O que é a vida?, por Janderson Lacerda

Vinicius de Moraes dizia que a vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida

O que é a vida?

por Janderson Lacerda

Antônio Abujamra, ator, diretor e apresentador, morto em 2015, apresentou durante anos o icônico Provocações, um programa de entrevistas exibido pela TV Cultura. Nas entrevistas, independente do convidado, Abujamra sempre perguntava: o que é a vida?

O questionamento existencial dava charme ao programa e, perdoe-me pela redundância, provocava os entrevistados. Mas, afinal o que é a vida? 

Vinicius de Moraes dizia que a vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.  Talvez esta seja a melhor definição… Ou quem sabe a vida seja, exatamente, o que antecede os encontros e desencontros. Isto é, a espera!

Você já percebeu que por mais imediatistas que sejamos passamos pela vida à espera de algo?

Mesmo sem a consciência de nossa própria existência esperamos nove meses para nascer. E quando emergimos, a primeira coisa que fazemos é respirar. A libertação de pressão no tórax faz com que o ar seja aspirado para dentro dos pulmões – um esforço tremendo para um recém-nascido. O conforto se dá quando somos lançados nos braços acalentadores de nossas mães. Mas, em seguida somos retirados e enfrentamos uma bateria de testes para mostrarmos que gozamos de plena saúde — e assim vem à espera. Esperamos, mesmo sem lucidez, a oportunidade de nos encontrarmos com aquele ser perfeito que chamaremos de mãe. Quando o reencontro se dá a vida recomeça e para! Ou melhor, um exercício de paciência e espera inicia-se, até saltarmos do colo de nossas mães para o mundo… Vem à escola e a necessidade de esperar a aula, o recreio, a prova e a hora de entrar e sair… A vida segue não no vai e vem, mas na fração de tempo que marca a esperança de um fato novo ou mesmo do cotidiano.

Esperamos para aprender, para comprar, para pagar, para amar, para morar. Esperamos para comemorar, viajar, desistir, terminar, para seguir com o carro nos intransitáveis congestionamentos das grandes cidades — esperamos!

E quando a vida chega ao fim à espera não morre. Nosso corpo, herança para os vermes, é esperado com ansiedade para saciar a fome dessas larvas que irão corroer-nos lentamente… No IML esperamos ser atendidos pela última vez neste mundo. Os pobres, vítimas da violência e brutalidade social, esperam por mais tempo a chegada do rabecão. A desigualdade rouba a rapidez do relógio e aumenta a espera!  

No velório, esperamos o pranto e o luto das pessoas; enquanto as mesmas pessoas esperam que nossa carcaça desça à sepultura. E quando finalmente isso acontece e a vida finda a espera continua para aqueles que creem na existência eterna. Os católicos “pecadores” esperam no purgatório a promessa do céu; já os “salvos” esperam pelo juízo final. Os muçulmanos esperam o encontro com as 72 virgens no paraíso. Os espíritas esperam a reencarnação. Espera, espera e espera: a vida é a interminável arte da espera…

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