, “o homem que, para o terror e a glória, seria Billy the Kid, nasceu num cortiço subterrâneo de Nova York. Dizem que o pariu um fatigado ventre irlandês, mas que se criou entre negros. Nesse caos de catinga e carapinhas, gozou do primado que concedem as sardas e uma melena avermelhada. Praticava o orgulho de ser branco; também era mirrado, bravio, soez”.

[Como sinônimo de soez podemos escolher entre ordinário, vulgar, vil, indigno, torpe, grosseiro, reles e baixo. Qualquer um deles – ou todos – se aplica.]

“Aos doze anos, militou na quadrilha dos ‘Swamp Angels’ (Anjos do Pântano), divindades que operavam nas cloacas. Em noites cheirando a névoa queimada, emergiam daquele fétido labirinto, seguiam o rumo de algum marinheiro alemão, desmoronavam-no com uma bordoada, despojavam-no até da roupa de baixo e se entregavam em seguida à outra imundície. Comandava-os um negro encanecido, Gas Houser Jonas, também famoso como envenenador de cavalos.”

“Às vezes, da janela da água-furtada de alguma casa corcunda perto da água, uma mulher virava sobre a cabeça de um transeunte um balde de cinza. O homem se agitava e se afogava. Em seguida, os Anjos do Pântano pululavam sobre ele, arrebatavam-no pela boca de um porão e saqueavam-no.”

“Tais foram os anos de aprendizagem de Bill Harrigan, o futuro Billy the Kid.”

 

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Retomando Borges e sua narrativa:

[Numa] “desordenada noite do ano de 1873 (…), de repente, e numa arriscada taberna, fez-se silêncio total. Entrou um mexicano mais do que fornido, com cara de índia velha. Transborda num excessivo sombreiro e em duas pistolas laterais. Em duro inglês deseja as boas-noites a todos os gringos filhos de cadela que estão bebendo. Bill pergunta quem é, e lhe sussurram temerosamente que é o Dago – o Diego – Belisário Villagrán, de Chihuahua. Uma detonação reboa em seguida. Parapeitado por aquele cordão de homens altos, Bill disparou sobre o intruso. O copo cai da mão de Villagrán, depois todo o homem. Não precisa de outra bala.”

“Já se adivinha a apoteose. Bill concede apertos de mão e aceita adulações, hurras e uísques. Alguém observa que não há marcas em seu revólver e lhe propõe gravar uma para significar a morte de Villagrán. Billy the Kid fica com a navalha desse alguém, mas diz ‘que não vale a pena anotar mexicanos’.”

 

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“Dessa feliz detonação (aos catorze anos de idade) nasceu Billy the Kid, o Herói, e morreu o furtivo Bill Harrigan. (…) O meninote da cloaca e das pedradas ascendeu a homem da fronteira. Fez-se cavaleiro, aprendeu a montar ereto no cavalo, à maneira do Wyoming ou do Texas, não com o corpo jogado para trás, ao modo do Oregon e da Califórnia. Não chegou nunca a se parecer, de todo, com sua lenda, mas dela se aproximou bastante. Algo do cafajeste de Nova York perdurou no cowboy. Dedicou aos mexicanos o ódio que antes lhe inspiravam os negros.”

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“Com a lucidez atroz da insônia, organizava populosas orgias, que duravam quatro dias e quatro noites. Afinal, com asco, pagava a conta com balaços. Garrett, o xerife que o matou, disse-lhe certa vez: ‘Eu exercitei a pontaria matando búfalos’. ‘Eu ainda mais, matando homens’, replicou suavemente. Os pormenores são irrecuperáveis, mas sabemos que deveu até vinte e uma mortes – ‘sem contar mexicanos’.”

“Na noite de 25 de julho de 1880, Billy the Kid atravessou no galope de seu malhado a rua principal, ou única, de Fort Sumner. O comissário Garrett, sentado em certa cadeira de balanço de um corredor, empunhou o revólver e disparou-lhe um balaço no ventre. O cavalo seguiu; o cavaleiro desaprumou-se na rua de terra. Garrett encaixou-lhe um segundo balaço. A agonia foi longa e blasfematória. Já com o sol bem alto, acercaram-se dele e o desarmaram; o homem estava morto. Notaram-lhe o ar de objeto fora de uso que têm os defuntos.”

 

FARSA MODERNA

Quase 140 anos depois, um valentão urbano posta-se com arrogância ao lado do pai numa cama de hospital, exibindo um revólver ostensivo na cintura. Tão ostensivo que, aberto o paletó para mostrá-lo, parece ameaçar de morte, não apenas vinte e um negros ou mexicanos, mas todos os que não rezarem pela sua cartilha.

Não fosse filho de um presidente da república, ao qual se pediria um mínimo de compostura, poderia ser confundido com um matador de aluguel bem vestido.

Billy the Kid foi produto de fedorento esgoto nova-iorquino. Com sua aparência truculenta, Eduardo Bolsonaro sugere ter sido excretado por algum esgoto carioca e ser apenas capaz de seduzir valentões de sua estirpe.

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Billy the Kid odiava negros e mexicanos. Eduardo Bolsonaro parece odiar todos os que não pensam como ele.

 

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(O texto de Jorge Luis Borges transcrito acima, reduzido e com breves alterações, integra a segunda edição brasileira de “História Universal da Infâmia”, e foi lançado pela Editora Globo, em 2001, com tradução de Alexandre Eulálio)

 

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