Oh, Minas Gerais, por Rui Daher

Espero terminar (?) a pandemia para visitar Poços de Caldas, Botelhos, Muzambinho, Guaranésia, Nova Resende, Juruaia, Petúnia, e todas cidades, minhas filhas mineiras, por adoção.

Foto Mineiros na Estrada

Oh, Minas Gerais

por Rui Daher

Quero saber. Os fossos sociais, hoje fossas escatológicas – se bem me entendem, cocô, fezes, merda – terminarão com a conscientização que virá pós-pandemia?

Estão aí coisas que me preocupam. Se um dia puder voltar às minhas Minas Gerais para vender insumos organominerais para os cafeeiros da região, continuarão à minha disposição as gordurosas e largas faixas de torresmos que me saúdam? Poderão ser acompanhadas de boas cachaças das plagas montanhosas que, agora, decepcionadas com o café, leite, e tubérculos, desesperam-se a plantar soja, sem aptidão, relevo, clima, enfim, vocação para isso?

Um minuto só de suas atenções. Olhem para 100 hectares de soja e, apenas, dois hectares de café? Quem mais lindo? Dinheiro? Sei lá.

Espero terminar (?) a pandemia para visitar Poços de Caldas, Botelhos, Muzambinho, Guaranésia, Nova Resende, Juruaia, Petúnia, e todas cidades, minhas filhas mineiras, por adoção.

Não me importam seus ares cabisbaixos mineiros, dúbios, sempre colocando cunhas nas conversas políticas, principalmente as atuais, quando pergunto sobre o Regente Insano Primeiro (RIP).

Pouca coragem de dizerem o que acham de Jair. Não que não saibam. Espertos e matreiros, perceberam, mas não confessam. Alguns mais valentes ou hipócritas, o comparam a Lula e Dilma. Argumentos nunca. Salvam a risada, o chope e a cachaça. E vamos! Promover uma guerra fratricida? Pra quê, se a esperança, um lado ou outro vencendo, é nenhuma.

Mesmo assim é o real, e deixam-me saudade os mineirinhos e sua sabedoria. Escapam. Fogem. Oferecem-me uma galinhada com pé-de-porco. Guloso, cedo.  Principalmente, se a cachaça divina do alambique de João Gervásio vier junto.

Como recusar e me lembrar que brasileiro, também sou mineiro?

Na empresa, tenho dificuldade em reconhecer vendedores e clientes que me enganam ou não. Minha sócia e guardiã, a eterna Viviane, rígida e jovem, acredita que sim. Acaba por salvar o véio tonto que sempre acredita nos próximos. Penso, em seus lugares, eu agiria diferente? Nunca tentei.

Ela é rápida: “Sim! E quem se fode somos nós”.

Deve estar certa. O mundo mudou para pior e assim continuará. Daí a necessidade de minha aposentadoria completa. Mas de onde a sobrevivência? Dessas subalternas escritas? Alguém poderá pagar a quem escreve para as digitais, melhor que seja o texto?  Não.

Quero? Sei lá. Se escrevesse como Raduan Nassar, em “Lavoura Arcaica”, talvez. Seria um livro por década. Mas seminal.

Só que não é o meu caso. Perto dos 75, sobrar-me-á o quê? Uma nova ficção, tão perto, mas que vive torturando meu medo e a incapacidade diante dos gênios que leio. Então, faço-me cronistinha barato.

Quem sabe, um novo compilado das mais de três mil crônicas que escrevi depois do livro “Dominó de Botequim”. O que meus filhos farão com elas? Enterrarão junto a mim no jazigo da família do Cemitério do Araçá, em São Paulo? Ou incinerarão, se eu me decidir por cremação? Quero, não. Futuro pós-morte?

Sigo, então, engomando e passando calças:

“Arrepare não, mas enquanto engomo a calça eu vou lhe contar
uma história bem curtinha fácil de cantar/Porque cantar parece com não morrer/É igual a não se esquecer que a vida é que tem razão/Porque cantar parece com não morrer/É igual a não se esquecer/Que a vida é que tem razão.

Esse voar maneiro/Foi ninguém que me ensinou, não/Foi passarinho/Foi olhar do meu amor/Me arrepiou todinho e me eletrizou assim, quando olhou meu coração.

(Repete)

Porque cantar parece com não morrer
É igual a não se esquecer
Que a vida é que tem razão.

(Repete)

É igual a não se esquecer
Que a vida é que tem razão/Arreparem não”.

Sou assim! Venham! E pouco mais me peçam.

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