O sapo é o dono do brejo, por Helio Rocha-Pinto

O sapo é o dono do brejo

por Helio Rocha-Pinto

Estava aberta mais uma sessão do Sapientíssimo Tribunal da Fauna, o fórum máximo ao qual os animais levavam suas queixas e pendências. Onze magistrados, representantes das mais variadas espécies, julgavam os pleitos e definiam sentenças. Eram eles o buldogue e seu protegido, o poodle, a raposa, o pavão, o mocho, o peru, a toupeira, a preguiça, a hiena, o caxinguelê e uma vacilante gralha, que os presidia.

Há algumas semanas, nada de relevante havia para ser decidido. E também naquele dia as audiências se seguiam comezinhas, sem muita empolgação. A preguiça já contava as horas para poder dormir. Mas, a tantas, apresentou-se a ratazana, que fez uma declaração bombástica: — O sapo é o dono do brejo!
A acusação soa gravíssima, embora não fique exatamente claro por quê. Vários membros do tribunal tentam falar ao mesmo tempo. A gralha pede que a ratazana explique melhor sua queixa, enquanto a hiena ri maldosamente, como de costume.

— O sapo finge não ter onde morar, para não pagar os tributos devidos à Sua Majestade, o Leão. Mas ele é o dono do brejo, onde reina despudoradamente e zomba de todos nós. Este tribunal tem o dever de condená-lo e desterrá-lo!

A raposa se adianta: — Estarrece-me tal ofensa aos sagrados direitos de nosso rei. Nenhum animal pode outorgar-se a posse de um território sem a régia autorização.

O buldogue, temido e raivoso, mantinha a cenho inamistoso, enquanto o poodle saltitava-lhe ao lado, à espera de alguma ordem. Pela carranca, estava claro que iria condenar o sapo; só não sabia ainda por qual crime.

Já o empávido pavão queria logo determinar a pena, pois se julgava o senhor das mais belas penas. Mas o mocho lhes relembrou que precisavam ouvir o sapo e sua defesa.

— O sapo visita o brejo, às vezes, mas não é dono do local. Também costuma ir ao rio, à lagoa, ao manguezal, e até à campina. Vai aonde encontra comida. Sua Majestade não impede que os outros animais se alimentem em seus domínios — informou o distinto pelicano que defendia o anuro.

A ratazana fez troça da resposta do pelicano, afirmando que todos sabiam que o sapo era dono do brejo, pois coaxos são ouvidos frequentemente por lá.

— Devo lembrá-los de que rãs e pererecas também coaxam, e não apenas o sapo. Ademais, em qualquer dia que os distintos magistrados visitarem o brejo, ouvirão uma profusão de vozes de animais: o canto da cigarra, a guizalha do grilo, o zumbido da mosca, o arruo do javali, … Se voz for indício de posse, devemos considerar que o brejo pertence a todos eles? Tenho inclusive certeza de que lá se ouve bem alto o guincho animado da senhora ratazana.

O mocho arregalou os olhos, cada vez mais interessado no que ouvia, enquanto a ratazana se contorcia de raiva, pois não podia negar que ao brejo também ia se banhar e acasalar. Diante da brilhante argumentação do pelicano, a gralha até tentou dar por encerrado a questão, mas a ratazana chamou uma mula como testemunha de acusação.

Ela chegou escoiceando e logo declarou: — O sapo é dono do brejo!

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Nova comoção entre os representantes do tribunal. A hiena ria, ria, sequiosa de uma condenação, enquanto o caxinguelê se encolhia mais e mais, angustiado. O pelicano pediu a palavra e interrogou à mula se ela já tinha estado no brejo, ao que ela respondeu negativamente, pois era um animal de fazenda.

— O depoimento da mula não é válido, posto que ela não testemunhou fato algum. — concluiu o defensor do sapo.

A mula teimou que sabia do assunto, pois tinha ouvido do papagaio. Fez-se uma pausa para localizarem o papagaio e trazê-lo ao tribunal. A essa altura, um morcego, vários patos e alguns abutres ajuntavam-se ali perto para acompanhar o julgamento.

Chega o papagaio e a ratazana começa a interrogá-lo: — Nobre senhor, não é verdade que papagaio não mente?

— Papagaio não mente! — declarou a ave irriquieta.

— Todos afirmam que o papagaio sabe das coisas que acontecem por aqui. — ela prosseguiu, com calma, tentando ser didática.

— O papagaio sabe das coisas que acontecem por aqui!

E então convidou-o a concluir: — Pode então confirmar que o sapo é o dono do brejo?

— O sapo é o dono do brejo! — o papagaio sentenciou, enquanto olhava para o alto e coçava a cabeça com o pé direito.

O peru perdeu a paciência e grugrulhou dislalicamente: — Cgeio que já está clago o bastante que esse anfíbio é um foga da lei. Vamos tegminag isso e condená-lo!

Mas o pelicano, inabalável, esclareceu a questão: — Tenho por mim, e isso não é segredo algum, que o papagaio repete tudo o que ouve.

— O papagaio repete tudo o que ouve! — disse a testemunha, que agora lambia as penas.

— Então podemos supor que alguém instruiu o papagaio a mentir.

— Alguém instruiu o papagaio a mentir! — confessou a ave distraída.

Os representantes do tribunal cochicharam entre si, desorientados e divididos.

A ratazana começou a suar de nervosismo e passou a roer as garras das patinhas. Seu suor é horrivelmente fedorento, e a catinga incomoda a todos, inclusive aos abutres. Seus olhos fulminavam ódio ao pelicano que vinha conseguindo desmontar sua queixa. Mas ela guardara para o fim seu trunfo: — Eu sei que o sapo é o dono do brejo, pois um passarinho me contou!

— A senhora quer trazer outro papagaio? Ou dessa vez será um tucano?

— Nada de papagaios falastrões. Convoco a essa corte o muito honrado joão de barro!

O sapo, que assistia a tudo calado, demonstrou preocupação. A corte inteira ficou em silêncio, pois o joão de barro tinha uma reputação para lá de conceituada.

A ratazana parecia mais confiante, enquanto o joão de barro mostrava-se ressabiado, pressentindo algo estranho. Ela questionou a atividade do joão de barro, e ele respondeu que construía casas, uma das quais ficava junto ao brejo.

— Conta-se que o sapo exigiu que o senhor construísse para ele uma grande casa à beira do brejo, para que ele de lá reinasse. — instigou a ratazana.

O joão de barro conhecia o sapo e dele se afeiçoava. Não iria mentir.

— Isso é boato infundado! A única vez que o sapo falou comigo sobre casa foi para elogiar a minha.

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— Então porque você e sua família não moram mais na casa lá construída? O sapo, que é dono do brejo, a tomou de vocês?

— Eu gosto de construir casas e mudo-me ao longo do ano. Atualmente moro num descampado. Quando a primavera voltar, retornarei ao brejo, que, por sinal, não pertence e nunca pertenceu ao sapo.

O passarinho parecia falar a verdade, mas não era a verdade que a ratazana queria ouvir. Enquanto o pelicano pedia a palavra para argumentar que não havia qualquer prova acerca da culpa do sapo, a ratazana abordou o joão de barro:

— Interessante… Em que parte exatamente do descampado? Sabe, eu nunca lhe disse que tenho um grande apetite por ovos de passarinho.

O joão de barro ficou branco de pavor e tentou sussurrar, embora não tenha sido difícil aos demais ouvirem: — Por favor, não faça nada com minha família!

Na ratazana só se via um esgar mal formado, enquanto ela lambia os dentes e encarava o pássaro, que por fim piou alto:

— Excelências! Perdão! Eu menti agora há pouco! Menti por medo do sapo! Ele assustava meus filhotes com seu ronquejo sombrio e acabou por me expulsar do brejo. Hoje ele se refastela em minha antiga casa, que transformou em seu palácio. — e, pedindo licença, voou apressado para longe do tribunal, disposto a se mudar para longe do alcance da ratazana.

O buldogue começou a latir para o sapo, seguido em dó sustenido pelo poodle. A hiena mostrava os dentes, numa garatuja de escárnio e ameaça. A gralha pedia calma, enquanto o pelicano apresentava uma questão de ordem:

— Senhores, houve aqui uma coação explícita para que a testemunha acusasse o réu. Todos ouviram a ratazana afirmar que comeria os ovos do joão de barro!

Sim, eles ouviram. O mocho acusou ter ouvido. A preguiça também, mas se limitou a menear. Os demais certamente, mas nada disseram. O julgamento já tinha tomado tempo demais e não queriam admitir que a ratazana os ludibriara com aquela história ridícula. A gralha e o buldogue conversaram sobre o que fariam para não se desmoralizaram ainda mais, quando um leve coaxo tomou-lhes a atenção.

O sapo queria falar. O pelicano afirmou não ser preciso, mas o sapo queria falar. E falou:

— Até agora fiquei em silêncio. Mas eu realmente não sei porque estou aqui. A ratazana sabe muito bem que eu visito o local às vezes, como ela faz. Não sou dono dessa tranqueira coisa nenhuma. Tenho grande respeito pelo papagaio, pela mula, por todos os senhores, inclusive pelo joão de barro. É verdade o que ele disse, que elogiei sua casa. Mas não ocupo sua casa. A única vez que lá entrei foi quando fugia de uma cobra, mas fiquei apenas até ela rastejar para longe.

O sapo falou com humildade e esperava reciprocidade dos seus juízes. Mas sua sinceridade selou sua sorte… O tribunal foi tomado por um vozerio animalesco. Grasnidos, rosnados, uivos, chirreios, pupilos, gorgolejos… Os juizes do tribunal se exaltavam.

— Com que audácia você invade uma propriedade alheia que estava vaga? — inflamou-se a gralha, tomada de coorporativismo ornitológico.

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— Só invadiu a casa do joão de barro porque se sente o dono do brejo — asseverou a raposa.

— Uma criatura asquerosa como você não pode nunca aspirar uma casa nas alturas, muito menos pôr nela esses pés lamacentos — ralhou o pavão.

O pelicano tentou contrapor que o sapo apenas se protegia, mas eles já estavam convencidos.

— Invadiu a casa para evitar ser engolido pela cobra? Ora, ele tentou evadir à Lei da Natureza! Mas não escapará da lei dos animais — acusou a hiena, com sede de punição nos olhos.

Passaram ao veredicto. Gralha, raposa, peru, buldogue, poodle, pavão e hiena concluíram que o sapo era culpado de pretender ser o dono do brejo ao invadir a casa do joão de barro. O mocho considerou que o sapo era inocente, pois tinha agido em legítima defesa. A preguiça pensava o mesmo, mas não quis se estressar e se absteve, caindo no sono.

— Posso condená-lo, posso mesmo? As leis permitem, né? — questionou a toupeira ao buldogue, antes de juntar-se ao voto majoritário.

Faltava apenas o caxinguelê. O sapo olhou-o consternado, esperando que aquele pequeno e tímido bicho entendesse a dificuldade de viver na floresta entre grandes predadores. O caxinguelê olhava a todos atônito, segurando um pinhão mal roído. Tinha ouvido o julgamento inteiro, contorcendo-se a cada testemunho. Tomado de coragem, o caxinguelê se aproximou lentamente, encarou os olhos murchos do sapo, e arremessou-lhe o pinhão na cara, correndo em seguida para perto dos demais juízes enquanto gritava: — Sapo ladrão! Dono do brejo e ladrão!

Foi o que faltava para o buldogue voltar a latir e o poodle avançar, desta vez mordendo o sapo. A hiena e a raposa se juntaram e aos poucos o sapo foi impiedosamente esquartejado diante de todos, para horror do pelicano, que teve de fugir voando antes que as feras se voltassem contra ele. Nunca antes na história daquele tribunal uma sentença tinha sido movida a tanto ódio irracional.

Os abutres da plateia terminaram o festim. Esquecida ali ao lado, a ratazana sorria de canto a canto, ao mesmo tempo que tremia de medonha excitação. Nunca gostara do sapo mesmo; agora poderia ir ao brejo e mostrar a todos que devia ser temida, que ela é quem mandaria lá. Os juizes do tribunal agradeceram-lhe pela denúncia de mal comportamento do sapo e encerraram a sessão, orgulhosos pelo dever cumprido.

Os dias que se passaram foram tranquilos, quiçá bucólicos. Os magistrados estavam felizes e leves; corria que se tinham livrado dum grande peso. E plácidas também foram as sessões do Sapientíssimo Tribunal da Fauna por algum tempo, até que a ratazana voltou ao tribunal, com outra denúncia ainda mais bombástica:

— A gralha era amiga do sapo!

 

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Leia também Como o tucano se tornou o rei da floresta.

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10 comentários

  1. Já vi antes.

    Vi cada um deles alí. Até o sotaque da ratazana eu escutei. Como pintor de paredes tenho ótimo conhecimento da fauna. 

    Fiquei em dúvida, dada a veracidade, se era um documentário para a tv. Vende para a globo. 

    La Fontaine foi humilhado.

  2. Corporativismo Ornitológico

    Parabéns ao autor! Não faria vergonha ao Esopo nem ao La Fontaine.

    Eu forcei a barra, tentando identificar a $uprema Ministra Rosa Weber como a Toupeira do Tribunal da Fauna. Mas enquanto a Toupeira condenou o Sapo (Barbudo) porque as leis da Fauna lhe permitem fazer isso, a Suprema Jumenta do $TF condenou o Zé Dirceu porque a LITERATURA JURÍDICA supostamente lhe permie fazer isso.

  3. A fábula do ódio

    Esta bela fábula se encaixa quase que perfeito no cotidiano atual. Precisava contar mais do sapo antes do julgamento e de sua boa influencia  e popularidade sobre uma parte significativa da fauna local, que causava embaraço ao topo da cadeia alimentar.

  4. Somos todos sapo barbudo

    Ótima fábula. Bem escrita, engraçada, precisa e, ainda por cima, ” baseada em fatos reais”. Também vou compartilhar, com sua permissão, Hélio.

    Uma esclarecimento: não há só papagaios falastrões no reino. Segundo as pesquisas do Datagaio, mais de 90% das aves falantes fazem coro com esta aqui:

    [video:https://youtu.be/s0yZ2ajsy3g%5D

  5. Errata

    Após a publicação, não tenho mais acesso à funcionalidade de edição. Infelizmente ficaram alguns pequenos erros.

    ————–

    coorporativismo > corporativismo

    mal comportamento > mau comportamento

    não se desmoralizaram > não se desmoralizarem

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