O Segredo do Bozo, por Sr. Semana

Entre os melhores contos de Machado de Assis está O Segredo do Bonzo, ficção inspirada no relato da viagem ao oriente do navegador português do século XVI Fernão Mendes Pinto.

O Segredo do Bozo

por Sr. Semana

Entre os melhores contos de Machado de Assis está O Segredo do Bonzo, ficção inspirada no relato da viagem ao oriente do navegador português do século XVI Fernão Mendes Pinto. O conto é apresentado como um capítulo inédito do livro Peregrinação de Fernão Mendes Pinto em que dá conta de muitas e muito estranhas coisas que viu e ouviu no reino da China, no da Tartaria, no de Sornau que vulgarmente se chama Sião, … e em outros muitos reinos e senhorios das partes orientais, de que nessas nossas do ocidente há muito pouco ou nenhuma notícia, publicado em Lisboa, em 1614. Na ficção de Machado, Mendes Pinto relata a prodigiosa doutrina do bonzo Pomada, o pomadismo, que fazia enorme sucesso em Fuchéu, capital do reino de Bungo. A doutrina é que “se uma coisa pode existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existências paralelas a única necessária é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente” (Machado de Assis, “O Segredo do Bonzo” in Obra Completa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2004, vol. 2, p. 325). O conto relata várias comprovações da doutrina pelos pomadistas Patimau, Languru e Titané, concluindo com a do médico prático português radicado em Fuchéu Diogo Meireles. Fuchéu sofria então com uma doença que causava um inchamento enorme nos narizes dos infectados. Os médicos queriam proceder a extração dos narizes afetados mas encontravam resistência dos doentes. Diogo Meireles então difundiu na cidade que havia sintetizado em laboratório narizes metafísicos invisíveis, mas tais quais os narizes sensíveis. Os doentes então começaram a procurar Diogo Meireles que “desnarigava-os com muitíssima arte; depois estendia delicadamente os dedos a uma caixa, onde fingia ter os narizes substitutos, colhia um e aplicava-o ao lugar vazio. Os enfermos, assim curados e supridos, olhavam uns para os outros, e não viam nada no lugar do órgão cortado; mas certos e certíssimos de que ali estava o órgão substituto, e que este era inacessível aos sentidos humanos, não se davam por defraudados, e tornavam aos seus ofícios” (op. cit., p. 328). 

Acrescentemos um novo capítulo inédito ao do Machado.

Neste nosso novo capítulo Fernão Mendes relata que com o correr dos dias e aumento exponencial de enfermos, Diogo Meireles já não podia atender a todos que o procuravam. Além disto, céticos começaram a duvidar da existência dos narizes metafísicos, pois mesmo os desnarigados desenvolveram outros sintomas levando a grande número de óbitos. A doença começava no nariz mas descia pelas vias respiratórias até os pulmões que não podiam ser extraídos como os narizes. Entrementes chegou a notícia que nos reinos de Pegu e Calaminhã a mesma doença havia sido controlada com o isolamento social amplo de todos os habitantes. Os habitantes de Bungo isolaram-se em suas casas, abandonando os seus ofícios. Ao mesmo tempo passaram a reivindicar que o Bonzo Rei (Bungo era um reino teocrático) os proviesse dos recursos materiais que já não podiam gerar, devolvendo para a população parte dos impostos que pagaram (no reino toda renda era taxada em 1/3, exceto a auferida pelos bonzos, isentos por reconhecimento dos benefícios espirituais que traziam para a sociedade). Bonzo Rei então reuniu os seus assessores para tratar do problema. O médico da corte confirmou as notícias advindas dos outros reinos, recomendando o isolamento social amplo. O coletor de impostos ponderou que as finanças da corte entrariam rapidamente em colapso se os habitantes não voltassem aos seus ofícios. “O reino conta”, explicou com precisão matemática, “com cerca de 50.000 contribuintes. Se todos forem infectados, considerando uma taxa de fatalidade de 20%, perderemos 10.000 contribuintes, mas aumentaremos a alíquota dos atuais 33% para 40% dos 40.000 sobreviventes e assim não perderemos renda alguma e poderemos até aumenta-la, considerando que a maioria dos que morrerão são idosos e já não conseguem produzir como os mais jovens”. O médico da corte discordou e foi substituído por Teikimau. Pomadista como Patimau, Languru e Titané, Teikimau mandou todos os mensageiros de Bungo divulgarem: 1/ que por todo o reino seriam aplicados testes em 30% da população, percentual calculado pelos melhores estatísticos da China como amostra representativa de toda a população do reino; 2/ que os melhores médicos das Academias de Sião, as mais reputadas do mundo, haviam calculado o percentual de doentes na população insuficiente para a propagação da doença; 3/ que permanecessem em suas casas enquanto os testes eram realizados até que o percentual de infectados baixasse a este número que garantiria um retorno seguro aos ofícios. Duas semanas depois foi anunciada a boa nova tão esperada pela população, já farta de ficar em casa. Todos acorreram com ânimo redobrado aos seus ofícios. Mas a sucessão impressionante de mortes rapidamente demoliu a opinião que a doença havia sido controlada. Embora insensíveis, os agentes da doença eram reais e não meramente metafísicos como os narizes de Diogo Meireles. A revolta da população obrigou os bonzos que não foram vitimados pela doença a fugir de Bungo e o pomadismo desapareceu dos reinos e senhorios do oriente. 

Fernão Mendes Pinto não tinha como saber a continuidade da história. O pomadismo foi extirpado das Índias Orientais, mas floresceu nas Ocidentais. Um dos seus marinheiros embarcou na expedição de Estácio de Sá e plantou no Brasil as sementes do pomadismo. Como por aqui em se plantando tudo dá, cresceu a tal ponto de contaminar quase tantas mentes quantos pulmões. 

 

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