Olhar em amarelo, por Maíra Vasconcelos

Neste agora tento captar o segundo que me faz. Isto que impulsiona a palavra zonzeante. Tenho a aflição de voltar ao escrito anterior e entender o despertar de cada homem ao meu lado. Mas fico refratária. Não posso voltar, apenas continuar no espaço complexo e imaginar aquelas manhãs abraçadas em perfumes de corpos. Tentar explicar o olho do furacão: se estava debaixo dos lençóis ou se na palma de nossas mãos. Eles são horríveis, me amam tanto e de um modo tal específico, que é esse o jeito da manhã acordada.
A idolatria pela vida é amarela. Este vidrado jeito-de-amar é o passo que tento descalçar da minha sola multicolor. Preciso ser vista em muitas cores – poderia tontear um pintor! Ainda não sei se meu amor provoca somente o bem. Amando sem regras todos viramos bicho? Por que a verdade é mal entendida?

Vou subir num cavalo e imperar imperar. Não posso. O verdadeiro em dose desmedida é apenas verdade vestida de arrogância. E isso é pouco. Busco o mel que paralisa meu estado no tempo e faz de mim um ser útil e brilhante. Produzindo sem intermediários e dependências. Fico fosca somente depois de tão cansada. Às vezes confundo cansaço com preguiça – não sei como trabalhadores exercem suas funções baixo o sol inclemente deste trópico radical.

Amando meus olhos com sono durante a manhã, escrevi escrevi um romance e transformei em espetáculo aquela mulher bem vadia. Ai, meu Deus!, eu disse isso, que sou vagabunda. Isso que apenas declaro calada em sofás alheios, cômoda como um animal sem fome e pressa. Irei me esconder na árvore oca e escaldante e dizer que sou um bicho maléfico à minha própria natureza, constatar que somente quando isolada não faço mal a mim mesma, fugindo, produzindo esses melaços na escuridão.

O que quero com estes escritos? Ficar livre, talvez. Mas se não posso: escrevo sobre a falta desse desgarrar que é maior que eu mesma. Será que alguém já se descolou de si mesmo? Pétalas se despregam. Venero a imaginação porque nela alcanço o impossível. Em todo processo de imaginar existe o intervalo para pisar o mundo. Pausa. Estou agora matando rosas e flores, porque fiquei entojada e sem paciência. Vá catar no chão quem quiser aquilo que agora piso sem nem olhar, num olhar rodante ou paralisante.

Flores enjoam o estômago duro. E acho que agora meu olhar é cruel. Mas não estou nem aí, ter qualquer conduta proibida e displicente alivia o corpo. Quero ser outra coisa e devo diferenciar minhas medidas ancestrais daquelas que possuía ontem. Como falo tais absurdos contraditórios! Às vezes isso funciona para se ter uma diversão estrelada e achar que o céu pesa menos.

De posse desta palavra, hoje seria capaz de definir estados como os de ferrugem gesso e enchentes, coisas que impedem algumas outras de acontecer e proliferar, moldando um tom único: enferrujado engessado ou transbordado. Afinal, hoje estou mesmo no impedimento das coisas. Estou impedindo a mim mesma de usar uma maquiagem melhor, menos derrotada e esfacelada – minhas atrizes dependerão sempre da maquiagem que me importa tão pouco. Mesmo se devo vencer todo mau amor usando mais batom vermelho.

Meus amores me amam tanto quando despertam raiosos e agradecidos pelo olhar que lhes dedico, grudando-me mãos que eles juram quererem me entregar. Disputamos quem se desprende mais rápido do próprio corpo. A cama fica vazia. E depois nos buscamos desesperadamente.

O tempo da palavra anda ou corre num vulto imprevisível. Amanheceu, e hoje não existe a mesma pretensão de ontem à noite. O Amor está muito corriqueiro e presente e não preciso mencioná-lo, sequer buscá-lo. A chuva necessária despencou dos céus. Quando saía do táxi, vi de relance um maravilhoso raio.

Agora não sei mais o que preciso para escrever. Vou tomar um café no Alphaville de Campinas, e depois direi que aqui os trabalhadores almoçam no forno, os outros-privilegiados têm ar-condicionado. Fiquei gelada. Tem gente que finge nada ver para viver menos culpado. Deus se visse esta cena almoçaria no inferno, talvez.

Não faço esforço para ver o que a mim não se revela. E Deus jamais teve a honra de ao menos se apresentar. Não sei qual roupa Ele veste, e se sua vestimenta não existe, logo o considero sem corpo e sem corpo não há palavra, há natureza bichos e flora. A palavra é a veste exclusiva do humano. Deus não me reflete. Prefiro quebrar meus próprios espelhos, que sou eu mesma e o outro. Deus não é meu outro. Nunca me disse: prazer.

Possuo um retrato constantemente sendo feito. São vários os moldes. Meus retratos mudam muito porque a palavra corre demais. Quem faz um retrato desta face e corpo, perde o tempo na atualização frenética inerente ao ser crítico de si mesmo. O não fundamenta. Quem vive de sim em sim fica mais pobre em poucos anos. Riquezas são raras.

Pisei em outra flor e disse não ao seu frágil caule. Sustento-me. Flores às vezes nos idiotizam, e isso é fundamental também. Perdi-me do amor no meio deste escrito e agora flores abundantes terão que esperar. As flores estão no tempo do chão. Tampouco tenho músicas, minhas mãos estão reunindo outras miudezas, começo a olhar o fundo das cores – preciso variar o amarelo.

Escrevo desde um lugar arenoso e meu espectro é outro.

O amor esconde as mortes pelas quais ele pulsa, na veia aberta e flexível. Voltarei ao amor porque ainda não posso me desprender dos complementos que rebocam minha face. Outro retrato, por favor. Como caminhar pode ser tão fatal. Eu gostando de mim 24 horas, acho que nunca aconteceu. Eu esqueço. Gastarei mais quantos finos ossos de manhã, cedinho, nesta indefinição de mim que me faz rastejar por respostas. Sempre em sentido ao outro que me deixa vaga e gaga. Eu te amo. Vou agarrar novo raio solar, e ao despertar mais uma vez em olhos de sono, vejo a vida no começo.

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