O terceiro episódio do livro Antifascistas, por Urariano Mota

O encontro das feras literárias se fez em torno da  resistência na literatura contra o fascismo.

O terceiro episódio do livro Antifascistas *

por Urariano Mota

O terceiro episódio é o segundo lançamento.

NÃO PULE A INTRODUÇÃO

Na quinta-feira 21/05/2020, foi a vez do encontro das escritoras Carol Proner, Pilar del Río, Juliana Neuenschwander e do escritor  João Ximenes Braga. Esse lançamento virtual da coletânea e os próximos foram e serão apresentados por Regina Zappa e Leonardo Valente, um dos organizadores do Antifascistas, ao lado de Carol Proner. O encontro das feras literárias se fez em torno da  resistência na literatura contra o fascismo. E acabou o trailer. Vamos sem demora aos trechos dos quatro autores, sem spoiler

AÇÃO NA ESPANHA

Carol Proner:

“Com os dedos comprimindo as têmporas, como que sentindo muita dor, a jovem loira e esguia parece não me ver postada à sua frente. Pergunto se está tudo bem, mas ela permanece alheia. Repito, fitando-a nos olhos: “¿estás bien? A pergunta não deve fazer parte das normas de um aeroshopping, podendo soar como intromissão ou mesmo algum tipo de assédio. Passado o estranhamento, a moça, um pouco pálida, também quebra o protocolo e justifica que está exausta, tendo passado o dia em pé, sem um apoio para sentar. Confidencia, discretamente e já desviando o olhar, que não há quem possa substituí-la para “ir a los servicios”. Espantada com o desabafo, penso em como poderia ajudá-la. Assumir a caixa por alguns minutos não me custaria nada, mas obviamente não avancei tal proposta. Menos descabido seria a moça baixar a porta de aço, deixando um aviso de volto logo, e se aliviar no banheiro ali a poucos metros. Naquele momento a loja estava quase vazia, apenas dois clientes folheavam revistas. Pensei em me aproximar e lhes relatar a situação de emergência, apelar para a solidariedade internacional, pedir que esperassem do lado de fora por cinco minutos. Distraída com essas conjeturas, mal percebo que ela largou o troco na bandeja, como que a marcar distância novamente. Quando vou lhe agradecer, já virou de costas e murmura: “esto no vá bien, esto no está bien”.

AÇÃO NO LEBLON, RIO

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João Ximenes Braga:

“A sra Angela Regina anunciou que, já que havia descido, iria participar da reunião. E propôs que discutissem como os cachorros e porteiros seriam incluídos no racionamento. O sr. Eséas Arnaldo propôs que os porteiros trouxessem água de suas próprias casas, ao que todos os presentes concordaram. E que o caminho para os cachorros nestes tempos era naturalmente o sacrifício, o que despertou uma crise de choro na sra. Catharina.

O sr Fratinelli pediu a palavra para uma nova questão de ordem. Era urgente denunciar o sr Gabriel à polícia pela prática de terrorismo, afinal, ele havia mencionado o MTST na frente de todos, havia testemunhas. O sr Otávio protestou, mas todos os outros concordaram e, diante disso, o sr. Eséas Arnaldo, em nome do condomínio, fez a denúncia no aplicativo do site www.oguardinhadaesquina.gov.br.”

AÇÃO FASCISTA NA WEB PROFUNDA

Juliana Neuenschwander:

“Que sejam destruídos os museus, as bibliotecas, as universidades, os acervos; que sejam apagadas as memórias, as lembranças, as invocações do tempo, do passado e do futuro. Desprezamos a experiência, o conhecimento e toda forma de saber, sejam eles cultivados ou selvagens. O presente é a História.

No presente, a única realidade possível é aquela do espaço-tempo virtual, da multiplicação das redes sociais, tecida por fios invisíveis de palavras cruas e grossas, ásperas, diaspóricas e secas, costuradas por imagens banalmente brutais e pornográficas. No presente, não há possibilidade de espanto, nem tampouco tempo para o escândalo.

Decretamos o fim: o colapso do humanismo, a morte da democracia e a erosão dos direitos humanos. No presente nada que diga respeito ao futuro importa. No lugar da democracia, celebramos o poder da aceleração e a política do pior”

AÇÃO DOS QUE NÃO PROTESTAM

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Pilar del Río:

“Ao não me mover, ajudei a abrir as portas do fanatismo que hoje me envergonha. Não estava sozinho, comigo havia outros, meu irmão e meu vizinho entre eles, cada um com seu fardo, todos conduzidos de maneira tão sutil que quando nos demos conta da existência do monstro, parecia um monumento erguido com nossas próprias mãos, as minhas, a de gente de minha rua ou de trabalho que nunca questionou as regras do jogo, a honestidade dos guardiões do sistema ou o próprio sistema.

Agora, já tarde demais, sabemos que não criamos o monstro, ele estava disfarçado com outro rosto e com outros agentes porque adota oportunamente a forma mais adequada a seus interesses, e por isso proclama em nossos dias que foi convocado por mim, pela História, pela Civilização e por Deus, e com tanta força o proclama que nos paralisa, retornamos ao silêncio, aceitamos com resignação que já não somos quem éramos e com essa conclusão grosseira tratamos de mitigar a tristeza. Mas hoje não: com um fio de pensamento que se desmancha, porque perdi o hábito de pensar, quero proclamar meu desespero e meu desamparo, minha condição humana.”

UM DIA ANTES

Em 28/05/2020, foi a vez da escritora Maria Valéria Rezende e dos escritores Gustavo Felicíssimo e Urariano Mota. Houve momentos de história, humor e memória. Na próxima semana, eu conto.

CRÉDITOS DO EPISÓDIO

Enquanto as emoções seguintes não vêm, aconselho que adiantem a maratona antifascista com a leitura total do livro Antifascistas. À venda aqui: Editora Mondrongo  https://www.mondrongo.com.br/index2.php?pg=noticia&id=233

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RESUMO DA SÉRIE

Cada antifascista é um leitor. Cada leitor é um antifascista.

 

*Vermelho https://vermelho.org.br/coluna/o-terceiro-episodio-do-livro-antifascistas/?fbclid=IwAR0yq1vjCyp7U9W9qIo_HIufQQ6PwXiorVIKphbePeYfxWInfoODe3h5bj8

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